Na segunda semifinal do Festival da Canção de este ano, NBC foi o concorrente mais votado pelo público e Surma a mais votada pelo júri, mas também o trio Madrepaz (intérprete), Frankie Chavez (compositor) e Pedro Puppe (letrista) e a cantora Mariana Bragada apuraram-se para a final. Com sonoridades distintas e experiências diferentes (eles lançaram dois discos nos últimos dois anos, ela prepara-se para lançar o primeiro EP) mas a mesma vontade de se afirmar na música portuguesa, conversaram isoladamente com o Observador e concordaram num ponto: darem-se a conhecer na RTP1 ao público português foi uma vitória tão grande ou maior quanto passarem à final do concurso.

Madrepaz: “A nossa banda preferida? Os Beatles”

Os Madrepaz, convidados por sugestão de Pedro Puppe — que escreveu a letra para o tema de Frankie Chavez “Mudar o Mundo” –, dizem que fazem “shamanic pop”, ou pop xamânica. “Como não nos víamos numa caixa criámos a nossa”, referem. São “uma banda indie no sentido literal”, porque são eles que “fazem tudo”, e “não estavam à espera” de serem os segundos mais votados pelo público, nesta segunda semifinal, logo a seguir a NBC.

Fãs incondicionais dos Beatles — “é a nossa banda preferida, o nosso modelo, a música que em nos inspiramos” — mas também de “Zeca Afonso, José Mário Branco e Fausto”, os Madrepaz arriscam dizer que “se calhar as pessoas reveem-se na mistura que fazemos dessas inspirações todas”.

O tema, apesar de não ter sido composto nem escrito por eles, apresenta-os devidamente: foram ouvir a canção para ver se “vibrava com o que fazemos, com a nossa estética, se era de facto compatível” e isso confirmou-se tudo, daí aceitarem o convite para cantar “Mundo a Mudar”. “Sabemos que é assim que conseguimos defender as coisas, especialmente uma canção que não fomos nós que escrevemos. O Frankie Chavez e o Pedro Puppe também estiveram sempre abertos a ajustes para nos sentirmos confortáveis, porque sabíamos que só estando confortáveis conseguiríamos defender a canção”, apontam.

Se a aceitação foi inesperada (até à maquilhagem inusitada e ao cenário bucólico e montanhoso que montam em palco), também foi bem-vinda: “Se há pessoas que não conheciam os Madrepaz e passaram a conhecer, é uma vitória para nós“. Israel e a Eurovisão ficam mais tarde, “é uma coisa que vem depois da nossa performacne em palco”, por enquanto estão concentrados em “fazer um bom trabalho, sentirmo-nos confortáveis com a canção que estamos a interpretar e é isso que vamos levar à final em Portimão: a nossa identidade”.

Se formos escolhidos para ir a Israel, iremos com todo o gosto interpretar a nossa canção e representar o nosso país, mas o objetivo é e será sempre mostrarmo-nos de forma coerente com a nossa pele, passarmos a nossa mensagem enquanto Madrepaz e intérpretes da canção do Frankie Chavez e do Pedro Puppe”, dizem.

A jovem banda nacional aproveitou para contar uma história curiosa ao Observador: antes de serem convidados para serem intérpretes de uma canção no Festival da Canção, tentaram “impingir” um tema à organização: “A canção número oito do nosso segundo disco, Bonanza, chama-se ‘Já Agora Aproveito’. Antes de começarmos a ver o que saía, dissemos: vamos fazer um tema para o Festival da Canção. Saiu essa. Tentámos impingi-la, só que não entrou. Tivemos de a editar e incluímo-la no disco, que saiu a 30 de outubro. Dois dias depois apareceu este convite via Pedro Puppe. Respondemos como responderíamos agora: é uma honra para nós participar no Festival da Canção”.

Mariana Bragada: “Isto é um caminho longo e de altos e baixos”

Mariana Bragada é compositora e intérprete de uma das oito canções finalistas do Festival da Canção (@ João Pedro Correia)

Nasceu em 1997 em Bragança, vive no Porto e chegou ao Festival da Canção pela sua participação no programa “Masterclass”, da Antena 1. Com um percurso musical ainda em fase algo inicial, a cantora e compositora ficou “feliz” com a possibilidade de escrever um tema para o Festival da Canção e poder interpretá-lo, mas assume que “foi um desafio grande, que não aceitei de ânimo leve”. “Isto é um caminho longo e de altos e baixos, de muitas oportunidades e muito trabalho”.

A minha expectativa é mesmo partilhar este meu trabalho com as pessoas. Sem dúvida que isto pode abrir portas e permitir-me partilhar a minha música com mais gente do que é habitual”, refere.

Estando a trabalhar num primeiro EP (ou mini-álbum) com o seu projeto musical Meta, “todo em português”, Mariana Bragada adianta ser fã de “world music, jazz, soul e R&B”. Diz que a sua identidade musical está “em constante mutação” e que o tema “Mar Doce”, que a levou à final do Festival da Canção, “não significa que mais tarde não possa fazer coisas de outro género musical, até mais eletrónicas”.

Como seria vencer o concurso e ir representar Portugal à Eurovisão em Israel? Ela responde: “Sinceramente não tenho pensado sobre isso, dou um passo de cada vez. Não posso sonhar muito longe, tenho de andar com os pés na terra — mas seria uma oportunidade incrível”.