“Um país para as pessoas. Bases políticas para um governo estável e com garantias”. É assim que se chama o documento de 98 páginas que o Podemos apresentou esta segunda-feira ao PSOE e aos espanhóis para os dois partidos se sentarem à mesa e discutirem a possibilidade de formarem um executivo. Daquelas páginas constam, entre outras coisas, duas exigências: a de um referendo sobre a independência da Catalunha e a de reformas profundas e urgentes no sistema político espanhol. O PSOE, que não tardou a responder, lembrou ao Podemos que é aos socialistas que compete liderar este processo.

O Podemos é claro naquilo que escreve, ao assumir que prefere um governo de coligação do que acordos pontuais no Congresso dos Deputados. “Só um governo de coligação PSOE/Podemos/Esquerda Unida pode oferecer a estabilidade imprescindível para cumprir um programa de mudança da envergadura necessária para afrontar os problemas que nos compete resolver”, lê-se na proposta. Pouco mais à frente, a envergadura das mudanças é explicada. O novo governo, escreve o Podemos, “tem de levar a cabo uma série de correções urgentes na estrutura do Estado”, nomeadamente no que diz respeito à “estrutura ministerial”. Entre outras sugestões, o partido de Pablo Iglesias propõe mesmo que se crie um Ministério da Plurinacionalidade.

É no âmbito desse novo organismo, desenhado para responder “à evidente necessidade de construir novos espaços” de diálogo entre o Estado central e as diferentes comunidades autónomas, que o Podemos quer resolver “as causas do bloqueio político existente na Catalunha”, com recurso a um referendo sobre a independência da região. Tirando algumas referências esparsas, o partido apenas dedica três parágrafos a este tema, nos quais deixa claro que o plebiscito se destina somente aos catalães e que será feito de acordo com a Constituição espanhola — garantindo assim que as recentes tensões entre Madrid e Barcelona a propósito do processo independentista ficam (parcialmente) sanadas.

Apesar do tema Catalunha ser o potencialmente mais fraturante entre o Podemos e o PSOE, ele não passa de uma nota de rodapé no documento, que se foca muito nas questões sociais — uma das principais bandeiras do partido de Pablo Iglesias.

Este governo deve dar prioridade ao resgate das pessoas que se encontram nas piores condições, à criação de emprego digno e com direitos e à reversão dos cortes nos serviços públicos que se fizeram nos últimos anos. Também deve ser um governo comprometido com a regeneração democrática de que o nosso país precisa, para acabar com a corrupção e o nepotismo.”

“Pablo, no sabes dónde estás”

Num eventual governo de coligação de esquerda, caberia ao líder do PSOE, Pedro Sánchez, a presidência do executivo. Mas Pablo Iglesias não abdica de ser vice-presidente, o que corresponde sensivelmente ao cargo de vice-primeiro-ministro português. É “um mecanismo de check and balance, controlo e contrapeso, isto é, uma garantia de que no nosso país se acabaram (…) os governos que não prestam contas”, lê-se no documento. Pablo Iglesias propõe-se a ficar, na vice-presidência, diretamente responsável pelo gabinete de Direitos Humanos do governo e por uma secretaria de Estado de luta contra a corrupção e o crime organizado.

Na conferência de imprensa de apresentação destas linhas programáticas, Pablo Iglesias disse que está otimista quanto ao desfecho das negociações com o PSOE. “Trabalhámos muito neste documento e vou deixar a pele para que cheguemos a um acordo para formar governo. Seremos leais e esse governo será o melhor para Espanha”, disse o líder do Podemos.

O partido apelou ao Ciudadanos para que se abstenha na eventual tomada de posse de um governo de esquerda, mas não abriu a porta diretamente a negociações. Para já, o Podemos decidiu enviar o documento a todas as forças políticas com assento parlamentar (incluindo o Partido Popular).

Quem não perdeu tempo a reagir às propostas de Iglesias foi o PSOE. O porta-voz socialista no Congresso, Antonio Hernando, afirmou que o partido recebeu as palavras do líder do Podemos “com perplexidade, preocupação e deceção” e foi ainda mais contundente na mensagem:

Pablo, não sabes onde estás. Em que momento é que nos perdemos e o chefe de Estado te encarregou a ti da investidura?”

O PSOE quer que Iglesias “abandone um papel que não lhe corresponde” e deixe que sejam os socialistas a conduzir este processo. O debate de investidura de Pedro Sánchez foi marcado esta segunda-feira para o dia 2 de março, daqui a duas semanas. A primeira votação (em que a maioria absoluta é obrigatória) deverá ocorrer a 5 de março, data a partir da qual começa o relógio a contar até ao dia 2 de maio. Se até aí não houver governo, as eleições são convocadas automaticamente no dia seguinte.