“La Fresca”, foi este o nome dado aos chuveiros que vão abençoando os visitantes do Brunch Electronik, gente que dada às coisas da comida sem horas certas e da música eletrónica. Foi assim neste primeiro domingo e assim será até 18 de setembro: transformar o almoço numa festa que vai até depois-de-jantar, com um pezinho de dança e muita relva.

Às 15h ainda são poucas as pessoas no recinto, com a letargia boa de um dia de preguiça. A relva sintética em frente do palco está vazia, ninguém parece estar apto para arriscar na pista de dança. Se uns permanecem no lounge à sombra com um copo na mão, outros aproveitam para tomar o pequeno-almoço (sim, o pequeno-almoço) ou para almoçar, mal chegam ao recinto. A ementa pode ser escolhida entre as food-trucks e um menu de brunch numa espécie de cozinha ao ar-livre.

Naquele momento, algumas dezenas de pessoas passeiam de tabuleiros cinzentos na mão, com a fruta, os croissants e os sumos naturais a piscar o olho a quem ainda está de barriga vazia. Ouve-se de um lado, o português “vamos para ali”, em que duas amigas apontam para uma mesa com sombra, e um inglês “over here [aqui]”, com um casal de estrangeiros que tem a mesma ideia. Vai tudo dar no mesmo e com idênticos dilemas: se as formigas invadem os pés de quem usa sandálias e o Sol provoca escaldões às peles mais sensíveis, as árvores tornam-se autênticas zonas de proteção com direito a estender a toalha. É escolher.

Uma hora passada e as batidas aumentam, a música é mais audível e o público desinibe-se com o DJ lisboeta Afonso e logo a seguir Vahagn, da Arménia, no palco. Uns arriscam pousar as mochilas e até dançar descalços, mas alguns pais continuam de olho nos filhos, que deixam que as pinturas faciais e o zumba do “Petit Brunch” os entretenha durante a tarde.

Não é o caso de Joana Sousa Dias, de 35 anos. Ao mesmo tempo que está atenta ao que se passa no palco, vai mexendo no carrinho de bebé do filho. Quando lhe perguntamos o porquê de trazer o garoto para o evento, respondeu com a moeda de troca mais óbvia: “Porque não?”. Ora bem: “Já tinha ouvido falar do Brunch Electronik de Barcelona e para uma fã de música eletrónica, o evento está dentro das expectativas. Estou a gostar”, diz-nos.

Ainda está há pouco tempo dentro do recinto, “cerca de 10 minutos” mais precisamente, mas Carolina Mimoso, de 24 anos, sabe ao que veio e quem quer ver. “Vim para ver o Moodymann e o MK”, explica. É uma lisboeta “emprestada”, vem do Algarve e estuda na capital. Embora seja fã do tipo de música do evento, desconhecia o sucesso de Barcelona e chegou até à Tapada da Ajuda porque as redes sociais fizeram o trabalho bem feito: “Tive conhecimento do brunch através do Facebook”. Embora estejam previstas 14 edições do Brunch Electronik Lisboa, até 18 de setembro, apenas comprou bilhete para este domingo.

Até lá, há muito calor para suportar, batidas para sentir, cocktails para experimentar e trabalho a fazer. Foi entre o rodopio de afazeres de dois dos organizadores do Brunch Electronik Lisboa que o Observador esclareceu alguns pormenores junto do staff. Para Loic Le Joliff, diretor artístico, a capital portuguesa revelou-se “uma escolha natural”:

O bom tempo e o entusiasmo do público face à música eletrónica tornaram-se uma combinação imbatível. Queremos que o evento em Lisboa tenha o mesmo impacto que em Espanha”, rematou.

Em Barcelona, o Brunch Electronik conta com cinco edições num “espaço maior e com maior reconhecimento”, segundo o organizador. Porém, a “boa receção” do Picnic Electronik Lisboa no ano passado, o mesmo conceito com outra atividade, pode ter o mesmo efeito neste brunch alfacinha.

O português Vítor Silveira, da direção de programação, esclarece ainda que uma das ideias é desmistificar o facto de a música eletrónica pertencer à noite. “Acho que esse conceito está um bocadinho desatualizado. Para quem não tem paciência para estar à noite na discoteca, pode ouvir música num domingo à tarde”, afirma. Tal como ele, cerca de 100 pessoas estão a trabalhar no evento, entre seguranças, paramédicos, funcionários dos bares e artistas.

O Brunch Electronik Lisboa vai estar todos os domingos até 18 de setembro na Tapada da Ajuda em Alcântara, a partir das 13h e até 22h. O preço dos bilhetes diários vai desde os nove até aos 12 euros, consoante a disponibilidade e o dia em que são adquiridos. Já os passes gerais custam a partir de 59 euros.