A pergunta, de tantas vezes repetida, já cansa. E, às vezes, àqueles a quem compete responder foge-lhes a boca para a verdade. E agora, Espanha? “O mais provável é que tenhamos novas eleições a 26 de junho.” Uma frase simples, desabafo fingido, que serviu para Mariano Rajoy pôr ainda mais pressão sobre Pedro Sánchez, o acossado líder dos socialistas espanhóis que tem a difícil tarefa de desencantar um acordo de governo até à próxima semana.

“O espírito barroco ficou-nos no ADN”, brinca Cristóbal Herrera, um analista político espanhol da consultora Llorente y Cuenca, que explicou ao Observador a visão que tem do atual panorama do país vizinho. Tal como o barroco é a arte da exuberância e das formas curvas, também nuestros hermanos dominam o nobre ofício de “complicar o que poderia ser fácil”, diz Herrera, que é de opinião que acabará por haver um acordo de governo mais cedo ou mais tarde. “Em abril, é possível que a tensão seja tanta que o Podemos acabe por ceder.”

Porque é nas mãos do Podemos que está a chave para a resolução deste imbróglio. O partido de Pablo Iglesias tem três opções: ou faz um acordo de governo com o PSOE; ou abstém-se na investidura de um governo do PSOE com o apoio de Ciudadanos e partidos pequenos; ou vota contra um governo desse tipo e força novas eleições legislativas. Neste momento, parece que um acordo entre socialistas e Ciudadanos está mais próximo do que qualquer outra solução governativa e é isso que Sánchez deverá levar aos deputados a 2 de março, dia em que começa o debate de investidura. Previsivelmente, tal debate vai redundar em fracasso e fica tudo em águas de bacalhau.

“A única forma que Pedro Sánchez tem de ser presidente do governo é conseguir que o Podemos mude o seu voto”, diz Cristóbal Herrera, que explica que “há duas almas dentro do Podemos”. Há a alma anticapitalista de Pablo Iglesias e daqueles que lhe são próximos e, por outro lado, uma tendência social-democrata, teoricamente mais propensa a entendimentos com o PSOE. Ora, acordos parecem ser um horizonte longínquo para os dois partidos. Depois de Sánchez ter sido claramente proibido pelas bases de negociar com qualquer partido que sequer proponha um referendo na Catalunha, Pablo Iglesias apresentou um extenso documento onde consta essa ideia, entre outras também potencialmente polémicas.

“O Podemos pôs em cima da mesa propostas que sabe que o PSOE não pode aceitar”, diz Herrera, que notou irritação na forma como os socialistas reagiram ao documento. Nele há propostas que visam dotar a vice-presidência (cargo que Pablo Iglesias quer) de poderes sobre juízes, procuradores judiciais, serviços secretos e os serviços públicos de rádio e televisão.

“Parece que estão a apostar mais em novas eleições. Quando falas em referendo a um partido que não quer referendos é não ter vontade de fazer acordos”, comenta o analista, cujo trabalho é recolher informações sobre o panorama político de Espanha e depois, com base nisso, aconselhar empresas sobre o que devem fazer no futuro. Entre os clientes da Llorente y Cuenca estão fundos de investimento, bancos e empresas do setor energético.

E Rajoy está fora de jogo?

Não havendo um pacto entre Iglesias e Sánchez (que depois de dizer que não queria ver o líder do Podemos por perto já aceitou uma reunião entre PSOE, Podemos, Izquierda Unida e Compromís), o melhor que o socialista pode esperar é que os deputados morados se abstenham na investidura do tal governo com o apoio do Ciudadanos. Isso não deve acontecer já já, mas Herrera está convicto de que acabará por se tornar inevitável. Só que não há outra forma de consegui-lo a não ser através de um conflito. “Para Sánchez ser presidente, o Podemos tem se partir ao meio. Para Rajoy ser presidente, o PSOE tem de se partir. São as únicas opções.”

É provável que, nas próximas semanas, isto ainda dê várias voltas. Falhando Sánchez, o rei Felipe VI deve voltar a convidar Rajoy para formar governo. E o PP, a carochinha com quem ninguém quer casar depois de tantos escândalos de corrupção em catadupa, só tem hipótese de ficar no poder se não for Mariano Rajoy a apresentar-se, diz Herrera. “Mas isso não vai acontecer. Mariano Rajoy entende que merece a oportunidade.”

Se o PP apresentar uma pessoa que não tenha qualquer relação com casos de corrupção, alguns socialistas poderiam abster-se. Esta é a perceção de algumas pessoas do PP, mas penso que é irrealista. O custo para o Partido Socialista é tão alto que não há nenhum deputado que queira arriscar.”

Posto isto, o saco de gatos em que a política espanhola se transformou parece não ter fim para breve. E mesmo havendo novas eleições, o cenário é igualmente imprevisível. Embora dentro do Podemos haja a convicção (suportada pelas sondagens) de que novas legislativas poderiam favorecer o partido, Herrera pensa que “nenhum partido está seguro de que numas eleições as coisas corram bem”, pelo que as incógnitas ficariam longe de estar resolvidas. Os espanhóis vão continuar a fazer barroco.