Um dos maiores mistérios literários pode ter sido, ainda que só em parte, resolvido. Desde que Wilfrid Voynich apresentou o manuscrito que ganhou o seu nome, em 1915, que vários linguistas e criptólogos de todo o mundo o tentaram decifrar. Mas sempre sem sucesso.

Wilfrid dedicou a sua vida aos livros e às antiguidades e comprou o manuscrito em Itália, em 1912. Mas só agora há uma possibilidade forte de se ter descoberto o autor: um médico judeu do norte de Itália.

O livro tem aproximadamente 600 anos (terá sido escrito entre 1404 e 1438), de acordo com uma datagem de carbono, e retrata vários tipos de ervas e plantas, entre elas ópio e cannabis, com o que se acredita ser uma descrição das suas capacidades terapêuticas. Contudo, ainda ninguém decifrou o texto.

Trata-se de uma língua desconhecida e sabemos que é uma língua por respeitar a Lei de Zift: tem uma organização óbvia e não se trata de um conjunto aleatório de texto e símbolos.

Para além de plantas e materiais, o livro tem uma ilustração que, por si só, ficou famosa: um grupo de mulheres que toma banho numa piscina de água “verde” (é possível que ao longo dos séculos a tinta azul tenha perdido a intensidade).

Esta ilustração levou o especialista em criptologia Stephen Skinner a admitir que o autor seja judeu.

A única altura de que há registo de mulheres a tomarem banho juntas daquela forma, na Europa, naquela altura [séc. XV], era nos banhos de purificação, que os judeus ortodoxos fazem há pelo menos 2000 anos”, admitiu numa entrevista ao The Guardian.

Skinner assina o prólogo de mais uma edição do livro (uma cópia autêntica) e acredita que esta ilustração representa um mikvah, um banho comum usado para limpar as mulheres depois do parto ou da menstruação, que ainda é tradição no judaísmo ortodoxo.

Ele acredita que os desenhos do autor mistério apontam para que se trate de um médico judeu: “Acho que não há outra explicação: ou é fantasia – o que não combina com o resto do livro, repleto de conteúdos médicos e botânicos – ou é um mikvah.

Outra pista que aponta nesse sentido é a falta de símbolos religiosos no documento – uma coisa fora do normal nas publicações da altura, uma vez que a Inquisição forçava a religião ortodoxa e castigava qualquer tipo de heresia. Skinner insiste portanto que o autor será um médico judeu.

Apesar de os judeus terem sido perseguidos pela Inquisição, eram bastante procurados enquanto médicos graças aos seus conhecimentos da botânica mediterrânica. Desta forma, a linguagem e os símbolos podem ter sido propositadamente criados para ocultar o livro da Inquisição: o que ninguém sabia ler não podia ser censurado.

Se estiver certo, Skinner resolvou um problema com mais de cem anos, mas a linguagem continua por decifrar: mas por pouco tempo. O criptólogo acredita que se o livro for difundido e copiado e posto à venda “alguém pode pegar por curiosidade e reconhecer algum pormenor da sua área de estudo que tenha escapado a todos”.

Percorra a fotogaleria em cima para ver algumas páginas do livro.

Editado por Filomena Martins