Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo que acabou por marcar a semana política depois de ter feito referências controversas aos países do sul da Europa, não tem condições para continuar à frente do cargo. É esta pelo menos a convicção do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, reiterada numa entrevista conjunta ao Diário de Notícias e à TSF.

Na segunda-feira, dia 20 de março, em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), um dos mais influentes jornais alemães, Dijsselbloem sugeriu — ainda que de forma indireta — que os países do Sul da Europa gastam dinheiro com “álcool e mulheres” e continuam a “pedir a ajuda” aos países do Norte para pagar a conta. As declarações do atual ministro das Finanças holandês mereceram o repúdio de vários responsáveis políticos europeus, do Parlamento português e do Governo socialista, que pediu a cabeça do líder do Eurogrupo.

Nesta entrevista ao DN/TSF, Augusto Santos Silva volta a apontar a porta de saída a Dijsselbloem. “Quem tem um entendimento destes, quem se permite ter declarações tão acintosas e de natureza tão sexista, xenófoba, querendo trazer para o seio da União Europeia divisões de que a União Europeia não precisa, não tem condições políticas para estar à frente [do Eurogrupo]”, afirmou o titular da pasta dos Negócios Estrangeiros.

O mandato de Dijsselbloem termina no início de 2018, mas a continuidade do holandês à frente do conselho de ministros das Finanças da Zona Euro parece comprometido. Com o resultado desastroso do Partido Trabalhista holandês (PvdA), partido-irmão do PS português e parceiro júnior da coligação que liderava a Holanda, nas últimas eleições, os socialistas holandeses dificilmente conseguirão manter importante pasta das Finanças no futuro Governo holandês. Sendo que ser ministro das Finanças é condição essencial para poder ocupar o cargo de presidente do Eurogrupo, a saída de Dijsselbloem parece inevitável.

Futuro do Eurogrupo também se joga nas eleições da Holanda

As declarações polémicas do holandês só vieram precipitar aquilo que já estava em curso: a sucessão de Dijsselbloem já se joga nos corredores europeus, como explicava aqui o Observador. O Governo português, no entanto, já fez saber publicamente que o holandês não terá o apoio de Portugal para se manter à frente do cargo. Nesta entrevista, Santos Silva reafirma-o: Dijsselbloem “não tem o apoio de Portugal” para cumprir o mandato até ao fim. “Isso é que é claro”.

Com o sr. Dijsselbloem a conversa não é possível, porque esta não foi a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que Dijsselbloem se permitiu tecer publicamente considerações que são inaceitáveis”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros português.

Para Augusto Santos Silva, de resto, o resultado eleitoral do PvDa de Dijsselbloem é um exemplo do preço que pagam os partidos socialistas europeus têm sido chamados a pagar depois de “se terem colocado na posição de muleta de uma política de austeridade e de uma política que, também no campo europeu, era uma política muito pouco trabalhista ou social-democrata”.

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