Um dos grandes dogmas da literatura contemporânea é o valor da inquietude. Todos conhecemos uma literatura mais ou menos histérica, cheia de enredos escabrosos, parricídios, incestos, violações, escritos num tom nervoso e a fuçar na abjeção. Curiosamente, é a esta literatura enlameada que são dadas as palmas e as coroas, num grotesco espetáculo de mendigos com grã-cruzes na lapela; para ganhar a aprovação do mundo, a literatura tem de mostrar que o detesta, que nasceu para incomodar aqueles que a admiram, para acusar os que a condecoram e para sujar todos com a verdadeira lama que o mundo disfarça de passadeira vermelha.

É claro que esta literatura irada e desassossegante produziu grandes obras e faz um certo sentido; a ideia fundamental na estrutura do coração inquieto, que já vem de Santo Agostinho, é a de que nos encontramos adormecidos em relação à nossa própria inconstância. A inquietação deve ser denunciada, porque a vida de cão atrás da própria cauda parece satisfatória. O desejo que salta de objeto em objeto, fazendo de nós pequenas marionetas ao serviço de caprichos mesquinhos faz de nós pessoas estruturalmente inquietas, mesmo que não o notemos.

A literatura contemporânea, porém, produziu uma pequena alteração na forma de olhar para o desassossego. É claro que é importante despertar para a ideia de um coração inquieto; é importante, não exatamente uma literatura que desinquieta, mas uma literatura que mostra como somos inquietos: isto, precisamente porque a inquietação não é o melhor dos estados, inquieta. Ou seja, a literatura que nos mostra a estrutura do desassossego é, por isso mesmo, desassossegante; o que a literatura contemporânea perdeu, no entanto, foi o objetivo primeiro. O desassossego já não é visto como a estrutura comum, mas como uma estrutura de exceção. Só os sábios ou os mais atentos, aqueles que saíram das cavernas, é que são inquietos; a inquietação já não é vista como uma condição a que queremos fugir, mas como uma condição que queremos alcançar.

“Teoria da Fronteira”

Não é preciso seguir com atenção surrealistas e malditos, românticos ou a beat generation para detetar logo um louvor do desassossego; no entanto, é óbvio para o senso comum que a inquietação como valor só pode ser artificial. O que é próprio da inquietação é querer sair dela – é mesmo isso que a inquietação significa.

Nesse sentido, entre uma literatura sossegada de uma forma ingénua – a literatura que não dá conta da nossa inquietação ontológica – e uma literatura que navega no absurdo de louvar a inquietação, a poesia de José Tolentino de Mendonça é um caso raro em que as coisas estão no lugar certo.

A poesia do agora Cardeal trata, no seu fundamental, da ideia de paz. Isto é, o desassossego é apresentado como uma evidência a que queremos fugir. Os métodos de fuga são discutíveis e às vezes um pouco etéreos; no entanto, os temas básicos dos poemas mostram claramente aquilo que o poeta pretende: a busca da solidão e do afastamento, uma vida quase vivida em câmara lenta, de tal forma que todo o gesto é pausado e importante, contra a voragem do barulho, dos dias atarefados, das multidões e de tudo o que nos sobressalta.

“A Papoila e o Monge”

Tem, do ponto de vista técnico, um arsenal interessante para transmitir a sua ideia. Numa das premissas básicas da poesia, a comunhão entre a forma e o assunto, Tolentino tem uma poesia cheia de quebras de verso para acentuar a pausa e a calma, abundam as imagens de tempo de descanso e de contemplação, como olhar para as estrelas ou aquecer as mãos no fogo de uma lareira e são constantes os verbos e os substantivos longos (“habitar” em vez de “viver”, por exemplo) que dão a ideia de extensão do tempo.

Tolentino também recorre a um estratagema curioso para livrar a sua poesia de um bucolismo mais primário e mais ingénuo, que passa pela introdução, no meio das delícias da vida frugal e simples, ou do imaginário da vida monástica, de vocabulário técnico ou erudito, que funciona quase como um lembrete de que não se está em território inocente. Os exemplos são mais do que muitos: enquanto fala da mãe que transportava “vasos de orquídeas”, das alegrias “na pausa dos bordados”, acrescenta que “já adriano atingira os confins da grécia”; ou fala do tempo em que encontrava Deus entre os baldios, “antes de aprender álgebra”.

Há sempre uma pequena nota dissonante, como que a evocar a perda da inocência e a lembrar que todas as imagens brandas e pacíficas são uma aspiração, não uma realidade. Não negamos que, nesta intromissão de uma ideia ou de um tipo de vocabulário que destoa da pureza do resto, há um certo maneirismo que nem sempre é bem conseguido; no entanto, é uma forma de solidificar os poemas e tirar-lhes um pouco daquele tom místico-gasoso que tantas vezes encontramos nas crónicas do bibliotecário do Vaticano.

“A Noite Abre Meus Olhos”

Tolentino é claramente um poeta da paz, do sossego e da brandura, com uma clara preferência poética pela tradição dos sábios solitários, sejam eles os anacoretas e os padres do deserto, os sábios orientais ou os monges de toda a espécie. O desassossego, na linha de Pascal ou do gnothi seauton que moldou toda a cultura ocidental, cura-se no confronto de cada um consigo próprio, na solidão que leva a que tudo seja olhado e interpretado a partir de uma ideia fundamental, e não como se cada coisa tivesse uma existência por si e nos dominasse. Nisso, a poesia de Tolentino de Mendonça também tem um lado interessante: há um tom comum, no modo de olhar para o fogo, para o céu ou para os trabalhos da gente simples que, se traz alguma monotonia poética no ar sempre grave e quase sagrado de cada coisa, traz também alguma verdade filosófica. O que é curioso na ideia de contemplação é a ideia de comunidade; a contemplação implica a rejeição daquilo que à partida seria mais óbvio: a grande diferença e independência de cada objeto contemplado. O que a poesia de Tolentino mostra é que a contemplação séria de cada coisa leva a encontrar em todas fundamentalmente o mesmo: o próprio.

Poeticamente, como já se disse, isto traz alguma monotonia. A sensação de ler uma busca pelas ruas das cidades ou uma peregrinação pelo meio das árvores é igual e falta ao autor, provavelmente, a agilidade poética para conseguir manter nas imagens a diferença que o ponto de vista comum esbate; a opção pela paz de espírito como tema, mesmo com a consciência de que esta paz é normalmente um desejo, não uma realidade, também traz com ela uma toada um tanto monocórdica que não expressa bem todo o tumulto que a solidão traz.

Tolentino escreve apenas sobre a ponta do penedo, de tal forma que as dificuldades, as blasfémias ou o pecado são apenas uma memória vaga ou um canto menor na aspiração à paz. Não sabemos se isso corresponderá às proporções certas na alma humana; haverá mais pecado e mais conflito do que aquilo que a poesia de Tolentino, no seu jeito quase feminino, faz transparecer; mas talvez não haja esse conflito no desejo de mansidão. E, a esse, Tolentino sabe dar expressão poética.