Título: “O Cartel”
Autor: “Don Winslow”
Editora: “Relógio d’Água”

O Cartel, como podem calcular, é o chamado “cartel da droga”, uma expressão que tem até direito a uma entrada na Wikipedia: “Um cartel da droga é qualquer organização criminosa com o propósito de proporcionar operações de tráfico de droga. Vão desde acordos informais entre vários traficantes de droga a empreendimentos comerciais formalizados. O termo aplicou-se quando as maiores organizações de traficantes chegaram a um entendimento para coordenar a produção e distribuição de cocaína.” (mas não só de cocaína, claro).

O mapa do tráfico e consumo de droga dá a volta ao mundo. A lista da própria Wikipedia é a seguinte, por ordem alfabética: Afeganistão, Argentina, Birmânia, Bolívia, Brasil, China, Colômbia, El Salvador, França, Guatemala, Haiti, Holanda, Honduras, Israel, Itália, Jamaica, Japão, Laos, México, Nigéria, Paquistão, Paraguai, Peru, Porto Rico, Rússia, Tailândia, Trinidad e Tobago, Turquia, Reino Unidos e Estados Unidos – e a lista não é exaustiva. O volume de negócio envolvido a nível mundial ultrapassa os orçamentos de muitos Estados – e não estamos a falar de Estados do Terceiro Mundo.

A luta pelos mercados abastecedores e consumidores e pelas rotas “comerciais” faz directamente centenas de mortos por ano – nos anos mais pacíficos; fora todos os “humilhados e ofendidos” que nos países produtores, consumidores ou de passagem são os seus danos colaterais. Alimenta e alimenta-se de uma descomunal e poderosa máquina de corrupção de políticos, banqueiros, praças financeiras e outra gente de respeito, incluindo polícias e forças armadas de muitos países. Historicamente, diga-se de passagem, podemos agradecer ao Império britânico a invenção da droga como grande negócio e arma política (foi a vergonhosa “guerra do ópio”, na segunda metade do século XIX).

Nada disto é uma novidade. Nem as rivalidades ou diferenças entre departamentos (a DEA e a CIA, em particular) que minam a ação das autoridades americanas. Nem sequer as ligações tortuosas entre o “narcotráfico” e o terrorismo político centro e sul-americano – e, por incongruente que possa parecer, islâmico (veja-se, por exemplo, para a América Latina, a série de televisão “Narcos”, sobre a carreira do magnate da droga colombiano Pablo Escobar – e para o Daesh qualquer documentário sobre a sua economia). Tornámo-nos todos grandes conhecedores na matéria. Temos sido instruídos abundantemente pelos noticiários, pelo cinema e por uma literatura “popular” que se dedica cada vez mais ao tema. Esse sub-género da ficção criminal tem até nome: é o “narco noir”, expressão que é aplicada, por exemplo, à obra do escritor mexicano Élmer Mendoza, “jefe de los jefes” do género em língua espanhola, citado em O Cartel, incluído numa enumeração de luminárias das letras e das artes do México onde ombreia com gente como Octavio Paz ou Frida Kahlo (ou a sua intérprete cinematográfica Selma Hayek).

O autor, Don Winslow

Nos já longínquos anos 80 do século passado o filme de Michael Cimino “O Ano do Dragão” dera-nos um vislumbre instrutivo desse mundo e do “Triângulo Dourado” do Sudeste Asiático. O “Scarface” (“A força do poder”) de Brian de Palma mostrava-nos a outra face da moeda (com argumento de Oliver Stone, que por sinal viria a realizar um filme bastante desagradável tirado de outro romance de Don Winslow, Savages). Em “Traffic – Ninguém sai ileso”, no primeiro ano deste século, Steven Soderbergh explicou-nos, entre outras coisas, a futilidade e a perversidade de uma interminável “guerra à droga” em que a repressão acaba por estar ao serviço de uns barões contra outros, a troco, às vezes, de acalmias temporárias da violência ou de conveniências políticas, numa aplicação com efeitos perversos da lei do “mal menor”. É este também, mais recentemente, o tema do Sicario de Denis Villeneuve (mesmo quem não se lembre da palavra portuguesa “sicário” já sabe que um sicario é um assassino a soldo; sabemos os nomes todos e Don Winslow ensina-nos os que não sabíamos, ele estudou o mundo da sua gente). São só alguns exemplos escolhidos entre obras de primeira classe.

