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Incêndios

Estado deve exercer “pedagogia do exemplo” com gestão florestal das matas nacionais

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O investigador Luciano Lourenço defende que o Estado deve dar o exemplo e apostar na gestão florestal. É necessário interligar as decisões do Governo central com as das autarquias.

O Estado deve exercer a "pedagogia do exemplo", com a gestão florestal das matas nacionais, e evitar a "posição impositiva" da legislação aos cidadãos

ANTÓNIO JOSÉ/LUSA

O Estado deve exercer a “pedagogia do exemplo”, com a gestão florestal das matas nacionais, e evitar a “posição impositiva” da legislação aos cidadãos, defendeu esta quarta-feira Luciano Lourenço, do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra.

“O problema trata-se, sobretudo, da paisagem florestal que temos, bastante abandonada ou então aparentemente tratada, mas que na generalidade continua entregue a si própria, e sem gestão, sem ocupação desse território, parece-me que não vamos conseguir resolver o problema dos incêndios”, afirmou o investigador Luciano Lourenço, em declarações à agência Lusa.

Para o especialista em incêndios florestais, a legislação produzida nesta área é “mais do que suficiente”, mas é preciso que seja aplicada no território.

“Muito sinceramente, quando ando por aí, vejo a implementação de uma ou outra medida, mas não as vejo implementadas com caráter generalizado como seria suposto”, declarou o diretor do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra, apontando, ainda, como grande falha a comunicação da legislação aos cidadãos.

Na perspetiva do investigador, o Estado tem-se colocado numa “posição impositiva”, produzindo a legislação e fiscalizando o cumprimento da mesma, “em vez de trabalhar junto dos cidadãos”, que não participam, normalmente, na elaboração das leis, mas sofrem as consequências dos incêndios.

Além disso, os cidadãos “acabam por ficar, muitas vezes, sem possibilidade de compreender a própria legislação”, alertou Luciano Lourenço, defendendo a sensibilização junto das populações, através do trabalho das autarquias.

“Os incêndios florestais são, essencialmente, um problema de natureza social, são um risco social e é por aí que têm que ser atacados. Enquanto não forem atacados por essa via, muito provavelmente, vamos continuar a ter incêndios florestais e grandes incêndios florestais, porque sem o envolvimento das populações, dos proprietários florestais, dos agentes que intervêm na floresta não vamos conseguir encontrar forma de gerir o espaço florestal”, avançou o investigador, reconhecendo que as soluções tecnológicas são importantes, mas são insuficientes para resolver o problema.

Neste âmbito, o responsável pelo núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra disse que é necessário existir uma interligação entre o Governo central e as autarquias na implementação da legislação na área da floresta, com a disponibilização de recursos e meios, indicando que há “muitas particularidades a nível local e que têm que ser tratadas a nível local, porque as soluções que servem no município X podem não ser as adequadas ao município Y ou mesmo dentro do próprio município”.

“Penso que o Estado teria a obrigação de exercer a pedagogia do exemplo”, reforçou o especialista em incêndios florestais, referindo-se à gestão das matas nacionais, “que poderiam ter um aproveitamento florestal completamente diferente daquele que existe hoje”, através do arrendamento a longo prazo de terrenos que estão abandonados.

Segundo Luciano Lourenço, a solução para o problema dos incêndios tem que ser enquadrada em termos de médio e longo prazo.

“A aposta tem sido, essencialmente, tecnológica. Temos muitos mais meios do que tínhamos no passado, mas como se comprova eles não são suficientes para resolver o problema dos incêndios, porque antes disso há toda uma série de questões que estão subjacentes ao território, ao seu ordenamento, à sua gestão, à forma como a população participa ou não nessas medidas e que não se conseguem resolver de um ano para o outro”, sustentou o investigador, destacando a importância da continuidade das intervenções, em vez de “muitas ações pontuais, que podem ser muito mediáticas, mas que depois têm pouca visibilidade em termos práticos e em termos de execução”.

Sobre a reforma da floresta do atual Governo, o investigador considerou que “não traz muitas novidades em relação a outras anteriores”, acrescentando que, “em termos objetivos, as grandes reformas já vêm de trás”, lembrando que a primeira grande reforma foi em 1971.

Vários incêndios deflagraram no distrito de Castelo Branco ao início da tarde de sábado. Dois com origem na Sertã e um em Vila de Rei assumiram maiores dimensões, tendo este último alastrado, ainda no sábado, ao concelho de Mação, distrito de Santarém, tendo este sido dominado na terça-feira.

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