Incêndios

Bombeiros e INEM mobilizados para novela da SIC pelo “interesse informativo”

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Proteção Civil disponibilizou meios para recriar fogos de outubro de 2017, mas garante que apenas estão em causa "reservas". Liga dos Bombeiros pede demissões por situação "vergonhosa".

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Um forte contingente teve ordens da Proteção Civil para participar nas filmagens de “Flor de sal”, uma novela da SIC, de acordo com o Jornal de Notícias. Participaram todas as corporações de bombeiros de Leiria, o INEM, os militares do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro, os “canarinhos” da Força Especial de Bombeiros e o SIRESP.

A SP Televisão — que há cerca de um mês convidou a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) para participar na novela —, quis recriar os incêndios de outubro na região Centro, que fez 49 mortos e 70 feridos, provocando ainda a destruição de 1.500 casas, 500 empresas e de quase todo o Pinhal de Leiria.

O Jornal de Notícias conta que as filmagens incluíram cenários da fuga em pânico de milhares de banhistas das praias da região e a instalação de uma cópia do posto de comando no local exato onde esteve o verdadeiro há dois anos.

Questionado pelo jornal, o responsável pelo Comando Distrital de Operações de Socorro de Leiria, Carlos Guerra, descartou responsabilidade direta, garantindo que houve autorizações do comando nacional. O JN diz que não foi possível obter esclarecimentos da ANEPC até ao fecho da edição.

Proteção Civil diz que “nunca esteve em causa o socorro à população”

Em comunicado, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil garante que a maioria das forças disponibilizadas correspondia a “meios de apoio e não de combate direto”, não tendo sido “retirados dos dispositivos de resposta operacional” pertencendo a “meios de reserva”.

Mais, esclarece que “em nenhum momento esteve em causa o socorro à população“, tendo sido acordada com a SP Televisão a desmobilização dos operacionais presentes “em caso de acionamento de algum tipo de alerta preventivo, ou em caso de ocorrência real”.

Justificando a colaboração, a ANEPC sublinha o “interesse informativo, da construção de mensagens de informação pública, que, no conjunto, poderão trazer um ganho expressivo no que respeita à sensibilização do público em geral para a matéria dos incêndios florestais”.

Liga dos Bombeiros Portugueses considera participação “uma vergonha”

“A participação está completamente fora de qualquer contexto daquilo que são as funções dos bombeiros e do INEM. É no mínimo estranho, desapropriado e desaconselhável“, afirma ao Observador o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, que só terá sido informado do processo pela comunicação social.

A colaboração da ANEPC na novela “Flor de Sal” representa, para Jaime Marta Soares, um “caminho errado”, reflexo da “anarquia” e “falta de ética” que “começa a borbulhar” dentro da organização. “É estragar e desaproveitar o tempo dos bombeiros que devia ser utilizado para corrigir erros, estudar o que aconteceu em 2017 cientificamente, simular o teatro de operações e melhorar o trabalho futuro”, critica o dirigente, que considera a situação particularmente gravosa por se dar tão perto do verão, período crítico nos incêndios.

“É de uma incompetência e de uma falta de rigor permitir isto”, afirma Marta Soares, que pede a responsabilização de quem decidiu a favor da participação: “A Proteção Civil que se retrate. O presidente da ANEPC que se retrate. A estrutura operacional [da ANEPC] que se retrate. Porque o que eles fizeram é uma vergonha“.

A Liga de Bombeiros Portugueses deverá, de resto, questionar o Secretário de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves, relativamente ao enquadramento legal e remuneratório do caso, prometendo “não deixar este assunto morrer”.

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