Começou mais a sério no Albergaria, mudou-se para a Suécia para jogar no Linkoping, voltou a Portugal para brilhar no Sp. Braga e em 2017 saltou novamente para o estrangeiro, desta vez para o espanhol Levante. Este verão, Jéssica Silva vai rumar a França e ao Lyon: a melhor equipa do mundo de futebol feminino, a equipa que é tetracampeã europeia e a equipa onde atua a melhor jogadora do mundo, a norueguesa Ada Hegerberg. Além de tudo isto, Jéssica é uma de seis irmãos, nasceu e cresceu em Vila Nova de Milfontes mas andou à procura do sonho durante a adolescência e tornou-se uma das grandes promessas portuguesas no futebol feminino.

Jéssica Silva, a portuguesa da finta que percorreu o mundo, assina pelo tetracampeão europeu Lyon

Internacional portuguesa há 11 anos, a avançada de 24 anos esteve esta quinta-feira à conversa na Rádio Observador e falou sobre a infância, os primeiros tempos enquanto jogadora profissional, a família e as expectativas para o futuro. E ainda lembrou clubes, marcas e patrocinadores que é tempo de “olhar para o potencial da mulher”.

Jogar na melhor equipa do mundo é mesmo um grande sonho?
É um grande sonho. Trabalhei imenso para chegar às equipas de elite mas estava longe de pensar que ia chegar tão rápido à melhor equipa do mundo.

Vai jogar com a melhor jogadora do mundo, a Ada Hegerberg. Isto provoca ainda mais nervos?
Ela é a melhor jogadora do mundo mas, por exemplo, na minha posição eu tenho seis jogadoras que estão no top 10 das melhores jogadoras do mundo. Mas isso é uma motivação extra e eu quero muito aprender e crescer.

E a que posição é que joga?
Jogo a extremo esquerdo ou direito. Não importa. Sou destra mas quando tenho de cruzar com o esquerdo, cruzo com o esquerdo. Mas até costumava comentar com o meu treinador: eu gosto mais de jogar na esquerda mas acho que tenho mais sucesso quando jogo no lado direito. Não sei, não tenho rematado muito à baliza, tenho feito mais cruzamentos, ou seja, jogando do lado direito, faço os passes para as minhas colegas.

E quando é que soube que queria ser jogadora de futebol?
Foi um pouco tarde. Eu comecei a jogar futebol aos 14, 15 anos. Federada, porque jogava na escola ou na rua com os meus amigos e só aos 14 anos é que soube que existiam equipas de futebol feminino. Assim que tive oportunidade de ir para uma equipa, fui logo.

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E o pai, não serviu aí como inspiração?
O meu falecido pai jogava futebol e acho que isto nasceu um bocadinho comigo por causa dele. Acho que é algo que nasceu comigo. O que a minha mãe me diz é que eu desde sempre, desde pequena — e eu também sinto isso –, quando ia apanhar as laranjas ao quintal, jogava à bola. Sempre tive aquela vontade de ver só a bola e a minha mãe diz que eu já tinha jeito quando era pequena. Jogava com as laranjas porque na verdade nem sempre tive hipóteses ou possibilidades para ter uma bola de futebol em casa. Tinha de me arranjar de alguma forma e eram as laranjas. Ou ia buscar os jornais e fazia bolas com fita-cola.

Isto porque teve uma infância um pouco complicada, não é?
Sim, sim, é verdade, as coisas nunca foram muito fáceis e na verdade eu acho que foi o futebol que me deu alguma estabilidade a nível financeiro, a nível emocional. Deu-me equilíbrio e eu percebi aos 14 anos que tinha uma aptidão para jogar futebol e ser profissional e poder ajudar a minha família. Somos seis, tenho uma irmã gémea e mais quatro. Dois rapazes, que também jogam futebol, e acho que temos todos aptidão para fazer alguma coisa, ou ginástica ou dança…

Portanto, todos os teus irmãos fazem desporto?
A minha irmã gémea já não. Ela tinha muito jeito, acho que a minha irmã passou por tudo mas desistiu, quis sempre experimentar coisas diferentes e acabou por desistir do desporto. Mas eu sempre reconheci — e toda a gente reconhecia –, que ela tinha aptidão, era atleta. E depois os meus irmãos são todos muito ligados ao desporto. Tenho um irmão que joga no Sporting, o meu irmão de 20 anos também joga futebol, e depois as minhas irmãs também faziam ginástica e dança.

E tudo isso onde? Onde é que se passa essa história?
Isto é um bocado difícil…às vezes perguntam-me “de onde é que tu és?” e eu não sei responder porque lá está, eu nasci em Vila Nova de Milfontes, vivi em Vila Nova de Milfontes até aos meus sete anos, a minha mãe casou-se com o pai dos meus irmãos e fomos para Aveiro viver. Aveiro, Águeda. Em Águeda foi onde comecei a jogar futebol. Depois a minha mãe separou-se, voltou ao litoral alentejano, eu estava a estudar e à parte do estatuto de alta competição os professores percebiam que eu tinha uma rotina um pouco difícil porque vivia no Porto. Porque depois fui viver para o Porto, porque as minhas encarregadas de educação estavam no Porto e deixei a família e continuei a jogar futebol mas tive de me separar deles. Separei-me dos manos. Vivi em Vila Nova de Milfontes, fui para Águeda, a minha mãe voltou, os meus irmãos também voltaram, eu fiquei lá…foi algo que me custou a assimilar, eu sempre fui muito de casa e sempre fui mais “da mãe”. Ao contrário da minha irmã gémea, sempre fui mais de casa e dos amigos e de ir para a rua e jogar e fazer essas coisas normais que acho que agora não se fazem muito. E custou-me. Mas também sabia que tinha um propósito.

