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“O CDS terá porventura em Lisboa uma grande candidata”, dizia João Gonçalves Pereira — vereador do CDS na capital — no primeiro dia de intervenções no palco do pavilhão multiusos de Gondomar, a 12 de março de 2016. “Seria muito bom mostrar numa grande cidade do que o CDS é capaz”, responderia Assunção Cristas no discurso de encerramento. Não foi um diálogo, mas quase. Cristas pediu “coragem para o CDS apresentar uma candidatura forte e mobilizadora”, invocou o nome de Krus Abecassis, e, voilà, 1+1 são dois: seis meses depois, Cristas anunciava que seria candidata à câmara de Lisboa, e iniciava uma campanha ao longo de um ano. O resultado foi o que se viu. O inédito segundo lugar do CDS na capital, com 20,59% dos votos, faz com que a sucessora de Paulo Portas, que saiu de Gondomar a precisar de ser testada nas urnas, chegasse agora a Lamego com a prova superada com distinção.

Quando se realizou o congresso em que Cristas foi eleita presidente do partido tudo estava já a ser pensado e acertado. Mas, com as eleições autárquicas ainda tão distantes no calendário, o tema estava longe de estar em cima da mesa. Mais tarde, em plena campanha, Assunção Cristas admitiria ao Observador, no Carpool Autárquicas, que a hipótese de concorrer a Lisboa se colocou ainda quando Paulo Portas era líder — e que o próprio a incentivou a avançar. “No congresso acabei por dizer que em Lisboa queríamos uma candidatura forte, fiquei-me por ali porque não queria vincular nada nem ninguém, mas a abordagem começou antes e ainda sem eu imaginar que ficaria como líder do CDS”, diria. Quem também não imaginaria que ia concorrer a Lisboa nessas mesmas autárquicas era Teresa Leal Coelho, que foi a Gondomar enquanto vice-presidente do PSD, e que assistiu na fila da frente ao discurso de Assunção Cristas que lançou as sementes para o que se seguiria…

“Esta hipótese foi colocada antes de Paulo Portas sair e antes de eu ser líder do CDS, num jantar de Natal da concelhia do CDS de Lisboa, para aí no dia 10 ou 15 de dezembro. Nesse jantar o João Gonçalves Pereira estava sentado ao meu lado e diz-me assim: ‘Oh Assunção, temos de começar a pensar nas autárquicas de 2017, o que é que tu achas da câmara de Lisboa?’ E a coisa começou assim, mas depois ficou entre parêntesis. Paulo Portas disse que saía a 28 de dezembro, depois iniciou-se o processo de substituição, o congresso foi em março, e, nessa altura, disse ao João Gonçalves Pereira que gostava muito mas que agora não podia ser só uma decisão minha, teria de ser visto com todo o partido, com a sensibilidade nacional”, explicou ao Observador. 

Teresa Leal Coelho, na altura vice-presidente do PSD, acompanhou Passos Coelho no último dia do congresso do CDS, e assistiu na primeira fila ao discurso de entronização de Cristas — que viria a ser sua adversária nas autárquicas

As autárquicas ainda pareciam distantes, mas foi ali, em Gondomar, que a semente foi plantada: os frutos, Cristas continua a colhê-los, querendo agora transportar o que se passou em Lisboa para um nível nacional. O objetivo é ambicioso, mas Cristas deixa-o claro na moção de estratégia global com que se candidata a mais dois anos na presidência do partido: fazer do CDS “o partido da oposição” ao PS, ultrapassando o PSD nesse papel — e, quem sabe, nas urnas.

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“E Pronto, finito”. Portas despede-se e passa a pasta a “um par de mãos seguras”

Se há dois anos Paulo Portas ainda foi uma figura central no congresso — pelo menos no primeiro dia, na emoção da despedida –, dois anos depois, o ex-líder do CDS pode até nem marcar presença da reunião magna do partido. Paulo Portas está no México, onde desempenha funções de consultor da Mota-Engil para o mercado da América Latina, e o Observador sabe que já gravou uma mensagem em vídeo para poder ser exibida no ecrã caso não consiga estar em Lamego no fim de semana.

