O que é que é preciso? Avançar. Em Samora Correia, Jerónimo de Sousa conseguiu conjugar o verbo uma, duas, três, dezanove vezes em apenas meia hora de discurso. E como se isto já não fosse pouco, o secretário-geral do PCP conseguiu também intercalar as linhas mestras do programa da CDU, com referências à justiça fiscal, à produção nacional, ao aumento do salário mínimo nacional para 850 euros, ao investimento na saúde e, à semelhança do que aconteceu na iniciativa da manhã, ao investimento nos transportes públicos, também como forma de minimizar as alterações climáticas.

Jerónimo discursava perante uma plateia de cerca de duas centenas de pessoas, mas também falava para os jornalistas presentes na sala que ainda estavam atentos ao rescaldo da aparente zanga entre PS e BE. E a CDU não os deixou a seco. Pela voz do cabeça-de-lista por Santarém, António Filipe, que aqueceu o palco para o secretário-geral, lá veio a frase a piscar o olho ao que se passa noutras campanhas: “Esta não é uma campanha de tricas e mexericos”.

E já que estava no embalo de apontar aos erros dos outros, continuou a criticar os “que só aparecem junto das pessoas quando há campanha eleitoral”. O deputado recordou que a CDU “não passa cheques em branco a ninguém e que apresenta provas dadas”, dirigindo-se ao tradicional eleitorado na sala, sempre mais reativo de cada vez que o alvo era o PS.

Já aos comandos do microfone, Jerónimo de Sousa acusou António Costa de se “enfeitar” com as medidas que antes mereciam a oposição do socialista. “Não pode desmentir, nem iludir esta simples verdade: muito do que se alcançou começou por ter o seu desacordo, a sua resistência e até a sua oposição”, afirmou para depois reclamar, uma vez mais, que “tudo o que é medida a favor dos trabalhadores e do povo tem a marca da CDU”.

A esse eleitorado fiel, Jerónimo de Sousa lembrou depois que “o voto nunca foi traído, foi sempre honrado”, mas isso não significa que o partido se fique pelos votos que já são garantidos. A CDU quer conquistar o novo eleitorado e apelou até aos que não são comunistas: “O voto na CDU é daqueles que se preocupam com os problemas do povo e do país”.

E isso passa por defender o aumento da produção nacional, para “produzir cá aquilo que outros querem comprar lá fora”. E passa por “pôr cobro à fuga do grande capital ao pagamento dos impostos”, que “promova a eliminação tendencial dos benefícios fiscais”.

E para os portugueses que “não são de classe média-alta” — numa crítica a Assunção Cristas —, Jerónimo de Sousa também trouxe propostas: elevar o “mínimo de existência e reduzir as taxas para baixos e médios rendimentos”, redução “imediata” do IVA sobre a eletricidade, gás natural e gás de botija para 6%, bem como “outros bens de primeira necessidade” — ainda que não tenha especificado quais—, e a redução do IRC às micro, pequenas e médias empresas para 12,5% caso tenham lucros inferiores a 15 mil euros.