A Polícia Judiciária encontrou, no material informático apreendido ao hacker Rui Pinto, acessos às caixas de correio eletrónico de altos responsáveis do Real Madrid e está a investigar se o português poderá estar na origem da fuga de informação que levou Cristiano Ronaldo a responder por evasão fiscal e a enfrentar uma acusação por violação de Katherine Mayorga, uma mulher que conheceu nos EUA. O Ministério Público chamou mesmo Ronaldo, como testemunha, para lhe perguntar se teria, eventualmente, sido contactado por Rui Pinto com alguma tentativa de extorsão. Mas o jogador português disse que não.

Segundo os documentos que constam no processo consultado pelo Observador, num dos exames feitos aos computadores, aos discos externos e aos telemóveis de Rui Pinto — que está acusado de tentativa de extorsão, acesso ilegítimo, sabotagem informática e  violação de correspondência — os inspetores da PJ detetaram a exportação em bloco de caixas de correio eletrónico. Entre os domínios encontrados estão os do Ministério Público e os do Sporting — como, aliás, vem vertido no despacho de acusação conhecido há uma semana — e vários endereços ligados a outros clubes, como o é o caso do Real Madrid.

Mas na inquirição feita a Cristiano Ronaldo, as questões do Ministério Público foram mais abrangentes. A 11 de junho, pelas 10h30, e na presença do advogado Tiago Félix da Costa, a procuradora Patrícia Barão perguntou ao jogador se considerava que Rui Pinto poderia ter tido documentos da sua vida fiscal e privada através do acesso que teve a informações confidenciais do seu advogado Carlos Osório de Castro. Ronaldo respondeu que a única coisa que sabia sobre o tema era o que via nas notícias.

A magistrada perguntou-lhe, de seguida, se eventualmente teria recebido algum contacto de Rui Pinto, ou mesmo de alguém chamado Artem Lobuzov ou John (nomes falsos que o hacker usou no contacto com algumas alegadas vítimas) na tentativa de lhe pedir dinheiro. E Ronaldo respondeu que não, que nem sequer tem caixa de correio eletrónico e que a única forma de o contactarem seria através do grupo de pessoas com quem se relaciona, que descreveu como sendo restrito.

Cristiano Ronaldo lembrou também que, apesar de Carlos Osório Castro o representar desde 2003, chegou também a ser assessorado pelos advogados Paulo Rendeiro e Francisco Cortês, da mesma sociedade, a Morais Leitão. A procuradora perguntou-lhe, por isso, quem poderia ter dados sobre a sua vida privada nos seus sistemas informáticos. E o jogador foi claro: o Real Madrid e a Juventus, onde agora joga.

Durante a inquirição, que durou cerca de uma hora, Ronaldo lembrou-se de que, de facto, outros colegas do Real Madrid enfrentaram processos de evasão fiscal e que chegaram a comentar entre eles que poderia ter havido uma intrusão no sistema informático do clube espanhol. A procuradora leu-lhe então uma lista de endereços de email, cujas caixas de entrada foram encontradas no material apreendido a Rui Pinto e que constam no processo, e perguntou-lhe se sabia a quem pertenciam.

O jogador ia respondendo: Jose Angels Sanchez, diretor geral do Real Madrid e braço-direito do Presidente;  Javier Lopez Farre, diretor do departamento jurídico; o assessor Juan Camilo Andrade e o médico da equipa Niko Mihic. Tudo emails referidos no material que foi apreendido ao hacker.

Os investigadores encontraram ainda referências aos emails de Luís Correia, que Ronaldo esclareceu tratar-se do responsável pela Polaris — que é sobrinho de Jorge Mendes e está diretamente ligado aos contratos de exploração da sua imagem. E  de Miguel Marques, o seu gestor de conta e conselheiro financeiro.

Da inquirição do jogador português sobra ainda uma curiosidade: ao contrário do que acontece, normalmente, com as testemunhas ouvidas pelo Ministério Público em qualquer processo, alguns dos elementos relativos à identificação de Cristiano Ronaldo ficaram por preencher: na morada ficou apenas a de um advogado e o espaço para o número de telemóvel foi deixado em branco.

Rui Pinto tentou contactar Jorge Mendes?

O Ministério Público também chamou Jorge Mendes a depor, como testemunha. Acompanhado pelo mesmo advogado de Cristiano Ronaldo, o empresário disse que nunca notou que alguém tivesse invadido o seu email, mas confirmou um episódio estranho. No dia 30 de outubro de 2018, recebeu um email suspeito, escrito em espanhol, de alguém que se apresentava como ‘José Lima’. Nesse contacto, ‘José Lima’ pedia à secretária de Jorge Mendes o número de telemóvel do agente de futebol, alegando que tinha localizado o “R.P.”, mas sem se perceber a quem se referia. O mesmo ‘José Lima’ ainda telefonou à secretária de Mendes, falando em português, mas o agente ignorou sempre os contactos e nunca respondeu.

O episódio é relevante já que Rui Pinto é acusado de ter tentado extorquir a Doyen. O Ministério Público acredita que o hacker pediu dinheiro ao fundo de gestão de passes de jogadores em troca da não publicação de documentos sensíveis que, alegadamente, tinha roubado. Aquele contacto a tentar falar com Jorge Mendes e referindo um “R.P.” poderia ser a mesma estratégia.

No material aprendido a Rui Pinto foram encontradas cópias de emails de várias caixas do correio. Por isso, além do acesso ao sistema e da alegada tentativa de extorsão à Doyen, o Ministério Público acusou-o de aceder indevidamente às comunicações eletrónicas de uma sociedade de advogados, do próprio Ministério Público e do Sporting. As autoridades encontraram ainda referências a emails do AC Milan, do grupo empresarial chinês Fosun International Limited e da Altice Portugal.