Lançado no início da década de 1990, o McLaren F1 é mais do que um ícone. Não só é por muitos considerado o melhor McLaren “civil” de sempre, como não falta (especialmente os que tiveram o privilégio de conduzi-lo) quem o continue a eleger como o melhor superdesportivo de todos os tempos. E isto não obstante terem passado quase 25 anos sobre o seu lançamento.

Frequentemente, há sempre quem veja neste ou naquele novo modelo o que poderia ser o sucessor, em estatuto e desempenho, do mítico desportivo britânico. Mas a própria McLaren sempre fez questão de evitar comparações directas entre as suas propostas mais recentes, mesmo as mais extremas, e a sua criação mais emblemática. Até hoje.

Alegrem-se, pois, os amantes dos automóveis de altíssimas prestações: a marca de Woking acaba de anunciar o lançamento, em 2019, do que define como o primeiro “Hiper-GT” do planeta. É internamente identificado pela sigla BP23, acrónimo de Bepsoke Project (projecto personalizado ou feito à medida, numa tradução livre) 2 com três lugares.

E começa aqui a analogia com o modelo de 1992. Como a própria sigla indica, é o segundo modelo com tal nível de exclusividade da história da McLaren. E, tal como no F1, os três lugares disponíveis estarão colocados lado a lado, com o central, destinado ao condutor, a adoptar um posicionamento um pouco mais avançado do que os outros dois.

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A configuração de lugares vai manter-se

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A produção também estará limitada aos mesmos 106 exemplares, embora em diferentes proporções: enquanto que do F1 foram vendidas 69 unidades “civis” e produzidas 37 unidades para a competição (seis F1 LMS, três F1 GT e 28 F1 GTR), já o “BP23” não contará nem com derivações destinadas às corridas, nem com versões descapotáveis ou outras declinações – apenas será proposto na forma de coupé.

Quanto ao preço, não será o facto que impedirá o comum mortal de adquirir um exemplar. Não porque os cerca de 2,5 milhões de euros que se prevê que possa custar cada “BP23” não sejam mais do que uma miragem para a maioria, mas sim porque todos têm já destinatário definido!

Projecto especial, equipa especial

O projecto “BP23” foi entregue à McLaren Special Operations (MSO), a divisão da marca inglesa encarregue das suas criações mais extremas, e promete redundar no mais luxuoso e requintado McLaren de estrada de sempre. Para já, e como seria de esperar, não são muitos mais os detalhes divulgados acerca deste modelo, a não ser que será integralmente construído em fibra de carbono, exibirá uma carroçaria de linhas muito fluídas e elegantes, e contará com uma motorização híbrida.

Quanto ao epíteto de “Hiper-GT”, pretende ilustrar que, ao mesmo tempo que será um dos mais potentes, velozes e eficazes modelos da história da McLaren, o “BP23” foi idealizado para poder cumprir também viagens mais longas, e com elevados níveis de requinte. Pelo que os seus futuros proprietários trabalharão de perto com a MSO na criação da sua própria unidade, podendo escolher a cor exterior, os revestimentos e acabamentos interiores e outros pormenores, que farão de cada exemplar um automóvel absolutamente único. E, é claro, como o F1 e todos os outros McLaren, o “BP23” terá portas de abertura vertical, pela primeira vez de accionamento eléctrico e com ancoragem no tejadilho.

Verdadeira lenda

Criado quando a equipa McLaren de Fórmula 1 dominava a disciplina máxima do automobilismo de velocidade, com Ayrton Senna e Alain Prost ao volante dos seus monolugares, o F1 foi idealizado pelo projectista sul-africano Gordon Murray, que convenceu Ron Dennis, o patrão da escuderia, a torná-lo realidade. Depois de quatro anos de desenvolvimento, foi pela primeira vez exibido em público, no Mónaco, em 1992, ano em que se iniciou a sua produção, que viria a terminar em 1998.

Foram vários os factores que contribuíram para fazer do McLaren F1 um automóvel verdadeiramente lendário. Os mais evidentes, a sua configuração de três lugares (na qual Gordon Murray vinha trabalhando, e aperfeiçoando, já desde 1969), as linhas extremamente aerodinâmicas (desprovidas de spoilers, deflectores ou outros apêndices, embora contando o modelo com fundo plano e travão aerodinâmico traseiro activo, gerido electronicamente), o facto de ter sido o primeiro automóvel de produção em série a contar com um chassi em fibra de carbono (que demorava 3.000 horas a ser construído), e o seu potente motor V12 atmosférico de origem BMW com 6,1 litros e 620 cv.

Como não poderia deixar de ser, a redução do peso foi, desde o início, uma das prioridades. Além de subestruturas em titânio, o F1 contava com jantes em liga de magnésio e até o pedal do acelerador era construído artesanalmente a partir de seis peças de titânio – tudo contribuindo para um valor final de 1.138 kg. Também à mão eram produzidos e pintados os fundos dos mostradores da instrumentação, em que cada agulha era maquinada individualmente.

Aproveitando bastante da experiência que a McLaren detinha na Fórmula 1, o F1 era, pois, um automóvel tão rápido quanto eficaz. Embora não tenha sido criado a pensar na competição, não deixou de alcançar excelentes resultados em pista, como a vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1996, em que teve de enfrentar vários oponentes que eram autênticos protótipos desenvolvidos com o único propósito de competir.

A 31 de Março de 1998, o F1 tornava-se no automóvel de produção mais rápido do mundo, ao alcançar uma velocidade máxima de 372 km/h. Sete anos mais tarde, o Bugatti Veyron 16.4 (e outros depois dele) superou esta marca. Que, ainda assim, foi suficiente para que a lenda britânica continue a ser, quase 20 anos passados, o automóvel de produção mais rápido do planeta equipado com um motor atmosférico. E só isso ajuda bastante a explicar toda a aura que o rodeia.