Uma ausência que vai ser notada num partido pouco habituada a fazer congressos sem Paulo Portas. Em março de 2016, em Gondomar, o ex-líder fez um longo discurso, de quase uma hora, onde não conseguiu evitar “sinais exteriores de emoção”, leia-se, lágrimas. “Não me perguntem se é até já ou até sempre. É até amanhã, que eu vou cá estar [para votar em Assunção]”, disse, lançando depois o tapete vermelho para Cristas, que apelidou de “safe pair of hands“. Como quem diz: sai, mas deixa o partido em boas mãos, “mãos seguras”. “É exatamente o que os portugueses esperam de ti, que sejas um par de mãos seguras para tratar bem de Portugal”, disse.

Portas: os conselhos, elogios e omissões na hora do adeus

Por aquela altura ainda não se conhecia a Operação Fizz, mas decorriam investigações judiciais a vários altos dirigentes angolanos, como o ex-vice-Presidente angolano, Manuel Vicente. Paulo Portas, que foi vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, chegou mesmo a usar a sua última vez no palco político do CDS para falar de Angola. E fez um discurso que ainda hoje é citado por dirigentes centristas: apelou “a todos, aos órgãos de soberania”, para que “evitassem a tendência para a judicialização da relação entre Portugal e Angola”, justificando que “esse seria um caminho sem retorno”. Aconselhou antes que se tentasse “por todas as vias o compromisso”, sublinhando as “afinidades entre Portugal e Angola” e apontando para o risco de uma rutura: “O lugar que Portugal deixar de ocupar em Angola vai ser ocupado por outros países, se calhar pelos que se empenham discretamente em prejudicar as relações entre Portugal e Angola”. O recado foi polémico e lido como uma interferência na Justiça, mas ficou para memória futura.

Para os centristas, o sentimento, ao longo de toda a derradeira intervenção de Portas, foi de “orgulho” e de “consciência de missão cumprida”. Talvez por isso tenha falado mais de si próprio do que dos outros. O auto-reconhecimento foi uma constante, com Portas a sublinhar o facto de ter criado uma geração competitiva e preparada dentro do partido, e de ter sabido sair na altura certa. Agradeceu a todos, não esqueceu ninguém, dos funcionários aos assessores, passando pelo motorista e as secretárias. Falou de si, de si e dos seus. “E pronto, finito”, disse no fim. Foi a última vez, desta vez, em Lamego, já não haverá Portas — ou haverá meio Portas, em versão vídeo.

Oposição procura-se. Avistada pela última vez em Gondomar

O virar de página já está consolidado. A líder que Portas escolheu para o suceder no congresso de Gondomar já teve dois anos para retirar ao partido todos os possíveis argumentos de contestação: obteve um resultado irrepreensível nas autárquicas e no Parlamento ninguém se pode queixar de que o CDS não faça oposição. As críticas internas apontam mais para o estilo ou para a perda de identidade ideológica do partido enquanto partido democrata-cristão — Filipe Lobo d’Ávila ainda esta semana deu uma entrevista ao Público onde diz que “O CDS precisa de um projeto que não esteja centrado na imagem de Cristas”. Mas “oposição interna” não é bem uma expressão que se oiça todos os dias no largo do Caldas.

Há dois anos, Filipe Lobo d’Ávila foi o rosto da oposição interna ao encabeçar uma lista ao Conselho Nacional (com a maior parte dos rostos que teriam preferido Nuno Melo a Assunção Cristas, como Raul Almeida e Altino Bessa), e ao conseguir uns expressivos 23% dos votos. Um par de anos depois, nem Lobo d’Ávila vai repetir a proeza, nem Nuno Melo vai fazer qualquer intervenção que tire alguma ponta de tapete à líder do partido. Ou seja, Cristas vai estar confortavelmente a jogar em casa. Em todo o caso, numa entrevista ao Público, Lobo d’Ávila mantém um toque crítico da estratégia seguida pela presidente do partido, duvidando de que seja boa ideia centrar o partido na imagem da líder, e duvidando de que seja melhor para o centro-direita (PSD e CDS) concorrerem separados às legislativas, como Cristas preconiza.

