Cerca de três dezenas de personalidades portuguesas ligadas à cultura e à política associaram-se esta segunda-feira a uma iniciativa de apoio ao Papa Francisco, numa altura em que o líder da Igreja Católica é acusado por um antigo embaixador do Vaticano nos Estados Unidos de ter conhecimento de abusos sexuais praticados por um cardeal norte-americano desde, pelo menos, 2013.

A iniciativa, que teve lugar esta tarde na Capela do Rato, em Lisboa, foi organizada pela escritora Leonor Xavier, que, no início da sessão subordinada ao tema “Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”, classificou o pontífice argentino como “a grande figura do século XXI”.

Durante perto de uma hora e meia, personalidades como Alice Vieira, Ana Zanatti, Leonor Beleza, Guilherme Oliveira Martins, Pedro Mexia, Rui Vieira Nery ou Vitorino tomaram a palavra na Capela do Rato para ler excertos de textos do Papa Francisco, incluindo passagens de homilias e discursos e excertos de documentos pontifícios.

Outras figuras, como a historiadora Irene Pimentel, o deputado do Bloco de Esquerda José Manuel Pureza, a escritora Lídia Jorge e o professor catedrático Viriato Soromenho Marques, não estiveram presentes, mas associaram-se à iniciativa escolhendo textos que foram lidos durante a sessão.

O objetivo, explicou a organizadora do acontecimento, Leonor Xavier, foi “exprimir admiração e manifestar apoio” ao Papa Francisco a partir dos seus próprios escritos, “sem discursos”, mas “inspirados nas palavras do Papa”. Além da leitura dos textos, foram também interpretadas peças musicais.

O músico e ex-padre Francisco Fanhais encerrou a tarde com uma interpretação de “Utopia”, de José Afonso, e da “Cantata da Paz”, com versos de Sophia de Mello Breyner — logo após o padre António Martins, capelão daquele templo, classificar a Capela do Rato como um “espaço para o diálogo plural”.

António Martins, que sucedeu no cargo a Tolentino Mendonça, recentemente nomeado arcebispo e arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano, destacou a “profunda sintonia com o Papa Francisco” de “crentes e não crentes” da sociedade portuguesa, que reconhecem em Bergoglio “um dom de Deus para a Igreja” ou, pelo menos, “uma autoridade moral”.

O Papa Francisco enfrenta neste momento um dos momentos mais complexos do seu pontificado, com o fosso entre as fações habitualmente classificadas como “conservadoras” e “progressistas” a abrir-se ainda mais, agora na sequência dos escândalos de abusos sexuais praticados por membros do clero.

Em agosto, o antigo embaixador do Vaticano nos EUA Carlo Maria Viganò acusou o Papa Francisco de conhecer há cinco anos os casos de abusos sexuais praticados pelo cardeal norte-americano Theodore McCarrick e pediu ao líder da Igreja Católica que renunciasse ao cargo.

O pedido, inédito, levou a uma divisão profunda na Igreja, entre os defensores e os opositores do Papa Francisco. Os responsáveis da Igreja Católica em Portugal — como, de resto, tem acontecido na maioria dos países de tradição latina — posicionaram-se de imediato ao lado do Papa, escrevendo uma carta aberta a denunciar “tentativas de pôr em causa a credibilidade” de Francisco.

Antes, o cardeal de Fátima, D. António Marto, tinha dito, em entrevista ao Observador, que a carta de Viganò com as acusações contra o Papa era parte de uma “campanha organizada pelos ultraconservadores para ferirem de morte o Papa Francisco”.

Entretanto, o Papa Francisco ordenou uma investigação aos documentos dos arquivos do Vaticano que possam ajudar a apurar a verdade sobre os abusos sexuais alegadamente cometidos por aquele cardeal norte-americano.