Aquele que era conhecido como o festival da chuva poderá não ver gota de água vinda dos céus, a acreditar nas previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera: temperaturas a bater nos 30 graus e sol, com algumas nuvens. Boas notícias para quem quer ver concertos como os de At The Drive-In, Nick Murphy, Car Seat Headrest ou Benjamin Clementine sem estar a tremer de frio. Boas notícias também para quem espera um ano inteiro para passar os dias na Praia Fluvial do Taboão, a remar no rio Coura dentro de um barco de borracha.

O 25.º festival Vodafone Paredes de Coura começa esta quarta-feira e há muitos concertos para ver. O Observador sugere alguns, mas também sugere opções de alojamento, locais onde trincar qualquer coisa e ideias para ocupar o tempo.

Os concertos a não perder

Em 24 anos de Paredes de Coura, há uma edição que ficará para sempre na memória. Em 2005, a Ritmos conseguiu reunir Queens of the Stone Age, Foo Fighters, Pixies, Arcade Fire, The National e Nick Cave & The Bad Seeds. Olhando para o cartaz de 2017, não há uma constelação de cabeças de cartaz de encher o olho. Mas há muita coisa interessante e um alinhamento coerente, mesmo se os estilos se misturam.

O primeiro dia, quarta-feira, começa com um saltinho aos anos 80, com os britânicos Wedding Present (20h40), exclusivamente dedicados ao disco de estreia, George Best, que lançaram há 30 anos. Depois dos portugueses Mão Morta (21h55) e de Beak> (23h20), onde mora um dos membros dos Portishead, dancemos com os Future Islands (00h30), que em abril lançaram The Far Field. A escolha de Kate Tempest para subir ao palco depois do Future Islands, quase às duas da manhã, é arriscada. O rap e a spoken word da artista britânica requerem atenção para se absorver a crítica mordaz ao Brexit, ao capitalismo, à alienação e a tantas outras questões contemporâneas. num altura em que pensar é preciso.

São destaque na quinta-feira e um dos principais nomes do festival. Os At The Drive-In (23h15) vão atrair muitas tribos rock ao anfiteatro natural, ou não fosse esta a estreia em Portugal de um dos projetos mais criativos a surgir nos anos 90. Em 2001, Cedric Bixler e Omar Rodríguez López, os pilares dos At The Drive-In, decidiram separar-se no pico do sucesso, alcançado com Relationship of Command. O sucessor, In•ter a•li•a, chegou este ano, agora chegam eles também. Vai levantar-te muito pó em frente àquele palco principal.

Prepare-se o farnel, tome-se o banho pós mergulho no rio, faça-se tudo a tempo de apanhar os Car Seat Headrest, às 19h40 no palco principal. No final do magistral concerto que deram no ano passado, no NOS Primavera Sound, o público não os queria deixar ir embora e gritou até não poder mais. A oportunidade de (re)ver estes indie rockers norte-americanos com o diabo no corpo está marcada para quinta-feira.

Por fala em diabo no corpo, os norte-americanos Ho99o9 (22h20) não vão deixar ninguém indiferente, com o hip-hop que produzem, e que misturam depois com punk e hardcore. Para aqueles que procuram um concerto mais calmo, o melhor é esperar pelas 00h45, hora a que Nick Murphy sobe ao palco principal. Quer dizer, não tão calmo quanto o que fazia sob o nome de Chet Faker, e com o qual angariou uma legião de fãs. Missing Link, lançado em maio, foi a primeira amostra deste novo Nick Murphy e lá encontramos sonoridades dançáveis. Se ao vivo encontraremos canções de Chet Faker, só ele sabe.

Sexta-feira tem dois nomes que sobressaem. Primeiro os Japandroids (23h15), rock direto e mais robusto do que poderia parecer quando só há dois músicos em palco. É tudo deles, como pudemos comprovar em junho, no NOS Primavera Sound. É como se estivéssemos ali numa garagem, a espreitar o que sai da guitarra e da bateria cruas.

Descarga energética feita, prepare-se o espírito para a viagem introspetiva dos Beach House (00h45), presença constante em Portugal mas a quem vale sempre a pena responder ao chamamento. De Victoria Legrand e Alex Scally esperamos pouca interação direta com o público. Os típicos “Olá, tudo bem? Este festival é maravilhoso e vocês são o melhor público” não são tão importantes quanto a ligação que o dream pop e canções como “Sparks”, “Myth” ou “Irene” estabelecem entre quem está em cima do palco e quem está em baixo, a ver as suas sombras. É mais um concerto de Beach House, é certo. A provar que é falso o lema que diz que não devemos voltar onde já fomos felizes.

Mas a sexta-feira começa com uma banda portuguesa chamada Cave Story (18h, palco secundário), que temos vindo a acompanhar desde que apareceram com “Richman”. Pedro Zina, Ricardo Mendes e Gonçalo Formiga vão parecer, muito provavelmente, aborrecidos por ali estarem. Mas vão colocar toda a energia e dedicação na execução instrumental, na melhor tradição slacker rock. Ainda na seleção nacional, às 18h30 há Bruno Pernadas no palco principal.

