Acidentes e Desastres

“A Notre Dame como nós a conhecíamos desapareceu”, afirma vereador português da Câmara de Paris

Hermano Sanches Ruivo diz ao Observador que os trabalhos de reconstrução da catedral vão durar "décadas". O lusodescendente comenta ainda as doações anunciadas para financiar a reconstrução.

Hermano Sanches Ruivo, lusodescendente, é vereador na Câmara Municipal de Paris

AFP/Getty Images

Os parisienses acordaram esta terça-feira com um sentimento de “tristeza”, menos de 24 horas depois de ter deflagrado um incêndio de grandes proporções na catedral de Notre-Dame, em Paris, um dos monumentos mais conhecidos no mundo, com 800 anos de história.

“A catedral não é apenas um monumento parisiense, é um monumento mundial“. É desta forma que Hermano Sanches Ruivo, vereador na Câmara Municipal de Paris, descreve a Notre-Dame. Enquanto conversa ao telefone com o Observador, faz uma confissão ao mesmo tempo que caminha perto da catedral: “Estou a passar do outro lado do sino e estou a ver a Notre-Dame… Dá-me vontade de chorar. É algo que nos toca… Já não há telhado, já saíram os andaimes, a flecha desapareceu.”

[Cinzas, silêncio e um enorme buraco no teto. O que resta no interior de Notre Dame]

Durante a madrugada desta terça-feira, os bombeiros deram o fogo como quase totalmente extinto, depois de as chamas terem deixado “todo o telhado destruído” ou uma parte da abóbada “derrubada”, segundo avançaram o secretário de Estado do Interior francês, Laurent Nuñez, e o ministro da Cultura, Franck Riester. Já o topo do edifício foi consumido em dois terços.

Quando soube que o incêndio tinha começado a deflagrar, na tarde desta segunda-feira, o lusodescendente e vereador na autarquia parisense estava perto do local. “A nossa Câmara de Paris está a 150 metros da Notre-Dame”. Rapidamente se deslocou até ao local, onde permaneceu — onde ocupou “parte do tempo a responder a entrevistas” — até já de madrugada, até “à uma da manhã”. A primeira preocupação foi evacuar a catedral, “que é um sítio que está sempre ou quase sempre aberto, e naquela hora ainda havia turistas dentro da Notre-Dame”, contou ao Observador. “Quem já não estava no edifício eram os trabalhadores do restauro”.

Sobre as causas do incêndio — que terá sido “acidental”, segundo os resultados da investigação preliminar –, Hermano Sanches Ruivo diz que é “impossível” responder para já a essa questão, mas descarta que o incêndio tenha tido origem num ato terrorista. Afirma que haveria pistas no local, caso tivesse acontecido um atentado, “algo como uma explosão”, o que não terá acontecido. Por isso, aponta para as obras que estavam a decorrer na catedral como a possível causa da tragédia. “O que infelizmente acontece em obras são curtos circuitos… A mistura de materiais… O mais provável é ter sido um acidente. Por ter começado no topo da catedral, pode ter alguma ligação àquelas obras.”

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Trabalhos de reconstrução vão durar “décadas”

“Não tenho a mínima dúvida de que a Notre-Dame de Paris vai ser construída plenamente”, adianta o vereador da Câmara Municipal de Paris, que explica que a catedral já ardeu noutras alturas. “Este telhado de madeira tinha madeira do século XII e do século XIII, mas as últimas obras consequentes aconteceram no século XIX”. A questão aqui, explica Hermano Sanches Ruivo, é em que termos vai assentar a reconstrução. “Por exemplo, será que vamos manter a flecha que caiu ou não? Milhares de pessoas viram a Notre-Dame com a flecha, e não imaginam que antigamente não existia… É provável que ela apareça novamente na construção”.

Mas a certeza — das poucas que para já existem em relação à tragédia — é uma: “A Notre-Dame de Paris não é apenas uma igreja, não é apenas pariense. Vai ser reconstruída. Vai ter pinturas, vai ter estátuas, vai ter telas, vai ter acessos”. Porém, Hermano Sanches Ruivo reconhece que “agora, a Notre-Dame na forma como nós a conhecíamos até ao dia 15 de abril de 2019, essa desapareceu. Virá outra Notre-Dame e essa vai sobreviver.”