E tomou todas essas decisões porque queria mesmo ser jogadora de futebol?
Eu saí de casa, estava a estudar, levava o futebol muito a sério e a minha mãe também percebeu, com a Seleção Nacional, que eu estava a ter sucesso. Também ajuda o facto de pertencer a uma seleção mas eu também sinto que criei uma independência muito grande, ao jogar futebol. Senti-me muito mais mulher, sinto que cresci mais rápido, não só pelo contexto da minha família mas também pelo futebol, separar-me da minha família…

O futebol fê-la mais mulher?
Não no sentido do desporto em si, é mesmo naquilo que eu tive de passar para jogar futebol, ajudou-me a crescer. A dificuldade, o ter de sair de casa porque quero continuar a jogar futebol, quero continuar a pertencer à equipa.

E ir à Seleção Nacional continua a ser um orgulho?
É um orgulho. Não sei, às vezes dizem-me: “Ó Jéssica, já estás na seleção há onze anos…”. Mas eu sinto-me muito feliz sempre que sou chamada à seleção, é um sentimento muito agradável, é sempre muito bom estar ali, é sempre muito bom representar e cantar o hino de Portugal. Para mim é um sentimento muito especial e não consigo banalizar a minha ida à Seleção Nacional. E sempre que vou é um enorme momento de orgulho.

Esse momento do hino é muito especial?
É, é muito especial. Agora já se controla mais, mas eu que sou uma pessoa e uma jogadora muito sentimental, é sempre um momento muito emotivo. E depois depende do contexto do jogo, de como eu me sinto psicologicamente. E ajuda-me, cantar o hino ajuda-me a concentrar, ajuda-me a perceber a intensidade, o que vale um jogo de futebol na minha vida.

Em abril de 2018, contra a Bélgica, fez uma finta que correu mundo e que é mesmo o vídeo mais visto de sempre nas redes sociais da Seleção Nacional — tem mais visualizações do que o vídeo da festa depois da conquista do Euro 2016. Conte-nos esse momento.
Bem, aquilo foi um momento muito rápido, faltava muito pouco tempo para acabar o jogo e foi um momento muito rápido. Nós estávamos a perder 1-0 e esse lance, que depois deu penálti — e muita gente não sabe, e acho que isso para mim foi o mais importante, mais do que a finta em si, embora tenhamos falhado a qualificação –, esse momento deu azo ao continuarmos a acreditar que podíamos seguir na qualificação. Porque depois foi penálti e marcámos golo.

O futebol feminino está a crescer e as jogadoras portuguesas também estão a começar a ter mais sucesso. Os clubes estrangeiros já olham de forma diferente para as jogadoras portuguesas?
Claro que sim, acho que já nos olham de forma bem diferente e acho que estão a reconhecer que o futebol feminino em Portugal está a crescer. Eu fui para o Lyon, a Cláudia Neto já assinou há duas épocas pelo Wolfsburgo, a Matilde vai para o Manchester City, a Ana Borges já tinha passado pelo Chelsea, tudo grandes potências mundiais no futebol feminino. O facto de eu ir para o Lyon é só mais um reconhecimento.

Ainda assim, e apesar do crescimento, continuam a existir problemas no que toca à igualdade salarial e à discriminação face ao futebol masculino. A Marta, que foi seis vezes a melhor jogadora do mundo, foi a última a falar publicamente sobre isto e tem sido uma das principais vozes críticas. O que é que acha sobre isto?
É um bocado triste porque a diferença é abismal. E a Marta, sobretudo a Marta, tem uma história muito bonita no futebol feminino e é um dos exemplos para todas as jogadoras, todas queremos seguir o exemplo dela. E já merecemos. Principalmente a Marta. Merece que o valor dela seja tão bem reconhecido como é no futebol masculino.

A nível salarial, a diferença ainda é muito grande?
Sim, há diferença, claro que há diferença. Mas acho que os patrocinadores, as marcas, os clubes, têm de olhar para o potencial que existe na mulher. Têm de perceber o contexto. Não podem pôr um homem de 30 anos ao lado de uma mulher de 30 anos a medir forças porque um homem vai ser mais forte, naturalmente. Mas relativamente à qualidade, ao empenho, àquilo que faz dentro de campo, acho que as mulheres deviam ser reconhecidas por isso. Porque nós somos tão capazes como os homens. Se calhar não temos tanta força como eles, que é uma coisa normal, mas são tão capazes quanto eles. Não somos menos que eles. Naturalmente, eles têm mais força física do que nós.

E tens ídolos? Jogadores ou jogadoras que sempre admiraste?
Eu sou muito patriota. É o Cristiano Ronaldo, é uma referência. Assim como o Ricardinho. Temos os melhores do mundo. Mas não quero ser um Cristiano Ronaldo, quero ser uma Jéssica Silva, quero que as pessoas me conheçam como a Jéssica Silva e não a Jéssica que venera o Cristiano.

E quem é a Jéssica fora do campo?
Sou muito de praia, de estar com os amigos, de estar na esplanada. Sou uma pessoa muito tranquila, muito divertida, gosto muito de brincar, gosto muito de rir à gargalhada. Gosto é de estar com os meus amigos, com os meus irmãos.