Título: “Lembranças Adormecidas”
Autor: Patrick Modiano
Tradução: Artur Lopes Cardoso
Editora: Sextante

Eis o primeiro romance de Patrick Modiano após a distinção do Nobel da Literatura, que venceu em 2014. E apesar do marco, um intenso provedor de expectativas no mercado editorial, o autor prossegue a sua obra sem abalos, criando uma narrativa curta que se entrega, uma vez mais, à recuperação dedicada da memória.

No arranque, um outro livro: Le Temps des Rencontres, que o narrador encontra à venda nos cais de Paris e que lhe serve de mote para recuar ao seu passado. Imagina-se que este livro seja um dos volumes das memórias de George Haldas, escritor prolífico que cruzou sem cerimónia o quotidiano e a metafísica e onde não é difícil reconhecer uma linhagem à qual Modiano não é estranho. De qualquer modo, apenas se regista o título, deixando tudo o resto à construção do leitor, como aliás acontece com muito do que escreve o autor, que alia uma prosa sem grandes ornamentos, de sintaxe escorreita e ideias claras, a uma elaborada filigrana que vai estendendo a sua complexidade no nível do pensamento, da caracterização das personagens e das recordações, mas nunca do verbo.

O ritmo de Lembranças Adormecidas, com capítulos curtos e de tom confessional, parece evocar a forma musical da fantasia, agarrando-se ao improviso sem pirotecnia verbal e estilística e ignorando a rigidez de formas que poderiam estruturar uma narrativa de modo linear. Ainda assim, há estrutura no que se narra e há um narrador consciente disso mesmo quando hesita, logo no início do romance, sobre o melhor modo de lhe dar forma:

“Deverei falar realmente, de imediato, de Martine Hayward e de alguns indivíduos díspares que a rodeavam, nessas noites? Ou então seguir a ordem cronológica? Já não sei.” (pgs.5/6)

A indecisão, num narrador, costuma ser artifício e não tanto dúvida metódica. O narrador de Modiano talvez não seja excepção, mas de tal modo se assume como voz à deriva na reconstrução do seu próprio passado que a leitura não tem outro remédio que não seja o de assumir as divagações desordenadas do seu guia. Interrompida a história de Martine Hayward, ou do que na sua companhia se passava aos domingos ao fim do dia, inicia-se a deambulação pela juventude de quem narra, pelas mulheres que foram cruzando a sua vida nesses anos e, sempre, pelas ruas de Paris, cujas pequenas histórias e segredos parecem reflectir os desencontros e as incompreensões de quem a habita. A cidade merece, aliás, mais do que o estatuto de mero cenário, construindo-se como local desencadeador dos vários fios que vão sendo puxados pela narrativa e em cujo emaranhado o narrador nunca perde a mão:

“Pensei de novo naqueles quadros junto aos guichês do metro. A cada estação correspondia um botão no teclado e precisávamos de o premir para saber onde deveríamos mudar de linha. (…) Tinha a certeza de que, no futuro, bastaria inscrever no ecrã o nome de uma pessoa com quem nos tivéssemos cruzado outrora e um ponto vermelho indicaria o local de Paris onde poderíamos encontrá-la.” (pgs.37/38).

Evocando o passado, o narrador centra as suas divagações numa série de mulheres que assumiram papéis importantes na sua vida afectiva, e fá-lo contando a história possível de recuperar relativamente a cada uma delas. Da rapariga praticamente desconhecida que esperou, um dia, à porta de casa – e cujo nome persiste no seu imaginário como uma poderosa evocação da juventude e da esperança ilimitada num qualquer acontecimento surpreendente que possa, de repente, mudar o mundo – à mulher que conheceu numa livraria dedicada a temas esotéricos, e que acabou por levá-lo a uma outra mulher, as memórias do narrador são esquivas. O que recorda de cada uma destas mulheres é preciso no detalhe de certas conversas e na convocação das sensações que acredita ter experimentado na sua companhia, mas não tanto no efeito que tiveram na estrutura, cronológica e emocional, da sua vida. Na verdade, se há algo que define de modo cabal a escrita do autor é o assumir de que uma estrutura cronológica e emocional pode ser funcional numa história que se queira contar, aos outros ou a nós mesmos, mas dificilmente o será numa vida.

Modiano não podia ser mais clássico no que toca ao gesto de colocar a escrita ao serviço da verosimilhança, cumprindo a velha regra aristotélica com devoção, só que esse gesto não procura a verosimilhança dos acontecimentos, dos factos encadeados ou da suave sucessão de dias de uma vida, mas antes o embate com a memória, por um lado, e o modo desordenado como nos relacionamos simultaneamente com o que nos rodeia e o que guardamos do que nos rodeia, por outro. Lembranças Adormecidas é um romance cuja narrativa parece nebulosa, um fragmento perdido de uma história que adivinhamos mais longa, mas cujos significados se ampliam no regresso a outros romances do autor (de onde, aliás, se recuperam algumas personagens, como Madeleine Péraud ou Mireille Ourousov). Mais do que história encerrada ou exercício conclusivo, o novo livro do Nobel francês é, na verdade, uma peça que se acrescenta à sua obra contínua, engrandecendo-a no seu gesto de Sísifo que é o de reconstruir permanentemente o passado, e talvez só adquira um sentido de leitura mais pleno quando inserido nessa obra.

Uma nota final para o que parece ser um erro editorial e que, podendo baralhar quem procure o livro nas livrarias, acaba por reflectir a dualidade do que aqui se narra relativamente à sua capacidade de representar os factos acontecidos ou encená-los: na capa e na lombada, este livro intitula-se Lembranças Adormecidas. Na cabeça de cada página e na ficha técnica, o seu título é Memórias Adormecidas. Terá sido, provavelmente, uma indecisão editorial ou de tradução que, depois de resolvida, deixou escapar esta incoerência, mas não deixa de ser curioso que o termo lembranças remeta para uma ideia de objectividade, de verdade – a possível, quando se trata de voltar ao que aconteceu –, e o termo memórias ecoe já uma outra semântica, herdeira do século XX e de todas as revoluções que se deram no big bang que misturou literatura, psicanálise e a brutal incerteza da modernidade, e onde a ficção é um componente essencial daquilo a que podemos aceder quando tentamos contar o nosso próprio passado.