A acusação do Ministério Público no caso do atropelamento mortal do adepto italiano Marco Ficini é muito clara em relação à ordem cronológica dos acontecimentos na madrugada do dérbi entre Sporting e Benfica, a 22 de abril deste ano: tudo terá começado no Estádio José Alvalade, quando um grupo de adeptos encarnados atirou uma tocha para junto do espaço da claque Juventude Leonina no recinto, e só depois chegou ao Estádio da Luz, onde elementos da claque No Name Boys fizeram uma espécie de espera para a previsível retaliação dos rivais.

De acordo com a acusação, a que o Expresso e o Correio da Manhã (conteúdos fechados) tiveram acesso, esse primeiro arremesso do artefacto pirotécnico, como o Observador já tinha avançado na altura, terá ocorrido por volta da 1h da manhã. Nessa altura, e como é habitual em vésperas de jogos grandes, estavam concentrados em Alvalade muitos elementos das claques verde e brancas, ainda para mais sabendo da presença dos amigos italianos pertencentes à 7Bello, um dos grupos organizados da Fiorentina com quem a Juventude Leonina, sobretudo os seus adeptos mais antigos, têm relação há cerca de 20 anos.

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A certa altura, e após essa provocação, terão começado a sair alguns carros em direção ao Estádio da Luz, entre os quais aquele onde ia Marco Ficini. Aí, junto à rotunda Cosme Damião, já estavam presentes muitos adeptos dos No Name Boys numa espera onde todos os carros que por ali passassem eram “revistados”, para garantir de que não tinham qualquer ligação às claques do Sporting. Isso mesmo tinha sido confirmado no próprio dia por um jovem (que não quis dar a cara nem o nome com medo de represálias) que morava nas imediações do recinto e tinha passado por lá nessa madrugada.

Por volta das 2h30, terá chegado a caravana de carros da claque do Sporting, com pelo menos 13 elementos. Estacionaram as viaturas e saíram para a estrada, tendo na sua posse barras de metal e tochas de cor verde. À espera estavam os elementos da claque do Benfica, com pedras e barras de ferro. Terá sido nessa altura que Luís Pina, adepto pertencente aos No Name Boys, entrou no Renault Clio que só viria a ser descoberto pelas autoridades uns dias depois em direção aos rivais, tendo ainda dez companheiros de claque em seu auxílio.

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Segundo a acusação do Ministério Púbico, Luís Pina guinou o carro para a direita quando se aproximou da rotunda, tentando atropelar logo aí quatro adeptos leoninos que ainda se conseguiram desviar a tempo. O carro ficou então rodeado por sportinguistas, que amolgaram a viatura com pedras e barras de ferro. O suspeito de ter atropelado mortalmente Marco Ficini ainda terá saído numa primeira instância do carro, regressando pouco depois quando percebeu que os adeptos rivais estavam em fuga. Foi aí que se deu a colisão com o italiano, tendo arrastado o corpo 15 metros antes da imobilização do carro “depois de ter passado completamente por cima do corpo da vítima”, diz o Expresso, que conta que Luís Pina abriu a porta do carro, certificou-se que o transalpino não se mexia e arrancou.

Luís Pina, o principal arguido do caso, foi acusado de um crime de homicídio qualificado e quatro na forma tentada, arriscando agora a pena máxima de prisão (25 anos). Outros 21 adeptos serão levados a julgamento pelos crimes de participação em rixa, dano com violência e omissão de auxílio.

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De referir ainda que, caso seja condenado no atual processo, Luís Pina pode ter de cumprir pena efetiva de um ano e quatro meses, que estava suspensa pela rixa em que esteve envolvido em 2011. Como o Observador avançou, no seguimento de confrontos registados antes de um dérbi em Alvalade, o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa deduziu acusação a 16 elementos da Juventude Leonina e a dois dos No Name Boys, um dos quais Luís Pina. Resistência e coação, ofensas à integridade física, participação em rixa, detenção de arma proibida e arremesso de objetos foram os cinco crimes envolvidos na altura.