Vale a pena espreitar o canadiano Andy Shauf (19h, palco secundário) e o trio hip-hop Young Fathers (19h40, palco principal), vencedores de um Mercury Prize em 2014 e a fazer lembrar, a espaços, os TV On The Radio. Tudo certo, desde que às 21h2o esteja toda a gente em frente ao Vodafone para ver os BadBadNotGood, O grupo canadiano juntou-se em 2010, lançou disco novo este ano e faz agora a estreia em Portugal com a sua fusão soul, hip-hop, jazz e apontamentos eletrónicos. Uma receita que ao vivo ainda mete improvisação q.b. e que pode ser uma boa surpresa nesta edição do Vodafone Paredes de Coura.

Sábado, dia associado a uma ideia de descanso, vai dar muito trabalho aos festivaleiros, tal é a quantidade de concertos a que vale a pena ir. Começando logo com Manel Cruz (18h30), para sempre a voz dos Ornatos Violeta, e que aqui se fará acompanhar por Nico Tricot, António Serginho e Eduardo Silva, tal como fez há dois anos de norte a sul do país. À época, chamou ao projeto Estação de Serviço. Agora, mudou o nome para Extensão de Serviço.

Às 19h40 encontraremos os Foxygen, banda que oscila dentro e fora de palco, que se zanga de quando em vez mas que vai conseguindo produzir boa música, maioritariamente rock. Mais tarde, às 20h30, temos encontro marcado com os falhaços da vida no palco secundário. Oh, ironia. Falamos de Alex Cameron, o australiano de ar desolado cuja descrição é tão difícil que pedimos ajuda emprestada ao jornal britânico Guardian: “(…) ele pinta rápida e eficazmente sketches de personagens perdedores e assustadores, reforçados pelo som da pop sintética e da sua voz confiante, quente de barítono.” No seu primeiro e único disco de estúdio, Jumping the Shark, os sons dos anos 80 servem de base ao ambiente autodepreciativo a que recorre, encarando com aparente naturalidade o facto de ser um falhado. Coisa cada vez mais rara, no mundo das redes sociais em que só se partilham maravilhas.

Não há tempo para descansar porque, às 21h20, temos (re)encontro marcado com Benjamin Clementine, o músico que arrebatou os corações de meio mundo com um talento tão grande para compor como para tocar e cantar. Foi através de poemas como “London” e “Cornerstone” que fomos sabendo a história de vida deste inglês de apenas 28 anos. Em outubro chega o segundo disco, I Tell a Fly. O reencontro ao vivo chega mais cedo, embora um festival talvez não seja o ambiente ideal para o espetáculo intimista que Benjamin Clementine cria e queria.

Há pouco tempo para assimilar tudo o que vimos porque, às 22h20, é a vez de correr para frente do palco secundário, onde vão estar os Lightning Bolt, surpresa de última hora da organização. Poderosos, pesados, psicadélicos, é certo que vão dar um banho de rock e barulho à multidão.

Aproveitando o pico de energia, é favor não perder o que o palco after hours tem para oferecer, primeiro com Throes + The Shine (02h)e, para fechar em grande, o DJ Nuno Lopes (02h45).

Cartaz completo e horários do Vodafone Paredes de Coura 2017.

Como chegar

O GPS deve ter como destino a Praia Fluvial do Taboão, que dista cerca de 115 quilómetros do Porto e 430 quilómetros de Lisboa. Na A3, a saída é a número 13 (Paredes de Coura/ V.N. Cerveira). Depois, é só seguir a Estrada Nacional 303 no sentido Paredes de Coura.

Quem não tem carro pode optar pelos habituais autocarros. A organização fez uma parceria com as empresas de transportes Renex e Rede Expressos que dá 25% de desconto na viagem, bastando para isso apresentar o bilhete para 25.ª edição do Vodafone Paredes de Coura no ato de compra. O autocarro vai diretamente até ao festival, não sendo necessários transbordos.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Há ainda alguns sites e grupos de boleias na web e no Facebook, onde é possível combinar informalmente boleias para o festival e a partilha de despesas. Por norma, o preço é acordado antes da partida, para não haver surpresas no fim.

Onde dormir

Quem procura alojamentos bons na vila já não tem quase hipóteses neste momento. Resta procurar nas vilas mais próximas, como Vila Nova de Cerveira, ou render-se ao campismo, que é gratuito para quem tem o passe para todos os dias. Este ano, a Ritmos aumentou o espaço para que mais festivaleiros possam montar a tenda, e aumentou o número de chuveiros e de casas de banho ligadas à rede de esgotos.

Quem aposta no campismo tem a vantagem de acordar quase em cima do rio Taboão, que vai estar apto a banhos. Quen vai mais cedo, já se sabe, consegue os melhores lugares, sejam sombras, seja sossego. Por falar em sossego, quem quer ficar mais isolado “deve evitar fica perto de locais de muita afluência, como os duches ou os caixotes do lixo”, diz ao Observador o festivaleiro Daniel Cunha. Vale a pena andar uma distância mais longa para procurar um pedaço de terra, se o que se procura é algum descanso, acrescenta João Ferreira.

