Rádio Observador

Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo foi ao Templo dos Lamas “patrióticos” falar de política e defender liberdade religiosa

Começou a visita de Estado à China, onde Marcelo se encontrou com o primeiro-ministro e com o Presidente chinês. Pelo meio visitou um templo budista para defender a liberdade individual e de religião.

LUSA

Enviado Especial a Pequim

No dia em que se encontrou com o primeiro-ministro chinês e horas antes do encontro com o Presidente Xi JinPing, Marcelo escolheu a visita a um templo budista para falar do modelo político chinês e de como isso se casa com a liberdade individual de cada e com a liberdade religiosa. Tudo em ambiente zen, claro, como pedia o cenário envolvente e como convém a quem não veio à China para afrontar diretamente o interlocutor.

Quando chegou ao Templo dos Lamas, o maior templo do budismo em Pequim, o Presidente da República até trazia credenciais: não só tem uma filha interessada no tema, como até já assistiu ao começo do novo ano tibetano numa cerimónia budista, como lembrou que na tomada de posse promoveu um encontro “filosófico e religioso” de várias religiões.

Marcelo foi ao famoso Templo dos Lamas

O monge que o acompanhou ficou satisfeito com a afirmação, mas Marcelo deixou um aviso: “Tenho pensado que há muitos pontos em comum entre o budismo e o cristianismo, mas também há diferenças. O budismo chega aos outros depois da purificação pessoal, enquanto o cristianismo chega à purificação pessoal através dos outros”.

E o Presidente, que se assumiu cristão, claramente pendia mais para a última. Mas nunca se sabe: “Venho aqui com um espírito ecuménico para ouvir contar uma história, uma tradição tão importante quer na China, quer para a humanidade”.

Entre os vários pavilhões que foi visitando, sempre com a explicação do guia que se tornou monge e pretende ficar no templo até ao fim dos seus dias, Marcelo passou pela porta da Harmonia, passou pelo do Buda da Vida Longa, pelas salas da filosofia budista, da medicina, o esoterismo e a matemática. O percurso que um aprendiz de Buda deve fazer no seu caminho para o nirvana.

Mas o Presidente queria ouvir a tal história. E foi fazendo perguntas: há alguma hierarquia entre lamas ou há igualdade?
Qualquer ser humano pode atingir o Nirvana e, portanto, aspirar a ser Buda? A resposta é sim, mas com um preço: “Só tirando as preocupações e os desejos que temos como humanos é que podemos chegar ao Nirvana e tornar-nos Buda. É um método específico, exige muito empenho e muito estudo, mas qualquer pessoa pode chegar lá.”.

Marcelo viu ali uma filosofia mais centrada no indivíduo e menos no coletivo. E foi atrás. Então e a comunidade, onde fica nesse processo?  A reposta não o satisfez: “É claro que as outras pessoas também podem contribuir, mas o mais importante para essa evolução é o coração individual”. E o Presidente voltou à carga:

Nesse percurso, de purificação pessoal, a liberdade de cada um é fundamental. Como é que se liga essa liberdade com o objetivo da unificação política global, unificação do povo, neste caso, unificação chinesa?”, perguntou Marcelo.

Era a primeira referência direta ao regime. Num modelo construído com base no interesse do “coletivo” em detrimento do “individual”, como é que o budismo se enquadra nos planos de implementação do modelo chinês em várias áreas da vida em sociedade, incluindo, na religião? O monge budista que ouvia as perguntas, nunca deixou Marcelo sem resposta:

Só através da purificação espiritual é que se pode chegar à unificação do estado e à unificação política. Existe um método especifico para estudarmos e purificarmos a nossa alma, só assim podemos atingir o bem estar da nossa família, da população, do governo, do estado e de todo o mundo”.

Marcelo voltaria a insistir na política, sobretudo num dia em que estavam agendados encontros ao mais alto nível na China. De manhã houve a tradicional deposição da coroa de flores na Praça de Tiananmen e depois um encontro de meia hora com o primeiro-ministro Li Keqiang, que definiu o avanço do relacionamento luso-chinês “sem sobressaltos” e afirmou que a China está disposta a reforçar a cooperação bilateral com Portugal “em todos os setores”.

