“Como homem, é uma pessoa exemplar. Inteligente, uma pessoa que se rege pelos valores universais, honestidade, humildade e tudo isso. Para mim, é o que mais importa num atleta desta magnitude. É o exemplo que ele pode dar às camadas mais jovens. Porque as vitórias hoje celebram-se e amanhã esquecem-se. Em termos de valores, ele é o rei, é o exemplo.”

O que mais lhe elogia não são os resultados que ele foi buscar com os pés numa prancha e os braços presos a uma vela. É a pessoa. José Manuel Leandro bem avisa que, para falar sobre quem lhe peço que fale, talvez “dez horas seria pouco”. Surpreende, porque enche a boca de coisas boas e deita-as todas cá para fora quando se refere à pessoa com quem nem sequer tem “uma relação muito próxima”. Mas não se poupa no bom que diz sobre o senhor que, aos 44 anos, vai repetir pela sexta vez um sonho que muitos passam uma vida a caçar.

É por isso que me limito a transcrever as primeiras seis frases que o presidente da Federação Portuguesa de Vela debita sobre João Rodrigues. Porque ele é um monstro. Não dos que atormentavam o imaginário e os mitos que viajavam de boca em boca, há séculos, de quem se metia em barcos e se armava em descobridor. Mas dos que se agigantam por continuarem a esticar no tempo as aventuras que têm no mar. É, sobretudo, por isto, que nas mãos de João Rodrigues estará, esta sexta-feira, a bandeira de Portugal. Ele será o porta-estandarte, o atleta que vai liderar os 93 portugueses que vão competir no Rio de Janeiro.

Visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao Brasil

Marcelo Rebelo de Sousa emocionou-se a entregar a João Rodrigues a bandeira que o velejador vai levar na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro

Já não era sem tempo, suspira José Manuel Leandro, de voz felizarda por falar na justiça que se fez quando se nomeou o velejador. “Não compreendo porque não o foi em Londres. Mas fez-se justiça. Com o seu currículo, Portugal fica muito mais bem visto”, resume, sem que um traço de dúvida lhe agite a certeza com que enche o que diz. A honra chegou-lhe tarde, demasiado, mas por fim vai ser premiado por tudo o que tem feito desde os 9 anos, quando experimentou o windsurf nas águas e ventos da Madeira. Aí começou a história.

Dois anos volvidos e o miúdo já estava a competir numa regata regional. Aos 16, com o jeito e a dedicação que lhe sobravam, teve a primeira internacionalização, que é como quem diz, foi à boleia de ventos estrangeiros. Hoje vai com mais de 140. Foi no meio delas que colecionou as 54 medalhas que deve ter guardadas em casa, pedaços que o lembram dos títulos europeus e mundiais que tem na mira desde a década de 80. Pelos vistos nunca quis parar. Está com 44 anos e lá está ele, no Rio de Janeiro, preparado para os seus sétimos Jogos Olímpicos. Não é obra, é proeza.

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A testa de quem manda na Federação Portuguesa de Vela (FPV) não ganha rugas de surpresa com isto. José Manuel Leandro admite que “estava à espera” e não precisou de ser tu cá, tu lá com João Rodrigues. “Só quem não o conhece é que não acreditaria”, abrevia, sabedor da forma como o velejador vive a sua vida e essa vida o deixa continuar a velejar. O madeirense, explica, faz dos dias, das semanas e dos meses algo como um estágio para uma competição, algo que lhe sai de forma natural. “Trata-se ao mais alto nível, em termos físicos e mentais. Pode não estar em competição, mas, no dia-a-dia, é como se estivesse. Cuida-se ao mais ínfimo pormenor e, fisicamente, está melhor do que muitos jovens”, revela o presidente da FPV, admirador do homem para lá do desportista.

