A viver uma “tempestade” de fatores negativos, como o Brexit, a travagem da economia europeia e a queda da moeda chinesa, o setor do calçado está a apostar na tecnologia e na inovação. Há empresários preocupados com o efeito do aumento do salário mínimo na competitividade na indústria portuguesa, mas o presidente da associação do setor, a  APICCAPS, Luís Onofre, afirma que não há nada contra o aumento dos salários, desde que isso se traduza “num compromisso de produtividade”.

Estes foram alertas ouvidos na 88ª edição da MICAM, a maior feira de calçado e acessórios do mundo, em Milão, que até quarta-feira junta 1400 expositores vindos de 50 países dos cinco continentes, distribuídos por sete pavilhões colossais. Nelson de Souza, Ministro do Planeamento, e João Neves, Secretário de Estado da Economia, chegaram por volta das 10h, acompanhados por Luís Onofre, presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) e da Confederação Europeia da Indústria do Calçado, para visitar alguns stands portugueses e conhecer a realidade do setor. Portugal é este ano a segunda maior delegação, apenas ultrapassada por Espanha, e marca presença com 81 empresas, responsáveis por mais de 8 mil postos de trabalho.

O itinerário começou na Exceed, uma marca com 10 anos que vai na terceira geração familiar. Europa, Japão, Panamá e Nova Zelândia são alguns dos seus principais mercados, cuja oferta se distingue pelo design de produto exclusivo. Nos 45 modelos de cada coleção, a aposta é, desde o ano passado, nos sapatos unissexo e no futuro o investimento da marca passará pela comunicação e vendas online. “O mercado não está numa fase positiva, os retalhistas demoram a pagar”, afirma Pedro Caria aos jornalistas. Uma situação testemunhada pelo ministro do planeamento, que no stand da marca M-Dv ouviu outra reclamação: o aumento de salários.

Rui Oliveira, responsável pela empresa, concorda que o salário mínimo tenha um trajeto ascendente, mas queixa-se que nos últimos anos, este tem tido “um impacto enorme na margem e no preço” dos seus produtos, dizendo estar mesmo a atravessar “uma situação limite”. “Portugal está a ficar um mercado menos competitivo com o aumento no salário mínimo”, sublinha, apelando o Governo para ter atenção à “pressão que tem exercido” com o aumento do salário, olhando com especial cuidado “para este tipo de industria”.

Esta é, aliás, é uma queixa partilhada com Luís Onofre, presidente da APICCAPS. “Estamos plenamente de acordo que os salários aumentem, desde que haja um compromisso de produtividade. Os nossos clientes não estão recetivos a estes aumentos. Inevitavelmente vamos ter que aumentar o preço dos nossos produtos e os clientes não estão a aceitar isso.”

O Ministro do Planeamento reagiu defendendo que a mudança tem de ser feita de uma forma sustentada, realista e pragmática, sem esquecer a ambição de Portugal ter empregos melhores.

“Não podemos abandonar a nossa ambição de termos globalmente uma indústria e uma economia que tenha empregos mais qualificados. A indústria do calçado é um belíssimo exemplo.”

Para “equilibrar a balança” é necessário modernizar o setor através das novas tecnológicas e promover a sua presença e competitividade a nível internacional, estando previsto um investimento de 50 milhões de euros para os próximos três anos. Foi no expositor da Cruz de Pedra, que o Nelson de Souza ouviu as preocupações que o mercado online está a suscitar por parte dos empresários de calçado, sendo considerado “um novo negócio”.

Feira de Milão recebeu os responsáveis da APICCAPS, Luís Onofre e Manuel Carlos Silva, e o ministro Nelson de Souza e o secretário de Estado João Neves

José Afonso, detentor da marca, queixou-se por exemplo dos 40% da taxa de devolução praticada. “O Centro Tecnológico do Calçado tem em curso um programa mobilizador que já tem componentes ligadas a ações de promoção de digitalização”, adiantou. “Tratam-se de desafios muito complexos de acompanhamento de encomendas, de devolução de produtos, de todo um conjunto de constrangimentos e novas condições para sermos capazes de responder às novas necessidades”, concluiu.

Tempestade nas exportações, esperança à vista?

As empresas portuguesas exportaram nos primeiros sete meses do ano quase 50 milhões de pares de sapatos, no valor de 1090 milhões de euros, dados que representam menos 94 milhões de euros face ao mesmo período em 2018, interrompendo assim um ciclo de oito anos consecutivos de crescimento.

Em entrevista ao Observador em fevereiro, Luís Onofre já tinha antecipado que este seria “um ano muito difícil”, motivado pela conjuntura financeira internacional,  e na MICAM confirmou o seu receio. “Estamos perante uma tempestade de acontecimentos negativos que nos afetam, isso de certa forma assusta, mas já passamos por tempos piores.”

O presidente da APICCAPS explica que fatores como o Brexit e a queda do valor da moda chinesa fazem com que a economia geral europeia esteja a recuar, o que afeta a indústria do calçado, cada vez mais competitiva, de forma direta ou indireta.

“Temos a grande vantagem de trabalharmos com seis meses de antecedência e podemos perceber e compreender o que vai acontecer no futuro. A MICAM é um sinal disso, podemos tirar ilações no final da feira sobre aquilo que vai acontecer no futuro e esperamos que seja positivo. Eu penso sempre positivo.”

Para Onofre, a desigualdade nas taxas alfandegárias é outro dos problemas atuais. “Se eu quiser mandar um sapato para o Brasil ou para a China são taxados 50%, 60% ou mais, enquanto que sapatos provenientes destes países chegam à Europa quase a custo zero”, disse, acrescentando que como presidente da Confederação Europeia da Indústria Calçado irá centrar a próxima reunião neste tema.

O ministro do planeamento realçou que “compete ao Estado tentar resolver” esta situação, através da criação de ligações reais do comércio a nível internacional. “Portugal deve reclamar, e tem-no feito em sedes apropriadas, um comércio mais leal e mais justo.” Para Nelson de Sousa, a Europa tem tido uma política de portas abertas e por isso encontra-se em condições de exigir o mesmo tratamento, em mercados como a América, a Ásia ou o Médio Oriente, que se têm revelando “cada vez mais importantes”. “É uma tarefa difícil, mas não desistiremos”, afirmou, explicando que o Ministério de Economia e dos Negócios Estrangeiros estão em articulação com a APICCAPS no desenvolvimento desse trabalho.

O Observador viajou para Milão a convite da APICCAPS.