A portuguesa Vanessa Fernandes, medalha de prata nos Jogos Olímpicos Pequim2008, anunciou esta segunda-feira, em conferência de imprensa, o regresso ao triatlo, apontando já à presença em Tóquio2020.

“Quero voltar à modalidade onde cresci e onde tive momentos que já mais irei esquecer. Oito anos depois volto inteira, com um sonho que tem um nome: Tóquio2020”, disse.

Após vários anos sem competir no triatlo, a atleta do Benfica não quer, neste momento, estabelecer objetivos para os Jogos Olímpicos de 2020. “Antes de Tóquio vai haver imensa coisa. O objetivo principal é lá estar. Só daqui a dois anos posso afirmar o que posso fazer em Tóquio”, afirmou a atleta, de 31 anos.

Uma das atletas portuguesas mais medalhadas (e precoces), Vanessa Fernandes, que também se tem distinguido no duatlo (ciclismo e corrida), experimentou a modalidade ainda em miúda, inspirada por Fernanda Ribeiro e incentivada pelo pai, o ciclista Venceslau Fernandes, vencedor da Volta em 1984.

Recebeu a primeira bicicleta, ainda com rodinhas, aos 3 anos e aos 4, reza a lenda familiar, já pedalava até à oficina de bicicletas do pai, a um quilómetro de casa. Aos 6 começou na natação; três anos mais tarde, entrou na primeira prova de atletismo – e na segunda e na terceira. Não conseguiu – nem lhe pediram que o fizesse – escolher uma só, portanto nunca mais deixou de praticar as três modalidades. E ainda conseguiu aprender flauta transversal nos tempos mortos.

Saía-se tão bem (no desporto, não na música) que com apenas 15 anos deixou a família e Perosinho, perto de Vila Nova de Gaia, e mudou-se para o Centro de Alto Rendimento do Jamor, nos arredores de Lisboa.

Aos 16 começou a competir a sério, com 17 ganhou a primeira medalha europeia de bronze, a que em poucos anos juntou mais umas boas dezenas delas. Quando, no dia 18 de Agosto de 2008, se sagrou vice-campeã olímpica de triatlo, saber-se-ia depois, já estava doente e em tratamento.

Na altura falou-se em distúrbios alimentares e psicológicos e houve mesmo quem lhe tivesse adivinhado o fim quando, em 2009, resolveu abandonar o Jamor e Sérgio Santos, o treinador de sempre e à data diretor técnico da federação, para regressar a casa.

Não acertaram, mas quase: em Perosinho, depois de nas primeiras semanas ainda ter feito um esforço para treinar, começou a inventar desculpas para não o fazer e a desaparecer durante dias a fio. E noites também: começou a sair para discotecas, a beber de forma descontrolada, já não queria fazer desporto nem ganhar medalhas, dizia à irmã e aos amigos – só ser uma pessoa normal, ter um emprego normal.

Em Fevereiro de 2011, o Benfica revelou ao país que a atleta tinha decidido finalmente interromper a carreira.

“Por razões de saúde que me têm impedido nos últimos meses de me dedicar à prática da modalidade que abracei e que tantas alegrias me proporcionou, queria comunicar-vos a minha intenção de interromper temporariamente a prática desportiva. Não se trata de um abandono, mas apenas de uma interrupção temporária que me permita regressar em pleno dentro de pouco tempo. Espero que compreendam as minhas razões e entendam a dificuldade do momento que atualmente vivo. Sei que vou conseguir voltar e que esta fase representa apenas um curto intervalo na minha carreira desportiva.”

Parou para tratar a mente e o corpo, teve acompanhamento psiquiátrico, deixou passar os Jogos de 2012, recomeçou a treinar e a competir em provas de atletismo, nada de triatlo – a ideia era aliviar a pressão. Até que em 2015 tentou a maratona e conseguiu os mínimos para o Rio2016.

Foi na Cidade Maravilhosa, para onde viajou na qualidade de suplente de Sara Moreira, Jéssica Augusto e Dulce Félix, na prova maior do atletismo, que deu o primeiro sinal de que estava pronta para regressar à ribalta .

“Voltar como participante? Claro que sim. É por isso que eu estou aqui. Isto acaba por ser uma inspiração para mim, acaba por ser um sinal e uma porta que eu agarro com muita força para estar daqui a quatro anos com mérito, mas para competir, mesmo.”

Agora, seis meses depois, decidiu finalmente voltar à modalidade que tantas vitórias lhe deu – e em que já não compete há oito anos. Só não quer dar um passo maior do que a perna e estabelecer já objetivos: “Antes de Tóquio vai haver imensa coisa. O objetivo principal é lá estar. Só daqui a dois anos posso afirmar o que posso fazer em Tóquio”.