O último trabalho de recuperação da catedral pode demorar “décadas”. “Pelo menos duas parece-me mais do que evidente. Agora três, quatro décadas… Não sei”, admite o lusodescendente, que adianta ao Observador as principais prioridades a curto-prazo. “Há uma preocupação aqui que é dar acessos à esplanada, para as pessoas continuarem a viver. Em todos os momentos difíceis de Paris — como os ‘atentados do Bataclan’ — houve essa preocupação. Portanto, a ideia é a de que esses espaços de vida em volta da Notre-Dame voltem muito rapidamente a existir.” A outra prioridade são os outros acessos: “Porque não vamos ter menos turistas a passear à volta da catedral”.

Sobre a forma como os habitantes de Paris estão a reagir à mais recente tragédia que abalou a capital francesa, Hermano Sanches Ruivo destaca a “resiliência” do povo, afirmando que “o barco pode mexer ou abanar muito mas nunca vai ao fundo“. Admite que os parienses estão “tristes” e que vão colocar perguntas sobre a tragédia. “Temos de explicar o que aconteceu, os parienses são parisenses, sabem que há sempre um dia a seguir… E que há esta preocupação em que Paris se mantenha Paris”.

300 milhões doados por milionários para a reconstrução, mas “e os outros monumentos?”

Depois da tragédia que motivou palavras de pesar por parte de líderes europeus e também mundiais, começam a surgir as primeiras doações públicas para financiamento dos trabalhos de recuperação e restauro da catedral.

É o caso de milionários que anunciaram que vão doar 300 milhões de euros para reconstruir a Notre-Dame. Trata-se do grupo de marcas de luxo LVMH e a família Arnault, que vão financiar o fundo com 200 milhões de euros; também a família Pinault, dona do grupo de luxo Kering (o segundo grupo mundial no setor do luxo, que detém marcas como a Gucci e a Yves Saint Laurent), anunciou uma doação de 100 milhões de euros.

Para Hermano Sanches Ruivo, são “boas notícias”, mas o português é crítico quanto ao sentido de oportunidade das doações. “A infelicidade é compreender que é sempre mais fácil conseguir o dinheiro depois da catástrofe do que antes”. O vereador da autarquia da capital francesa conta ao Observador que antes eram precisos 150 milhões de euros, que “muito dificilmente se conseguiram”, e adianta agora que o objetivo será agora coordenar todas essas doações. “Vão ser centenas de milhões — provavelmente vamos chegar ao mil milhão — se contabilizarmos tudo o que vai ser necessário fazer” a nível de obras na catedral.

“É uma boa notícia… As duas famílias mais ricas francesas já têm confirmados 200 milhões e 100 milhões… Só prova que não teremos dificuldades para além do razoável, penso eu, na questão do financiamento“. Porém, o lusodescendente coloca outras questões, que considera pertinentes. “E as outras obras? E os outros monumentos? Porque esse é que é o fundo do problema”, atira. “O governo ou as câmaras têm a manutenção das igrejas, no dia a dia temos a manutenção das escolas… Restaurámos dois terços da igreja do Moulin Rouge, e ficou o sino por fazer… Agora é que o vamos fazer, quatro anos depois da primeira intervenção”. “Agora é óbvio que depois do drama, há um apelo ao qual as pessoas respondem”.

Hermano Sanches Ruivo adianta ao Observador que a Câmara Municipal de Paris vai apresentar na próxima assembleia municipal o “plano de apoio a esta tragédia”. Explica que é preciso fazer a manutenção de vários acessos e monitorizar as obras e lembra que a Notre-Dame é um monumento nacional, que pertence ao governo e não à câmara. “Por isso aqui temos também de ver como é coordenado com as autoridades nacionais”. O vereador e lusodescente sublinha que a investigação é “absolutamente indispensável” e que já estão a ser feitas as “avaliações nos desgastes da própria arquitetura do edifício”.

Quanto ao valor dos prejuízos deixados depois de a catedral, Hermano Sanches Ruivo afirma que ainda não são conhecidos, mas que estarão em causa “milhões de milhões de euros” e que esses valores serão conhecidos nos próximos tempos. Uma coisa é certa, reforça o vereador da Câmara Municipal de Paris ao Observador: “Nós vamos prestar homenagem à Notre-Dame, que é a Notre-Dame de todos. Não é apenas dos católicos. É um centro de culto, de cultura e de convivência.”

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