A ideia de PSD e CDS fazerem a sua vida autonomamente para se juntarem apenas no fim, na soma das partes, tem sido defendida por Assunção Cristas desde o congresso de Gondomar, onde lembrou que “o voto útil acabou” com a formação da geringonça. Por isso, Cristas deu há dois anos o mote daquilo que está válido ainda hoje: que o “alvo” do CDS é mais o PSD do que a “geringonça”, no sentido em que é aos desiludidos do PSD que o CDS vai querer ir buscar votos. Rui Rio, o novo presidente do PSD, vai estar na primeira fila a ouvir o discurso de encerramento da líder do CDS.

Congresso: o alvo do CDS não é a geringonça mas o PSD

Coube a Nuno Melo — o proto-candidato a líder que nunca chegou a avançar –, fazer uma das intervenções mais aplaudidas do congresso, mais ainda do que a intervenção inicial de Assunção Cristas. Centrado nos ataques à “geringonça” e no Governo de António Costa, o eurodeputado acusou o executivo socialista de ser “uma errata de si próprio” por estar sempre a mudar quando “choca de frente com a realidade”. “No tempo de Sócrates as erratas chamavam-se PEC”, agora são erratas permanentes dos planos iniciais, disse. E num momento em que o CDS de Cristas, e da maioria dos dirigentes, falava em abertura do partido a todos, mesmo a um possível diálogo com os socialistas em caso de eleições antecipadas, Nuno Melo distinguiu-se pela rigidez do tom e agressividade face ao Governo socialista: não era dirigido pelo Largo do Rato mas sim pelo Comité Central do PCP.

Do congresso de Gondomar saiu a composição dos novos órgãos nacionais do CDS de Cristas, com a presidente a conseguir 95,6% dos votos para a comissão política do partido, o órgão de direção. Para o conselho de jurisdição, a lista de Cristas arrecadou 76,5% dos votos, contra os 20% da Lista B, de Lobo d’Ávila. No conselho de fiscalização do partido, a lista da nova líder era única e ficou com 94,5%. Para a mesa do congresso, Cristas voltou a ser a única a avançar com candidaturas, ficando com 94,4% dos votos. A percentagem mais baixa da presidente do CDS nas eleições aos órgãos do partido foi mesmo na votação para o Conselho Nacional. Aí sim, houve oposição. Cristas desvalorizou o gesto, disse que era sinal de “vivacidade do partido” e de “pluralismo”: “não incomoda nada”. A verdade é que estas guerras de última hora nos bastidores do congresso, que se verificaram em Gondomar, podem até ser habituais em conclaves de partidos grandes, como o PSD e o PS, mas não são comuns em congressos do CDS, onde tudo se centrava no ex-líder Paulo Portas.

O arranque de Assunção Cristas teve um cheirinho a oposição, mas depressa se desvaneceu. Filipe Lobo d’Ávila continuou deputado e o ex-deputado Raul Almeida assumiu o papel de porta-voz desta fação crítica do partido, aparecendo de vez em quando a criticar a estratégia política e o posicionamento da presidente do partido. Ainda esta semana, quando foi conhecida a moção de estratégia global de Assunção Cristas ao congresso, Raul Almeida criticou o facto de o documento ser omisso quanto à matriz democrata-cristã do partido. “Perante esta moção, os delegados ao congresso do CDS terão de decidir se aceitam a morte do CDS democrata-cristão e conservador que conheciam e que era um referencial na vida política portuguesa”, disse ao Público. Também Filipe Lobo d’Ávila criticou o facto de o texto de estratégia da líder ser mais “um relatório de atividades e contas” do primeiro mandato, do que um documento com visão de futuro. Críticas há, mas se há dois anos o palco de Gondomar não foi dado a contestação, dois anos depois, em Lamego, menos ainda será.

Há dois anos, a música escolhida por Assunção Cristas para entrar no Congresso foi “Changes”, de Faul. Era tempo de mudanças, e de refrescar a imagem do partido. Agora, que música escolherá?

Baby, I don’t know

Just why I love you so

Maybe it’s just the way

That God made me this day

Fotogaleria. “God made me this day”