O atletismo é das poucas questões de fundo, neste caso literalmente, que foi durante muito tempo o grande orgulho de todos os portugueses. Era nessa especialidade, com os campeões olímpicos Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro como principais baluartes, que a bandeira nacional surgia várias vezes nas principais competições internacionais. Uma, duas, três vezes. Depois, as coisas começaram a mudar. Nem foi tanto o ganhar mais ou menos mas onde se ganhava. O fundo perdeu força, surgiram novos horizontes na velocidade (Francis Obikwelu), no meio fundo (Rui Silva), nas disciplinas técnicas (Naide Gomes). E é ainda neste último patamar que nos encontramos, em especial no triplo salto – e na marcha, mais recentemente.

Os anos de 2007 e 2008 foram as grandes marcas nessa transição, com os títulos mundial e olímpico de Nelson Évora. A partir de 2013, ano em que Sara Moreira ganhou o ouro nos 3.000 metros, Portugal conseguiu apenas medalhas em Europeus de Pista Coberta no triplo, com o ouro de Nelson em 2015 e 2017 e a prata de Patrícia Mamona também há dois anos. Claro que nos Europeus ao Ar Livre, por exemplo, ainda houve também os pódios de Sara Moreira, Jéssica Augusto e Tsanko Arnaudov em 2016 mas, mais uma vez, a comitiva nacional surgia em Glasgow de olhos postos nos concursos do triplo salto (apesar do excelente quarto lugar de Francisco Belo no peso). E o apuramento aumentou ainda mais as expetativas.

Patrícia Mamona, que há três semanas bateu o recorde nacional por duas vezes no meeting de Madrid (primeiro a 14,38, depois a 14,44), conseguiu apenas a qualificação no último salto, ficando nos 14,11. Antes, Susana Costa, única atleta presente na Escócia que não pertence nem ao Sporting nem ao Benfica (Academia Fernanda Ribeiro), já tinha batido o recorde pessoal e conseguido a passagem direta com 14,28, marca apenas superada pela ucraniana Olha Saladukha (14,40). Portugal voltava a ter duas atletas na final, que ficava ainda mais aberta sem a presença na competição da alemã Kristin Gierisch, num domingo que teria de manhã as grandes decisões no setor feminino antes do masculino, agendado para esta noite (19h35).

E a final começou com fasquia alta. Olha Saladukha teve uma primeira tentativa nula mas que daria uma grande marca. Logo a seguir, a grega Paraskevi Papachristou colocou a fasquia bem alta, aproveitando uma chamada quase perfeita para bater o seu recorde pessoal e passar para a frente do concurso com 14,50. Uma marca que, ao segundo salto, a ucraniana ameaçou com 14,47 (registo que faria… por três vezes). Pelo meio, Patrícia Mamona teve um grande início com 14,43, apenas a um centímetro do melhor registo pessoal e nacional. No entanto, e para pelo menos igualar a prata conseguida há dois anos em Belgrado, a atleta do Sporting necessitava de voltar a bater o recorde de Portugal. E ainda havia o perigo da espanhola Ana Peleteiro, jovem espanhola que ganhou o bronze nos últimos Mundiais de Pista Coberta e que tinha como marca do ano 14,51. Já Susana Costa iniciou a final com um nulo mas não demoraria a dar nas vistas… e com a mesma marca de Patrícia Mamona.

A atleta da Academia Fernanda Ribeiro igualou a compatriota na segunda tentativa com 14,43, naquele que foi o melhor registo pessoal de Susana Costa a um centímetro do recorde nacional. Nessa altura, ambas estavam no pódio (porque a segunda marca de ambas era ainda um salto nulo); pouco depois, ambas no quarto lugar – Peleteiro estabeleceu a sua melhor marca do ano e passou para a frente do concurso com 14,56, “obrigando” assim Patrícia Mamona e Susana Costa a baterem o recorde nacional para conseguirem chegar ainda às medalhas numa final com marcas bem acima do que tinha acontecido em Belgrado em 2017 (Kristin Gierisch ganhou o ouro com 14,37, Mamona assegurou a prata com 14,32, Papachristou foi bronze com 14,24).

Patrícia Mamona voltou a ter um bom salto na quarta tentativa, a 14,29. Susana Costa, a arriscar mais, teve um salto nulo. Mas a grande figura desta manhã era mesmo Ana Peleteiro que, apesar de já estar na frente bem destacada, conseguiu um fabuloso salto a 14,73 que estabeleceu um novo recorde espanhol e arrumou por completo a questão da medalha de ouro. E nada mais viria a mudar até ao final, apesar das marcas que noutro contexto seriam muito positivas para Patrícia (14,39 e 14,21) e Susana (14,21 e 14,10) mas que não evitaram o quarto e quinto lugares nesta final do triplo salto dos Europeus de Pista Coberta.