O romance de Don Winslow é o segundo volume de uma trilogia iniciada com The Power of the Dog e que será concluída por um livro que o autor está a escrever (e já está aprazada para um filme a dirigir por Ridley Scott). Entrelaçada com uma história de ficção sobre a vendetta contra um importante barão da droga de um agente da DEA (a Drug Enforcement Administration do Departamento de Justiça americano) – está uma bem documentada e desanimadora história dos “carteis da droga” do México, nos últimos dez anos, com particular incidência na região fronteiriça com os Estados Unidos, seu principal mercado.

É uma intriga cheia de reviravoltas e com episódios de uma brutalidade quase inimaginável – mas não inferior à realidade – que parece estar a fazer escola noutras paragens. Uma recente notícia da agência Reuters, assinada por Alonso Soto, refere que a barbaridade dos ajustes de contas nos recentes banhos de sangue das prisões brasileiras foi ‘inspirada pelas tácticas dos cartéis mexicanos’ e abre uma nova era de desumanidade na violência do mundo brasileiro do tráfico de droga. Correm hoje na favela cantigas que emulam os narcocorridos mexicanos sobre as façanhas dos cartéis. Os maus exemplos são sempre os exemplos que mais frutificam. O problema de toda esta literatura escrita ou filmada é a sua anestesiante monotonia (“os traficantes são, em geral, bandalhos estúpidos e brutais, se escrevermos sobre um, é como se tivéssemos escrito sobre todos”, diz um dos personagens de O Cartel) e o seu risco é transformar-se numa exaltação niilista desse mundo, mesmo assim marginal. E todos acabarmos a ser tributários, como ficcionistas ou leitores-espectadores, dos rendimentos de la pista secreta.

(Uma nota à margem. Winslow preocupa-se em não ofender certas sensibilidades contemporâneas – veja-se, por exemplo, tudo o que na sua intriga tem a ver com o papel das mulheres e outros discretos preitos de homenagem à chamada “correcção política”).

Mas num livro que tem milhões de leitores nos Estados Unidos há passagens que espelham uma certa visão americana que está agora muito em evidência. Pós-verdades? No cinema e nos romances policiais aprende-se tudo. Escreve ele: “Desde a assinatura do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) entre os Estados Unidos e o México, dezenas de milhares de camiões atravessam todos os dias a fronteira em Tijuana, Juárez e Nuevo Laredo. A maioria transporta mercadorias legais. Muitos levam droga. É a maior fronteira comercial do mundo. (…) Dado o enorme volume de tráfego, o Serviço de Fronteiras não consegue, de forma alguma, inspeccionar cada camião. Um esforço sério nesse sentido prejudicaria o comércio entre os dois países. Não é em vão que muitas vezes se chama ao NAFTA Tratado Norte-Americano de Livre Comércio de Droga.”

Ou, sobre o desventurado jornalista Pablo, que “é vagamente esquerdista, como a maioria dos jornalistas”. Ou ainda:

“Monterrey é rica ao passo que Nuevo Laredo é pobre e Eddie sabe porquê: os habitantes desses gabinetes – os gabinetes dos poderes económicos, entenda-se – decidiram que os produtos que costumavam ser fabricados por mão-de-obra barata em Nuevo Laredo podiam ser fabricados na China por mão-de-obra ainda mais barata.”

E lá figuram também as esquálidas cidades americanas do Cinturão da Ferrugem cujos empregos fugiram para sul. Trump, é preciso repeti-lo, não ganhou as eleições por acaso.)

Don Winslow apresenta-se neste seu livro com uma bateria bem artilhada de credenciais culturais (esforça-se por dar a entender que não é nenhum energúmeno): uma epígrafe tirada de um best-seller de impecáveis credenciais literárias da francesa Muriel Barbery (editado em Portugal, A elegância do ouriço) e outras referências intelectuais e artísticas; até Jacques Prèvert! Por outro lado, é claramente material concebido com o olho posto no cinema (a banda musical do filme está feita pelo autor). O “Prólogo” é, na verdade, um teaser, que promete toda a ação e violência que poderíamos desejar – o resto do livro quase um flashback.

Diz a capa de O Cartel que o James Ellroy de LA Confidential chamou ao livro “o Guerra e Paz dos livros sobre as guerras da droga”, talvez a pedir que o consideremos a ele o Tolstoi da Cidade dos Anjos. Há um certo exagero. Don Winslow não é Tolstoi – nem sequer Raymond Chandler (embora tenha ganho em 2012 o prémio que leva o nome do criador de Philip Marlowe). Mas, além dos indispensáveis rodriguinhos, O Cartel é um documento impressionante – e quando mais seco mais arrepiante: como nas duas paginas da sua dedicatória aos “jornalistas assassinados ou desaparecidos no México durante o período de tempo abrangido por este romance”. São dezenas de nomes. “Houve outros”.