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Quando os espanhóis desembarcaram na América Central, em 1517, há muito que a civilização maia tinha conhecido o seu fim. Depois de um período de grande prosperidade, o poder político e económico dos maias começou a pouco e pouco a decair. Por volta de 850, a população começou a abandonar gradualmente as principais cidades e, em menos de 200 anos, a civilização, outrora a mais importante da América Central, ficou resumida a pequenas aldeias.

Durante muito tempo, os motivos que levaram à queda da civilização maia permaneceram um mistério. Mas isso não impediu os arqueólogos de avançarem com algumas hipóteses, como o colapso das rotas comerciais, uma invasão ou uma guerra civil. Porém, desde que foram reunidos os antigos registos climatéricos no início dos anos 90, uma teoria tornou-se unânime entre os investigadores — a civilização centro-americana conheceu o seu fim devido a um período de seca extrema. Tão simples quanto isso.

Contudo, apesar de atrativa, a explicação tinha alguns problemas, como explica a BBC. A maioria das cidades maias que ficaram desabitadas durante o século IX estavam localizadas no sul do continente, numa zona que atualmente corresponde aos territórios da Guatemala e do Belize. Já na península Yucatan, no norte (agora México), os maias não pareciam ter sido afetados pela súbita alteração climática. Muito pelo contrário — durante o mesmo período, as cidades do norte floresceram. Foi aliás durante o século IX que surgiu a mais importante de todas — Chichén Itzá, uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Apesar das tentativas dos investigadores, nunca foi possível encontrar uma teoria que explicasse a discrepância entre as cidades do sul e do norte, uma realidade que pode finalmente estar a mudar. Um novo estudo realizado por um grupo de arqueólogos norte-americanos e britânicos, publicado em dezembro, veio ajudar a sustentar a hipótese de que o motivo que levou à queda da civilização maia no sul não é assim tão diferente do que causou o fim dos maias no norte.

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Não uma, mas duas secas

Para o estudo, “The political collapse of Chichén Itzá in climatic and cultural context“, foram reunidos pela primeira vez mais de 200 dados recolhidos ao longo da península Yucatan, no norte do antigo território maia, o que permitiu reconstruir uma cronologia para as cidades nortenhas e determinar quando é que estas começaram a desaparecer.

Ao contrário do que inicialmente se pensava, a civilização do norte também sofreu um declínio durante o período de seca que atacou o sul. Recorrendo à datação por carbono, os arqueólogos puderam determinar o ritmo de produção de materiais nas cidades do norte e compará-lo aos já conhecidos registos climatéricos. A primeira alteração foi encontrada durante o século IX, num período em que se acredita que as secas causaram o colapso das cidades maias a sul do território.

Este primeiro dado não é relevante, uma vez que sabe que, após esta data, o norte continuou a florescer até, pelo menos, ao século X. O que é novidade é a diminuição na produção de gravuras e de outras peças entre os anos 1.000 e 1.075, uma época de seca severa — a pior seca que a região sofreu em dois mil anos. A esta queda, segue-se uma recuperação, seguida, novamente, de outra diminuição. Os registos climáticos mostram que isto aconteceu numa altura em que o nível de precipitação diminuiu drasticamente, isto é, entre 1.020 e 1.100, coincidindo com a data em que se estima que a civilização maia do norte tenha começado a desaparecer.

Isto significa que entre a queda do sul e do norte, o território maia sofreu duas ondas de secas intensas, das quais foi impossível recuperar. Depois da seca que arrasou a península de Yucatan, Chicén Itzá e todas as grandes cidades maias nunca mais seriam as mesmas. Mas o que é que destruiu definitivamente os maias?

“Sabemos que houve um aumento de conflitos e da instabilidade socio-política na área maia antes do período das secas do século IX”, disse à BBC Julie Hoggarth, da Universidade de Baylor, no Texas, que co-dirigiu o estudo publicado em dezembro. Esta situação, aliada à falta de alimento provocada pela seca extrema, poderá ter sido a causa do fim definitivo da civilização centro-americana, que se viu obrigada a abandonar as suas terras e a emigrar.