Keep cool“. Este texto é sobre um passado recente, sobre um ausente muito presente, doutores e engenheiros, uma promessa de vitória que se “lixou”, mais umas promessas de líderes por confirmar, sem esquecer o famoso dr. Rebelo de Sousa. Foi há dois anos. Começou a 1 de abril. E foi o último congresso do PSD, em Espinho. Lembra-se? Já se esqueceu? Disseram os comentadores que não teve grande história. Mas visto a partir de fevereiro de 2018, foi lá que na verdade começou o 37º Congresso, este que arranca na tarde desta sexta-feira, na antiga FIL — no Centro de Congressos de Lisboa.

[Veja aqui as partes mais divertidas do último congresso do PSD, em 2016]

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Estava tudo “cool“, não havia excessos nem nervosismos, porque um homem se escusou a atravessar uma ponte e fazer uns breves quilómetros para se fazer ouvir em Espinho. Sim, Rui Rio estava sem estar. Apalpava o terreno. Preparava o caminho. Mas não arriscava. Reservava-se. A Presidência da República já estava ocupada e ele ficara em casa. E era tempo de esperar para ver o que Passos Coelho ia fazer nestes dois anos. Uma semana antes do congresso, numa entrevista à TSF quase toda dedicada a falar da banca, Rui Rio diria as frases que foram interpretadas como a escusa para não ofuscar o líder. As palavras não foram exatamente essas, mas era esse o sentido.

Se eu lá fosse ainda me arriscava a ser um elemento central do congresso. O doutor Pedro Passos Coelho resolveu candidatar-se, com base em ter sido o mais votado (embora não o vencedor). Tem essa legitimidade, eu não quero perturbar”, disse Rui Rio ao microfone da rádio.

Não quis ir: “Corria o risco de exacerbarem a minha presença no congresso”, assumiu na entrevista. O conclave não ia ter “grande história”. E ele era um homem de paz: “Não quero perturbar, e acho que não conseguia ir sem essa perturbação.” E dali a dois anos? Portanto, hoje? “Se este Governo durar os quatro anos, será um congresso com mais história. Não faço futurologia”, disse então Rui Rio. Mas fez, adivinhou, e até tinha razão. Este congresso, ao que parece, terá mais história. Um novo líder, ele próprio. E ao que se espera, até uma oposição.

Afinal, houve partes que não foram assim tão “cool“. É claro que a ausência de Rui Rio foi mote de comentários e piadas de palanque. Pedro Passos Coelho até lembrou a velha frase de que “só faz falta quem está”. Pedro Santana Lopes também falou na possibilidade de causar um eclipse:

Ainda me perguntei se ofuscaria ou não o líder do partido, mas os meus familiares disseram-me que não havia esse risco, para vir à vontade”, ironizou no púlpito.

Uns dias depois, o ausente havia de reagir com muita indignação. Rui Rio escrevia no Jornal de Notícias um artigo intitulado “Assim não!”, a criticar os que tinham criticado a sua ausência: “Aqueles que da minha ausência fizeram um tema central do Congresso acabam, na prática, por dar razão à minha razão ao ter optado em não estar presente. Se, para eles, fui tão relevante ao não estar, como não teria sido se eu lá estivesse. Não teria havido palavra minha que não tivesse tido mil e uma interpretações e mil e uma especulações, ou seja, justamente, o que eu não queria. Assim, não!”

Rui Rio não desejava interpretações sobre a sua presença nem sobre a sua ausência e ainda por cima tinha sido mal interpretado. O futuro líder do PSD escrevia: “Fiquei triste ao ouvir uma pessoa pelo qual tenho consideração pessoal, como Pedro Santana Lopes, insinuar que eu não fui ao Congresso para ofuscar o líder, quando ele sabe que eu nunca disse tal disparate e que essa postura, pura e simplesmente, não joga com a minha maneira de ser. Como também me penalizou ouvir o secretário-geral Matos Rosa, pessoa que não conhecendo muito bem tenho em boa conta ética e moral, dizer com injusta ironia que eu revelo grande humildade”.

Esta foi a discussão central, ao mesmo tempo paralela, mas que já era o início do congresso que arranca hoje. Rui Rio preparava um caminho.

Humildade, umas eleições lixadas e a antevisão do desastre autárquico

Passos Coelho foi aclamado em abril de 2016, mas não anteviu a possibilidade de uma derrota pesada nas autárquicas de 2017

Mas, em Espinho, Pedro Passos Coelho também preparava o seu caminho. Neste caso, não para uma nova ascensão, mas para uma queda que levaria à sua saída da liderança. No discurso de abertura, admitiu erros: “Com humildade vos digo: não fiz tudo bem”. Mas não antecipava os que aí vinha. O tema fundamental eram as eleições autárquicas. Eram para ganhar. A liderança da Associação Nacional de Municípios, era para recuperar, garantia Passos. E não se sabia ainda que ele e o partido não faria tudo bem. A especulação nos corredores e bastidores era o que faria Passos se perdesse as autárquicas dali a quase dois anos.

