Cerca de 70 mil metros cúbicos de água drenados, 651 operacionais, apoiados por 402 viaturas, envolvidos e cinco vítimas mortais resgatadas. Ao fim de 13 dias, a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) deu por concluída a operação de resgate na pedreira de mármore em Borba atingida pela derrocada de um troço da estrada municipal 255 e, num comunicado emitido este domingo, faz o balanço final dos 13 dias, destacando a “elevada perigosidade” das operações e “o facto de não se ter registado qualquer acidente de trabalho”.

Durante quase duas semanas, foram drenados cerca de 70 mil metros cúbicos de “águas barrentas entre os poços das duas minas e o exterior”. Três bombas chegaram a estar instaladas nas pedreiras: retiraram cerca de 770 metros cúbicos de água, o que fez diminuir significativamente o nível, apesar da chuva que caiu em vários dias das operações. A ANPC destaca, por isso, a “grande complexidade e exigência técnica dos trabalhos executados”.

No mesmo comunicado, é apontada a “elevada perigosidade” do ambiente em que as operações desenrolaram, “em virtude quer do risco iminente de novas derrocadas, quer devido às condições meteorológicas adversas que se fizeram sentir na região ao longo de toda a ação”. As operações foram atrasadas e interrompidas várias vezes devido à instabilidade dos terrenos, que não permitiram a entrada dos operacionais no terreno. Só no dia seguinte à derrocada foi possível que alguns elementos descessem à pedreira — e depois de uma avaliação de um técnico do Laboratório Nacional de Engenharia Civil –, uma vez que, nessa madrugada, ainda se registavam deslizamentos de terras no local.

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Por isso, a ANPC sublinha também “o facto de não se ter registado qualquer acidente de trabalho durante a operação de proteção civil, fruto quer da prioridade, atribuída pelo comando, quer do respeito escrupuloso, observado pelos operacionais, das medidas de segurança, em especial por parte dos que participaram nas arriscadas manobras de resgate executadas no fundo da pedreira, as quais contaram com o acompanhamento permanente das equipas médicas do INEM”.

No teatro de operações estiveram empenhados 651 operacionais e 402 veículos, da ANPC, dos agentes de proteção civil (APC) e de várias entidades públicas e privadas, comandados pelo Comandante Operacional Distrital de Évora, José Ribeiro”, lê-se no comunicado emitido este domingo.

No comunicado, a ANPC enaltece o “elevado grau de resiliência”, a “especialização dos meios operacionais” e a “cooperação entre todos”. E aproveita ainda para realçar a “utilidade operacional que o sofisticado equipamento tecnológico empregue no reconhecimento e busca em ambiente aquático veio conferir a toda a operação”, destacando os equipamentos disponibilizados pela Marinha, pelo Instituto Hidrográfico e pelo INESC-TEC e os “equipamentos de monitorização em tempo real da escarpa (delsar e drones)”, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e da Engenharia Militar.

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É ainda destacado o “envolvimento ativo e empenhado do subsistema de proteção civil municipal” e “o espírito voluntário e solidário das múltiplas entidades, empresas e particulares, que apoiaram, sob as mais diversas formas, a logística de toda a operação enquanto a mesma durou”.

As operações terminaram no sábado com o resgate da última vítima mortal: Fortunato, de 85 anos. Já ao final da manhã de sexta-feira tinha sido retirada uma viatura que se encontrava submersa. Lá dentro encontravam-se os corpos de duas vítimas: os dois cunhados, José Rocha, conhecido como “Zé Algarvio”, de 53 anos, e Carlos Andrade, de 37, ambos residentes em Bencatel, no concelho de Vila Viçosa.  O corpo de João Xavier, de 58 anos, foi retirado no passado sábado. O de Gualdino Pita, de 49, foi encontrado na retroescavadora e retirado logo no dia seguinte à derrocada.

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