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A máfia italiana também lucra com a crise de refugiados. Segundo o jornal El Mundo, vários grupos da máfia italiana têm expandido os seus negócios com os migrantes: desde o alojamento à prestação de cuidados de saúdes, ambas mediante pagamento de somas avultadas, passando pela venda de falsos coletes salva-vida, de lanchas, vendidas a traficantes turcos, de mantimentos e garrafas de água e de roupa, sempre acima do seu preço original.

Em Itália, por exemplo, os negócios feitos pelo máfia italiana com refugiados já valem 800 milhões de euros, relata o jornal espanhol. Isto porque a máfia se apropriou dos centros de abrigo italianos, destinados aos refugiados, através de contratos celebrados com o estado — algo que estará a ser investigado pelas autoridades italianas, segundo o El Mundo. A tese é defendida por uma responsável da Libera, uma associação que procura combater a máfia, Gabriella Stramaccioni, em declarações citadas pelo jornal espanhol:

A chegada de requerentes de asilo [refugiados] converteu-se num grande negócio. Acreditamos que muitos centros [para refugiados] estão envolvidos [no negócio], em várias cidades”

Nos centros de Nápoles, Roma e Sicília, por exemplo, a qualidade da gestão dos centros para refugiados desceu bastante e esta passou, segundo as autoridades italianas, citadas pela publicação espanhola, para o grupo Mafia Capitale. O presidente da câmara de Roma, Ignazio Marino, confirma a situação: “Nos últimos anos, políticos e funcionários corruptos aproveitaram o drama migratório. (…) Em vez de servir os pobres [os refugiados], aproveitaram-se” deles.

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Mas a atuação da máfia italiana está longe de se cingir a território italiano. A Camorra, por exemplo, opera também no corredor entre a Turquia e a Grécia, produzindo lanchas para vender aos traficantes turcos, que por sua vez as vendem aos refugiados. Estes servem-se delas para atravessar o Mar Egeu, uma viagem que muitos não terminam: só em janeiro já morreram mais de uma centena de refugiados durante a viagem.

Outro dos negócios em que a máfia italiana se aproveita das necessidades dos refugiados é na venda de cartões para telemóveis, de roupa, de garrafas de água e de mantimentos, que vendem a preços abusivos. Segundo o El Mundo, “a preços praticados nos Campos Elíseos”.

Há ainda outras áreas em que a Camorra, Cosa Nostra e ‘Ndrangheta atuam, como o corredor que liga a Síria, Iraque e Afeganistão aos países vizinhos, que o El Mundo descreve como “terras de ninguém”, onde responsáveis da máfia italiana vendem alojamento e cuidados de saúde aos que deles necessitam, e na área do tráfico de droga, onde, segundo a polícia italiana, a máfia usa refugiados para transportar droga até à Europa central e para tráfico humano, em particular de mulheres, dedicadas à prostituição.