Antes da visita ao Templo encontrou-se com o Primeiro-Ministro chinês

Na residência oficial Diaoyutai, em Pequim, Keqiang acrescentou ainda que “a China e Portugal são importantes parceiros de cooperação e temos salvaguardado o multilateralismo e o comércio livre. Acredito que a sua visita vai injetar um novo ímpeto à relação bilateral”.

Aos jornalistas Marcelo contava depois que mais passos positivos vão ser dados com a passagem da relação dos dois países de um parceira estratégica para o estatuto de diálogo político permanente”, ideia já adiantada pelo Presidente no arranque desta visita à China.

Os temas mais mundanos não ficaram apenas nas reuniões entre políticos. Mesmo no Templo dos Lamas, por entre vários símbolos ascetas, havia também sinais exteriores do mundo cá de fora. Por exemplo, uma enorme placa do World Guiness of Records à entrada do Pavilhão dos dez mil budas, a certificar que lá dentro estava a maior estátua do mundo esculpida a partir de uma só árvore de sândalo branco. 26 metros de altura de uma estátua de Maitreya, oferecida pelo sétimo Dalai Lama ao imperador Qiaonlong.

A estátua recordista do mundo de Maitreya

Essa foi uma das várias vezes que Marcelo ouviu falar do Dalai Lama, facto que registou. O atual esteve neste templo, mas há 65 anos. Passam aliás 60 anos sobre o início da revolta tibetana contra Pequim, onde o Exército Popular de Libertação da China levou a melhor (e levou também à fuga do Dalai Lama para o norte da índia, onde continua até hoje).

Maitreya representa o buda do futuro, e o Presidente português quis também falar sobre isso. Como será o futuro no modelo ambicionado pela China. Ao contrário do que se possa pensar, o regime não impede propriamente o culto religioso. Mas também não aprecia que haja nomeação de hierarquias que não passem por prévia aprovação política. Escolher quem manda, para ter a certeza de que não há “radicalismos”. Talvez porque acredita em destino (ou porque foi precisamente um desses líderes que teve visto prévio antes de assumir funções), o monge budista anfitrião parecia já estar à espera da pergunta. E esclareceu: “Em primeiro lugar temos de ser patriotas, patriotas com o estado, patriotas com o país e depois só aí é que podemos ser bons budistas. O nosso objetivo é o mesmo: lutar para o futuro da China, para o futuro da nossa Pátria”.

Marcelo ouviu a história que tinha pedido. Invejou a felicidade do anfitrião e até o processo de purificação da alma quando aplicado às questões terrenas: “É um processo interessante, então na vida política era muito conveniente: deixar para trás os problemas para ser feliz”.

Augusto Santos Silva: “Esta foi a vitória do cristianismo comunitário, para não dizer socialista, sobre o budismo individualista”.

Mas não pareceu ter mudado as ideias que trazia quando começou a visita. “Para nós portugueses é uma evidência que está na Constituição. Pode ser-se patriota e respeitar-se a liberdade de religião”.

Sempre ao lado, na habitual postura Zen, o ministro dos Negócios Estrangeiros voltava a rematar (como tem feito quase todos os dias): “Esta foi a vitória do cristianismo comunitário, para não dizer socialista, sobre o budismo individualista.” Marcelo não respondeu, estava a acender incenso e a desejar prosperidade para Portugal

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: pbenevides@observador.pt
Política

Portugal: um país anestesiado

José Pinto
193

A um país anestesiado basta acenar com o Simplex, versão revisitada. Ninguém vai questionar. A anestesia é de efeito prolongado. O problema é se o país entra em coma.

Política

Bem-vindo Donald Trump, António Costa merece!

Gabriel Mithá Ribeiro
154

A direita em Portugal, e o PSD muito em particular, nunca foram capazes de afirmar um discurso sociológico autónomo. CDS-PP e PSD insistem em nem sequer o tentar, mesmo quando se aproximam eleições.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)