Começou com uma fotografia de grupo. Os cerca de 100 jovens que foram selecionados para participarem na Universidade de Verão do PSD dispõem-se no hall de entrada do hotel onde tudo vai decorrer e, em coro, dão o tiro de partida para a Universidade de Verão do PSD: “Bem-vindos à UV”, entoam. Arrancou esta segunda-feira a habitual semana intensiva de “formação cívica e política” dos jovens sociais-democratas, que dura até domingo. Aqui há aulas, conferências, trabalhos de grupo. E regras, muitas regras.

Na edição deste ano (a 14ª), e num recurso de última hora, os alunos sociais-democratas vão ter como professor um ex-líder do partido que, por sinal, tem sido muito crítico da liderança de Pedro Passos Coelho: Luís Marques Mendes vai ser o orador do jantar-conferência de quarta-feira, em substituição da maestrina Joana Carneiro, que não pôde comparecer. No painel de docentes vão estar nomes como o socialista, e ex-presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, os dirigentes sociais-democratas Maria Luís Albuquerque e Jorge Moreira da Silva ou Carlos Moedas, Miguel Poiares Maduro, Paulo Rangel ou ainda o líder grego da Nova Democracia, Kyriakos Mitsotakis.

Para além dos professores, que vão estar a cargo das várias aulas temáticas (da economia à Europa, passando pela social-democracia), haverá ainda um espaço habitual dedicado a perguntas e respostas a personalidades diversas, feitas à distância. Este ano os alunos sociais-democratas vão poder contar com nomes como o selecionador nacional de futebol Fernando Santos ou o ator e comediante César Mourão. A ideia é os alunos fazerem várias perguntas àquelas personalidades e, no final, os interlocutores respondem, por escrito, a apenas duas delas, à escolha.

O PSD não é, contudo, o único partido a dar aos seus “jotas” um cheirinho de futebol. Também a Escola de Quadros do CDS, que vai decorrer a partir de quinta-feira até domingo, vai ter como um dos oradores o responsável pela estratégia de motivação e comunicação da seleção portuguesa de futebol durante a preparação para o Euro 2016.

Com um arranque ainda pouco político, a sessão de abertura desta segunda-feira contou com a intervenção do reitor Carlos Coelho, do líder da JSD Simão Ribeiro, do primeiro vice-presidente do PSD Jorge Moreira da Silva e ainda do presidente do Instituto Sá Carneiro Pedro Reis, que foi quem afinou o tom político: “Temos uma oposição que se porta como governo e um Governo que se porta como oposição”, disse aos alunos, em jeito de aperitivo, alertando para a dificuldade acrescida que os jovens vão ter no exercício de simulação do Parlamento que vão fazer no final da semana.

Também Moreira da Silva, que se centrou mais no tema do desenvolvimento sustentável das cidades, criticou as “reversões” e os “recuos” do Governo e falou especificamente do congelamento das rendas e fim dos subsídios de rendas para apontar o dedo ao executivo — demasiado “condicionado” pelos parceiros da esquerda.

Marques Mendes, a segunda escolha

O ex-líder do PSD Luís Marques Mendes e comentador político vai afinal juntar-se à lista de professores, num desvio àquilo que está impresso no programa. Mendes vai ser o cabeça de cartaz do jantar-conferência de quarta-feira, em substituição da maestrina Joana Carneiro, que não pode estar presente por motivos de doença.

Marques Mendes, que será o único ex-presidente social-democrata a marcar presença na 14.ª edição desta Universidade da rentrée do PSD, é assim uma segunda escolha dos organizadores do evento — ele que tem sido um dos maiores críticos da direção de Passos Coelho no PSD neste novo ciclo político, tendo já apelidado várias vezes o presidente do partido de “mensageiro da desgraça”, crítica que tem sido recorrentemente usada pelos socialistas. Pedro Passos Coelho irá a Castelo de Vide no domingo fazer o discurso de encerramento.

Mendes é, de resto, uma presença comum na Universidade, tendo já participado tanto como líder do partido, como também como professor convidado. No ano passado, o agora comentador televisivo não esteve em Castelo de Vide, mas fez parte do leque de personalidades que respondeu a perguntas dos “estudantes”. Foi precisamente uma dessas respostas, que foi divulgada no jornal da Universidade, que acabou por ser notícia. Isto porque, em clima de tabu sobre as presidenciais, Mendes foi o único a falar sobre as eleições que se iriam realizar uns meses depois.

Na altura, Marques Mendes defendeu que se existisse mais do que um candidato da área social-democrata nas presidenciais, o partido deveria dar liberdade de voto à primeira volta. Estava quebrado o tabu.

10h não são 10h02 e formar não é formatar

Na sessão de abertura, que juntou os cerca de 98 participantes (a chamada “seleção nacional”), o eurodeputado Carlos Coelho, que é também o diretor da Universidade, introduziu aquilo que vai acontecer nos próximos sete dias. Trata-se de uma Universidade com regras como as outras — ou mais. “Aqui há regras para as aulas, regras para jantar, regras para os trabalhos de grupo”, começou por dizer o reitor.

As regras são muitas e, por isso, cada aluno tem um dossiê em mãos. Começa pela “vontade de trabalhar e de aprender” e vai até à “pontualidade”. Porque, explica o reitor Carlos Coelho, “10h não são 10h10 nem 10h02” e a ideia é “começar tudo a horas para acabar tudo a horas”. Os alunos dividem-se em 10 grupos, cada um com uma cor e um estandarte, sendo que são eles que gerem as intervenções e as perguntas que fazem aos oradores. Na pasta têm ainda fichas de avaliação, para avaliar não só a relevância dos temas como a qualidade dos professores. Burocracia não falta.

A ideia, explica Carlos Coelho, é “convocar os jovens para a intervenção cívica e política em nome dos valores e da ética”, sendo que “formar não é formatar”, como explicou o líder da juventude social-democrata Cristóvão Simão Ribeiro. Ou “formação não é doutrinação”, como diria também Carlos Coelho. Certo é que no painel de professores não há muitos nomes que divirjam da doutrina social-democrata, à exceção do socialista Jaime Gama, e no leque de alunos quase todos têm militância no partido. Uma das aulas, de resto, será especificamente sobre o que é “ser social-democrata hoje”, estando a cargo do ex-ministro Miguel Poiares Maduro.

Esta noite haverá um jantar-conferência com o presidente da câmara de Castelo de Vide e o presidente do PSD Açores, Duarte Freitas, que pisa o palco em vésperas de eleições regionais. O curso de verão decorre até domingo e marca a rentrée social-democrata no novo ano político, sendo que os oradores e dirigentes do partido não irão deixar escapar o palco mediático para passar mensagens muito mais do que para os alunos, para o país político.