Para aqueles que desesperam por terem de tomar banho de água fria, as Piscinas Municipais são a solução. Por cerca de 1,50€ é possível entrar e aceder aos balneários. E, para quem quiser aproveitar, dar uns mergulhos nas piscinas.

Sleep’em’All, uma das opções de Glamping. © D.R.

Quem não conseguiu um apartamento mas também não quer o campismo puro e duro tem mais uma opção: o Glamping, campismo de luxo. Uma das ofertas chama-se Sleep’em’All e tem uma área reservada no campismo, com acesso controlado, segurança e, claro, ‘tendas’ já montadas e mais resistentes. Há diferentes tipologias de alojamento e de preços. O espaço reservado inclui duas áreas de descanso com tomadas para facilitar o carregamento do telémovel, uma cozinha com eletrodomésticos e duches de água quente.

A outra opção de Glamping que existe no recinto é o The Nomad Pop-Up Hotel, que se estreou no ano passado com tendas de algodāo, erguidas num acampamento privado com acesso privativo ao rio Coura. Oferece casas de banho e chuveiros privativos, tendas com espelho e secador de cabelo, segurança 24h, frutas e sumos para o pequeno almoço, entre outras facilidades.

The Nomad Pop Up Hotel. ©D.R.

Onde comer

No Minho, arranjar boa comida a preços justos não é, de todo, um problema. O restaurante Albergaria (Rua Dr. Narciso Alves da Cunha), da única albergaria do concelho, serve pratos típicos.

O Cantinho da Gina (Largo Visconde de Moselos) é uma das passagens obrigatórias dos festivaleiros, pelo ambiente descontraído e pelos preços amigos dos bolsos dos estudantes.

Bacalhau frito com cebolada do Barbaças. © D.R.

No centro da vila fica também o café e mercearia de Zé Loureiro, passagem quase obrigatória de quem fica os dias todos no festival. Para além de vender alguns alimentos para os que querem cozinhar, José Loureiro também prepara uns petiscos para a malta.

Nem sempre é fácil encontrar opções vegetarianas. O Barbaças bar e restaurante (Rua Narciso Alves da Cunha) tem esse cuidado, ao mesmo tempo que serve boas receitas de carne e peixe tipicamente portuguesas. Cabem todos, e todos são recebidos com simpatia.

O que fazer na vila

Nos intervalos das braçadas na praia fluvial do Taboão, e dos comes e bebes, há passeio para fazer na vila. Não muito, ou não fosse a falta de oferta cultural a génese da criação do festival, por um grupo de rapazes com 20 anos que queriam dar alguma alegria á terra natal. No Centro Cultural, por exemplo, vai estar patente uma exposição com as fotografias vencedoras do Prémio de Fotojornalismo 2017 Estação Imagem. No sábado, 19 de agosto, celebra-se o Dia Mundial da Fotografia. Às 15h30, o Centro Cultural acolhe uma exibição multimédia do melhor que se faz no fotojornalismo mundial.

Para celebrar a 25.ª edição, o festival acaba de inaugurar uma exposição de fotografia ao ar livre, no largo do Centro Cultural de Paredes de Coura. 23 fotojornalistas foram convidados a fazer uma retrospetiva aos 24 anos do festival, cedendo 68 fotografias que revisitam alguns dos melhores momentos. A mostra pode ser vista, de 15 a 22 de agosto.

No cimo do Monte da Pena, na freguesia de Mozelos, fica um miradouro com vista sobre o vale do rio Coura e que permite ter uma ideia mais ampla do território. É lá também que fica a capela de Nossa Senhora da Pena, do século XVIII.

A Eira Comunitária de Paredes de Coura. © D.R.

Para o município, “um verdadeiro postal vivo e de obrigatória visita” é a Eira Comunitária de Porreiras, conhecida como o Celeiro do Alto Minho. Situada a sete quilómetros da vila de Paredes de Coura, a Eira Comunitária conta com oito espigueiros, quatro alpendres que serviam de palheiros e um núcleo de moinhos de água recuperados nos últimos anos, proporcionando, para além da memória do passado, uma vista desafogada sobre a paisagem.

Quem gosta de fazer trilhos tem no município o Trilho Corno de Bico, um percurso pela floesta, marcado e sinalizado segundo
as diretrizes internacionais. A meio do percurso fica um miradouro natural, rodeado de blocos graníticos, de onde é possível apreciar o Vale do Rio Coura e os Vales dos Rios Vez e Lima.

Para quem pretende apenas aproveitar para descansar junto ao rio e pôr a leitura em dia, este ano a organização, em parceria com a editora Leya, vai disponibilizar, para download grtuito, mais de 40 obras onde se encontram autores como António Lobo Antunes, Lídia Jorge, José Luandino Vieira, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, entre outros. Cada título terá um QRCode associado, para que o leitor consiga descarregar a obra para o seu smartphone, tablet ou e-reader. Os visitantes poderão encontrar várias Bibliotecas Digitais Vodafone distribuídas pela praia fluvial do Taboão e pela vila de Paredes de Coura durante a semana do festival.