A notícia surgiu na televisão espanhola na passada quinta-feira, saltou para as capas dos desportivos no dia seguinte e nos corredores do Santiago Bernabéu já se sabia há duas semanas: Sergio Ramos, capitão do Real Madrid e uma das figuras maiores do clube nos últimos 14 anos, estava a ponderar mudar de ares. O motivo, esse, era quase tão sumarento quanto a manchete. O central espanhol estava desiludido e magoado com Florentino Pérez, a relação entre presidente e jogador não havia recuperado desde que os dois discutiram no balneário depois de os merengues serem eliminados da Liga dos Campeões pelo Ajax e Ramos tinha propostas da China, da Premier League e até da Juventus.

De rumor passou a certeza quando o próprio Florentino Pérez confirmou em declarações ao programa “El Transistor” da Onda Cero que o central lhe pediu para sair a custo zero. “Veio ter comigo ao meu escritório e disse que tinha uma proposta muito importante da China mas que não podiam pagar a transferência. E eu disse que não podia ser. É impossível que deixemos sair o nosso capitão a custo zero, seria um precedente perigoso”, garantiu o presidente merengue. Uma semana depois – uma semana de especulação, possibilidades e hipóteses –, o Real Madrid anunciou que Sergio Ramos iria comparecer numa conferência de imprensa no Bernabéu para dar todas os esclarecimentos necessários. E foi exatamente isso que o capitão referiu assim que entrou na sala de imprensa do estádio.

“Estou disposto a responder a todas as dúvidas que tenham para deixar tudo em claro. Quero responder a toda a gente e não quero que ninguém fique com dúvidas”, afirmou o jogador de 33 anos antes ainda de dar a palavra aos jornalistas. Em seguida, Sergio Ramos garantiu que não vai deixar o Real Madrid e afastou – ou, pelo menos, tentou afastar – a ideia de que a relação com Florentino Pérez está deteriorada. “Quero deixar tudo muito claro. Especulou-se sobre o meu futuro e a verdade é que quero retirar-me aqui, quero passar o resto do meu contrato aqui, quero deixar qualquer má temporada no passado e gostaria de me despedir pela porta grande, a ganhar, como acho que mereço”, atirou o central, terminando com todas as dúvidas que ainda existiam até então.

Questionado sobre se teria deixado sair um jogador importante a custo zero se fosse o presidente, Sergio Ramos foi taxativo: “Teria renovado para a vida toda. Eu e o presidente temos uma relação de pai e filho e adoramo-nos muitíssimo. Não quero sair do Real Madrid e sempre disse que o meu sonho é retirar-me aqui. Sempre disse ao presidente que nunca iria sair, estou disposto a jogar de graça”, acrescentou o espanhol. Ainda assim, mais à frente, o capitão merengue confirmou que existe uma proposta milionária da China e que olhou para essa oportunidade com os outros olhos porque um dos “dois pilares importantes” – os adeptos e o presidente – à volta dos quais rege a carreira falhou.

“Nunca falámos do tema económico, isto é sobre confiança e carinho emocional. Na minha vida existem dois pilares importantes que são os adeptos e o presidente. Algumas coisas geraram certas dúvidas, coisas que me magoaram. A oferta da China estava em cima da mesa e foi uma proposta que se tornou firme quando um desses pilares falhou. A relação não estava como eu acho que devia estar mas em momento algum pensei ir para a China – nem pedi para sair a custo zero como se disse. Vou casar daqui a 15 dias e quero abraçar Florentino de verdade, não a fingir para a fotografia. No dia em que for, vou pela porta grande e a ganhar”, garantiu o internacional espanhol.

A relação entre o presidente e o capitão é normalmente descrita como a de pai e filho

Ao longo da semana, a imprensa espanhola foi especulando sobre a eventual saída de Sergio Ramos – numa operação que seria semelhante à de Cristiano Ronaldo, ou seja, o Real Madrid aceitaria uma proposta se esta chegasse – e descrevendo o degradar da relação do jogador com o presidente. No domingo, o ABC recordava que o central foi a primeira contratação da primeira passagem de Florentino Pérez pela direção dos merengues, em 2005, e que na altura o jogador ex-Sevilha se tornou o jovem mais caro da história (aos 19 anos, custou 27 milhões aos cofres do Real). O jornal espanhol descrevia a relação entre os dois como a de pai e filho, ideia corroborada esta quinta-feira pelo próprio Sergio Ramos e sublinhada por Florentino na entrevista à Onda Cero, onde o presidente garantia que “gosta muito” do capitão e que fez “tudo aquilo que podia fazer por ele”.

Na conferência de imprensa, contudo, o central desmentiu Florentino quando disse que nunca colocou em causa a manutenção do Bernabéu e ainda comentou a reunião que manteve com o presidente há cerca de duas semanas, quando ambos discutiram a situação do jogador no Real Madrid e o desentendimento pós-eliminação da Champions. “A reunião foi muito normal, muito tranquila. Eu pus uma proposta que tinha em cima da mesa, já a tinha discutido com o meu treinador e fi-lo com o presidente. Depois falámos de certas coisas mas isso não quer dizer que eu vá embora nem que queira sair a custo zero. Foi uma reunião privada que depois saiu cá para fora. É preciso aclarar certas coisas para que não existam dúvidas. Eu e ele sabemos quando é que o feeling é total e quando é que não é. Com um olhar sobram palavras mas não vou contar a minha conversa com o presidente. Foi uma reconciliação como muitas que já tivemos”, concluiu Sergio Ramos, confirmando o arrufo com Florentino Pérez, garantindo as pazes feitas e assegurando a continuidade no Real Madrid.