Inícios da década de 1990: “Twin Peaks” passava na RTP1 às quintas-feiras. A primeira memória da criação de David Lynch e Mark Frost vem de um autocolante que o meu irmão tinha num caderno: a imagem icónica de Laura Palmer morta, com a seguinte frase “Eu matei Laura Palmer”. Apesar da minha inocência de então, sabia que não poderia ser ele, até porque estava demasiado ocupado a ser uma vedeta de basquetebol local. Dez anos depois estou na universidade em época de exames e acho boa ideia encher as horas vagas com o meu primeiro visionamento da série na íntegra. O estudo deixa de existir, as horas vagas também. Tinha comprado há uns meses uma caixa de DVDs de qualidade duvidosa com os trinta episódios. A conversão era má, mas era a única forma que tinha de ver a série naquele momento. Tive de repetir os exames em Setembro. “Twin Peaks” ficou, e ficará, comigo para sempre.

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É essa a sensação que existe quando se regressa a “Twin Peaks”: esteve sempre aqui. Em 1990 é difícil de imaginar o sofrimento dos fãs na paragem entre a primeira e a segunda temporada. Quatro meses separaram uma e outra, a primeira acaba com um dos momentos mais marcantes da televisão, a resolução sobre a morte de Laura Palmer ainda não estava à vista e era difícil de imaginar o que sairia dali. Acredito que esperar estes 26 anos foi muito mais fácil do que aguentar aqueles quatro meses. O sentimento de deriva que a segunda temporada deixou tinha, apesar de tudo, algo de conclusivo, nem que fosse a sensação de que há puzzles que só se conseguem resolver quando se inventa algumas peças. Lynch e Frost deixaram esses elementos aos espectadores.

Mais de um quarto de século passou-se e regressa à televisão, com dezoito novos episódios, como se nada tivesse acontecido. E porque haveria de ter acontecido? “Twin Peaks” esteve sempre lá, incólume, impossível de ser reproduzido ou copiado por mais alguém. É isso que se sente no primeiro episódio desta terceira temporada, o regresso imediato, quase como se ainda se estivesse em inícios da década de 1990, a um lugar onde a nostalgia está ausente. A música de Angelo Badalamenti oferece logo isso ao espectador no genérico, diz de imediato que este nunca saiu de Twin Peaks.

O porquê de amarmos “Twin Peaks” em cinco razões

Durante estes 26 anos várias séries inspiraram-se neste universo. Algumas tiveram a inteligência de evitar emular e exploraram as referências com jeitos subtis. À memória vem a primeira temporada de “The Killing” (2011) e o modo como a investigação do assassínio de uma rapariga é construído; e “Wayward Pines” (2015), uma adaptação dos livros de Black Crouch, um fã da série, que decidiu criar a sua própria história inspirada pelo mundo que David Lynch e Mark Frost deixaram. Nestes 26 anos também existiram muitos regressos, reboots, de programas que viveram antes e depois de “Twin Peaks”. Quase todas elas surgiram pela motivação da nostalgia.

É claro que há ou, melhor, houve, nostalgia por “Twin Peaks”. Contudo não faz sentido recuar a esse sentimento depois de se ver o primeiro episódio desta nova temporada, que se estreia em Portugal no TV Séries no próximo domingo, 28 de Maio, às 22h. O mundo não é reintroduzido, vemo-nos novamente com um puzzle na cabeça, mais peças estão em cima da mesa e ainda mais vão ter de ser inventadas. Era isso que se queria, uma perfeita reunião entre o mundo real e uma materialização de um inconsciente, ou de um mundo paralelo, que vivem em perfeita união sem a concessão à resposta: descobrir quem matou Laura Palmer nunca pareceu uma concessão e, sim, um efeito natural daquele universo.

Quase 26 anos depois, já há data para o regresso da série Twin Peaks

Numa das cenas iniciais desta nova temporada há uma caixa de vidro que é filmada de forma exímia. É um momento magnífico de televisão: o espectador é apresentado a algo misterioso mas ao invés de questionar a existência daquele objeto, deriva sobre o que é o mundo fora daquela caixa de vidro, sente-se observado e percebe naquele exato momento que David Lynch lhe está a dizer que, sim, efetivamente passou muito tempo desde a última visita a “Twin Peaks” mas que, simultaneamente, ninguém saiu dali.

Regressam muitos rostos conhecidos, envelhecidos; muitas caras novas surgem. O tempo passou, “Twin Peaks” continua a mesma série de sempre. O universo mantém-se intacto, inflexível às ordens do mundo, da televisão, para ser flexível na mente de quem vê. É o maior feito neste regresso mas, ao mesmo tempo, era isso mesmo que se queria. Quem viu “Twin Peaks” e espera por esta terceira temporada não a pode querer de outra forma. E se por acaso quiser, depois de ver o primeiro episódio percebe que estava errado. Chamar-lhe regresso depois de o ver é incorreto. Nunca abandonámos “Twin Peaks”.