O presidente dos Autarcas Sociais-Democratas, Álvaro Amaro — e apoiante de Rui Rio, recordou as últimas eleições locais como um mau exemplo: “Em 2013 lixámo-nos mesmo”, disse. Estava longe de adivinhar que, em 2017, o partido ia lixar-se outra vez, e Pedro Passos Coelho com ele. Estava a desenhar-se um destino, com a ajuda do protagonista que anima todos os congressos, e que fez uma das poucas intervenções marcantes e que ficariam para recordar.

Keep cool, tenhamos calma, cada coisa a seu tempo”. Foi assim que Pedro Santana Lopes fechou o seu discurso no congresso, marcando terreno para a câmara de Lisboa, e condicionando toda a gente à sua volta, convencendo Pedro Passos Coelho de que tinha a intenção de concorrer à autarquia da capital. O desfecho desta história é conhecido. Santana, que não tinha ido às presidenciais, que acabou por não ir às autárquicas — ligando-se ao destino de Passos pelo resultado eleitoral –, havia de comparecer nas diretas para presidente do partido contra Rui Rio, apoiado pelos herdeiros do passismo. E assim, nessa qualidade, sempre “cool”, estará este fim-de-semana no congresso, como adversário apaziguado possivelmente como cabeça da lista do líder ao Conselho Nacional do partido.

Sem Rio presente e com Santana suave, emergiram em Espinho dois possíveis candidatos à liderança. Numa entrevista ao Observador, José Eduardo Martins assumia que um dia candidatar-se à liderança era “uma possibilidade” para si “como para muitos”. Pedro Duarte, ex-líder da JSD e diretor da campanha presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, colocava essa hipótese de lado, mas alimentava um protagonismo que nunca mais o retirou das equações políticas no partido — e que este fim-de-semana apresenta uma moção com o comissário europeu Carlos Moedas. As intervenções de ambos, no entanto, foram consideradas abaixo das expectativas que geraram.

O outro possível candidato à liderança para uma sucessão a Passos Coelho foi Paulo Rangel — tanto que há três meses ponderou seriamente uma candidatura e recuou na 25ª hora. A sua intervenção em Espinho era aguardada. Rangel fez um bom discurso, sob o mote de que o PSD devia assumir-se como o partido promotor da mobilidade social ascendente, mas acabou por ser lembrado por outro assunto muito mais importante. Paulo Rangel, para surpresa dos congressistas, jornalistas e observadores, propôs o fim dos doutores e engenheiros. O eurodeputado pediu que se tratem os portugueses por igual e se acabassem com o “dr.” e “engenheiro” nos documentos oficiais do Estado.

Nos documentos, talvez, mas não nos discursos, porque Passos Coelho deixou escapar (propositadamente) o título académico do Presidente da República recentemente empossado, usando uma designação vista como pouco simpática. Foram várias as vezes que repetiu a referência ao “dr. Rebelo de Sousa”. Na melhor das hipóteses, o “Presidente Rebelo de Sousa” ou só “Rebelo de Sousa” — nunca “Marcelo” ou “professor”. As relações entre ambos não eram boas e nos dois anos seguintes não se tornaram espetaculares, com o Presidente a considerar que a direita ou o PSD não aproveitava quando dava sinais de descontentamento com o Governo.

Foi no congresso de há dois anos que Passos promoveu a mudança de atitude em relação “geringonça”. Aceitou o resultado da solução governativa de suporte parlamentar. Disse acreditar que era um Governo para durar. O então líder parlamentar, Luís Montenegro, até pediu uma oposição “serena” — o que não viria a confirmar-se com o seu sucessor, Hugo Soares, que fez uma oposição muito aguerrida. Ou uma oposição que não devia ser “histriónica” como pediu Paula Teixeira da Cruz.

No discurso final de encerramento do congresso, Passos Coelho atirava para a frente e lançava dossiês que nunca foram adiante com grande convicção. O PSD “não tem pressa. Temos tempo”, dizia. E o tempo era de “preparar para ser Governo no futuro”. Assumia: “Somos o partido da oposição. Não concordamos com este Governo e esta maioria”. E propunha: “É preciso mudar”, para falar da reforma do sistema político. “Quem não muda morre”. Pedia uma reforma do sistema político — que teria de imediato à saída do congresso uma oposição do CDS à redução de deputados — e uma “segunda geração de políticas estruturais” para uma “reforma do Estado para libertar o potencial de crescimento da economia portuguesa”.

Há dois anos, antevia-se que Passos Coelho — o vencedor improvável das legislativas de 2015 — podia estar em declínio. O próprio partido não lhe estava a dar um apoio esmagador, apesar dos aplausos aos discursos e dos 95% nas eleições diretas. A sua lista para a comissão política nacional teve apenas 79,8% dos votos dos delegados, o pior resultado de Passos na liderança. A escolha dos vices e vogais não terá agradado a distritais, algumas “incomodadas” com as “escolhas pessoais” do líder. A promoção de Maria Luís Albuquerque a vice-presidente terá estado na base da fraca votação. De um total de 794 delegados apenas 594 votaram na lista do líder. No seu comentário semanal, Marques Mendes criticaria a falta de renovação.

Esta sexta-feira, Pedro Passos Coelho deve fazer um discurso de despedida que não ofusque Rui Rio, que desta vez será mesmo a figura central do congresso. Quanto a Santana, ainda vamos saber se estará “cool” quando se apresentar aos delegados.