As declarações do secretário-geral das Nações Unidas não terão caído bem no governo português. Ban Ki-moon defendeu esta terça-feira que o próximo responsável pela organização deve ser uma mulher.

A reação de Portugal chegou pela voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, numa declaração ao Diário de Notícias: “Como o próprio disse, não compete ao secretário-geral em funções escolher o próximo“. Santos Silva recordou palavras recentes de Ban Ki-moon, que em entrevista ao Expresso em maio, sublinhou a necessidade de “ser neutral e imparcial neste processo”, mostrando-se “confiante no novo processo de escolha” do sucessor.

Temos muitas mulheres que são líderes distintas e respeitadas em governos nacionais ou outras organizações e até em comunidades empresariais, políticas e culturais e todos os outros aspetos da nossa vida. Não há razão para que não [tenhamos também] nas Nações Unidas”, veio agora dizer o secretário-geral das Nações Unidas, acrescentando: “Esta é a minha humilde sugestão, mas a decisão é dos Estados-membros”.

Ao DN, o embaixador Francisco Seixas da Costa, que já ocupou o lugar de secretário de Estado dos Assuntos Europeus, num governo liderado por Guterres, considerou que foi “uma declaração infeliz e que jamais deveria ser proferida por alguém que deveria ser imparcial e manter a neutralidade e, muito menos num momento como este, em que já estamos nesta fase avançada da votação”.

O diplomata deu ainda um conselho a António Guterres: “Não deve tomar posição, esta declaração veta-se a si própria, basta-se a si própria. Guterres deve ignorá-la e não lhe dar qualquer valor”.

Também em declarações ao DN, a ex-deputada do PSD e especialista nas questões da ONU, Mónica Ferro defende que Ban Ki-moon tem toda a legitimidade e dever de promover a paridade entre géneros nas nomeações da organização. Mas teve dez anos para o fazer e não o fez”. Para a especialista, o atual secretário-geral podia, por exemplo, “ter nomeado para vice-secretário-geral uma mulher e não o fez“. Por isso, Mónica Ferro entende a declaração de Ban Ki-moon como “uma forma de dizer «fiz tudo para que fosse nomeada uma mulher»”.

António Guterres ficou à frente nas duas primeiras votações, e parece estar a reunir a preferência dos vários países da ONU. A verdade é que a carta da ONU foi o primeiro tratado internacional que declarou a igualdade entre homens e mulheres, mas a organização nunca teve uma mulher à frente. Em 70 anos, foram oito homens a ocupar o lugar de secretário-geral.