“Foi um dia difícil, sofremos pressões de todo o tipo”. Dentro do enorme imbróglio que ainda pior ficou depois do referendo de 1 de outubro na Catalunha, o Barcelona, que em termos institucionais e “políticos” já não andava famoso, sofreu danos colaterais. É certo que, como muitos defendem, qualquer que fosse a decisão dos blaugrana em relação ao Las Palmas seria sempre apoiada e criticada. No entanto, tudo se centrou na figura máxima do clube, Josep Maria Bartomeu. O presidente, que perdeu dois elementos da direção descontentes com a forma como lidou com o que se passava na região, chamou os restantes dirigentes e promoveu uma conferência de imprensa para explicar tudo. Uma conferência onde, mais do que nunca, se “colou” aos sócios e aos catalães, adiantando, por exemplo, que o clube vai aderir à greve geral desta terça-feira.

Bartomeu. O ex-basquetebolista, empresário e independentista que deixou o Barcelona em clima de pré-guerra civil

“Avançámos com uma reunião extraordinária perante a situação excecional que está a viver o nosso país. Nos últimos anos, aderimos ao pacto do Direito a Decidir e ao referendo. Em setembro, condenámos as detenções que fizeram e manifestámos o nosso apoio às pessoas e às instituições que trabalham para garantir os direitos. Na mesma linha, ontem expressámos a nossa condenação mais enérgica ao uso indiscriminado da força para impedir o voto de milhares de cidadãos”, começou por contextualizar o líder do Barcelona.

“Falámos com as pessoas do clube sobre o assunto e decidimos que iríamos jogar à porta fechada. Entendo que muitos adeptos preferissem suspender o jogo, mas esta foi uma das decisões mais difíceis que tomei como presidente. Tentámos, mas a Liga não aprovou o adiamento. Acreditei que a imagem de um jogo de futebol num Camp Nou vazio daria a visibilidade ao que se viveu. O jogo foi transmitido em 174 países”, adiantou, antes de tentar argumentar de forma detalhada todos os passos até concluir que o melhor seria jogar à porta fechada.

“Anular o jogo seria notícia um minuto, mas jogar com o estádio vazio foi durante 90 minutos. Foi uma decisão de todos. Em primeira instância, considerámos que o melhor era suspender o jogo mas não nos deram autorização. Desde as nove da manhã que se passaram muitas coisas, fomos falando com muitas pessoas. Foi a decisão mais responsável. Foi um difícil para todos, recebemos todo o tipo de pressões”, reforçou, antes de anunciar outras medidas a curto prazo e, eventualmente, num cenário a médio/longo prazo.

Em caso de independência, o que faremos? É um tema que iremos avaliar com calma se chegar o momento. Representamos todos os sócios do nosso clube e são os sócios que devem decidir em que liga quereriam jogar”, salientou Bartomeu

“Lamentamos os problemas que a decisão originou a sócios e adeptos. Vamos parar amanhã a nossa atividade e nenhuma equipa vai treinar na Cidade Desportiva. Num momento tão trascendente da nossa história, comprometemo-nos ainda mais com as liberdades do nosso país. O que se passou ontem [domingo] foi inadmissível. Os catalães ganharam o direito de serem ouvidos. Continuaremos a explicar ao mundo a realidade que se vive na Catalunha. Temos um compromisso fiel com a Catalunha e faremos valer isso em todas as ocasiões. Estamos solidários com aqueles que defenderam a democracia e com as vítimas das agressões. Em caso de independência, o que faremos? É um tema que iremos avaliar com calma se chegar o momento. Representamos todos os sócios do nosso clube e são os sócios que devem decidir em que liga quereriam jogar”, destacou.

Além da questão em torno de Gerard Piqué (“Se Lopetegui o convoca é porque conta com ele em termos desportivos”, disse, de forma resumida), Bartomeu tentou também esclarecer a polémica em torno da causa atribuída pelo árbitro para o jogo ser realizado À porta fechada. “Não havia nenhum motivo para suspender o jogo a nível de segurança, tudo o que fizemos foi pelo que estava a acontecer. Os Mossos confirmaram-nos que havia a possibilidade de fazer o jogo com toda a normalidade. Ata do árbitro? Aquilo que comuniquei era que devia jogar à porta fechada e acrescentei que havia grupos que estavam a anunciar invasões do campo”.

Por fim, quis legitimar o seu mandato apesar das duas demissões que sofreu no elenco. “Cada um tem a sua forma de atuar e de tomar decisões. Se Vilarrubí e Monés preferem demitir-se, há que respeitar e só podemos agradecer a sua dedicação. Há união no clube, há forças e energias para seguir em frente com o nosso projeto”, frisou, antes de deixar a frase que mais se tem ouvido entre ontem e hoje na Catalunha: “Isto não acaba aqui, continuaremos a defender a liberdade de expressão e a democracia”.