Percebe-se. Esta é a pessoa que, inquirido pelo Diário Notícias sobre as memórias de cada um dos Jogos em que já esteve, falou sempre mais de vivências do que de resultados ou regatas. Como o choro de um atleta irlandês que mexeu com ele em 1992, sob a bandeira gigante que os cobriu no estádio de Montjuic, em Barcelona. Como nem o realizar, em 2004, no meio de Atenas, de que estava a ficar para trás na carreira de engenheiro mecânico o fez dar menos gás na paixão de ser velejador. Já lá vão quase 25 anos de olho em Jogos Olímpicos, não há outro entre os cerca de dez mil atletas que estão no Rio de Janeiro com tantas participações. “Ele irá com certeza lutar para estar no top-10. Se o conseguir já é um feito extraordinário. Mas, mais do que isso, é estar presente nos sétimos Jogos”, congratula José Manuel Leandro.

Nada descabido, porque João Rodrigues conseguiu-o por duas vezes. Em 1996 sai de Atlanta com o sétimo lugar na classe Mistral, bem depois de se decidir a ir aos EUA deitado no tejadilho de um jipe, na fronteira espremida entre Espanha e Portugal, onde mirou as estrelas e soube que era isto que queria fazer. Em 2004 levou uma sexta posição de Atenas, onde os ventos de mau humor e o calor puxaram muito por toda a gente que andava a competir dentro de água. Antes e depois, registou um 23.º lugar em Barcelona (1992), um 18.º em Sydney (2000), um 11.º em Pequim (2008) e um 14.º em Londres (2012).

WEYMOUTH, ENGLAND - JULY 31: Joao Rodrigues of Portugal competes in the Men's RS:X Sailing on Day 4 of the London 2012 Olympic Games at the Weymouth & Portland Venue at Weymouth Harbour on July 31, 2012 in Weymouth, England. (Photo by Richard Langdon/Getty Images)

João Rodrigues durante uma das regatas dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Foto: Richard Langdon/Getty Images

Seria fácil estar aqui a brincar, escrevendo que pelo menos uma dezena de atletas portugueses que vão estar no Rio ainda estavam por nascer quando João Rodrigues participou nos Jogos pela primeira vez. Mas é preferível, como sublinhou José Manuel Leandro, puxar pela “dedicação total à coisa” que se reflete na longevidade do madeirense. Tantos anos no topo, a velejar à frente de todos, contudo, também mostram o outro lado da moeda que já não cai bem na carteira do líder da vela. “Como é que alguém conseguiu ir a sete Jogos e não haver competição pelo lugar? Essa é a parte negativa. A positiva é que ele não tem culpa disso e tem demonstrado que, mesmo sem competitividade interna, ele conseguiu sempre ficar no topo das qualificações. Se tivesse competição interna, talvez se teria suplantado ainda mais”, argumenta José Manuel.

A prancha e a vela que dão vida a João Rodrigues nunca tiveram seguidores por aí além em Portugal. Os custos do equipamento, a dimensão do material e a pouca gente a praticar a modalidade sempre a encravaram. “Temos um campeoníssimo na modalidade, mas, em termos de desenvolvimento da classe olímpica em Portugal, nunca teve grande repercussão”, lamenta o presidente da federação. Os miúdos, mesmo com o exemplo de um monstro do windsurf (ou do RS:X, denominação olímpica), nunca se cativaram. Também não ajuda o facto de, desde 2012, o Estado ter cortado 34% nas verbas para a vela, queixa-se José Manuel Leandro. O que o obriga a uma ginástica que não tem e a ter que optar por “uma ou duas” entre as dez vertentes olímpicas.

Nunca conheci uma pessoa no desporto como ele. Um atleta de alta competição, às vezes, tem atitudes que apenas são compreensíveis pela pressão. Mas ele nunca foi menos correto para comigo, para com a Federação ou quem seja. Nunca teve uma palavra de menos simpatia ou respeito.”

José Manuel tem pena, confessa-o, de ver tamanho exemplo deixar um legado que vê muito poucos seguirem. Gaba-se, como se o país fosse a sua pessoa, de ter um atleta que, aos 44 anos, ainda diz que faz ioga todos os dias e se alimenta como se estivesse em estágio para uma competição. Farta-se de elogiar “o exemplo” do que deve ser “um atleta desta magnitude”. Estes serão os últimos Jogos Olímpicos para João Rodrigues, o graúdo que disse estar a “todo a tremer”, como um miúdo, e “profundamente honrado” assim que soube que ia ser o porta-estandarte. Até nisso foi um exemplo.