Depois de, repetidamente, ter contestado as suspeitas sobre a existência de vestígios de amianto nos seus produtos de pó de talco para bebé, a Johnson & Johnson decidiu mandar retirar um lote, vendido online nos Estados Unidos. A decisão foi tomada na sequência dos resultados de um teste feito a uma embalagem comprada na internet, que detetou a presença de amianto, ainda que numa quantidade mínima.

O mesmo teste, feito numa segunda embalagem também pela FDA (a congénere do Infarmed nos Estados Unidos), teve resultados negativos. Ainda assim, e por “abundante precaução”, a empresa norte-americana decidiu retirar aquele lote, “de forma voluntária”, como explicou em comunicado — sem deixar, no entanto, de sublinhar a quantidade mínima do vestígio que foi encontrado e a possibilidade de ter havido contaminação cruzada na análise. Além disso, estarão a ser feitas outras investigações para perceber se houve alguma contaminação da embalagem, alheia à empresa, ou se o produto foi alterado depois da compra.

No total, são 33 mil embalagens retiradas do mercado.

O recuo da Johnson & Johnson acontece numa altura em que a empresa usa todos os meios para contestar os milhares de queixas que têm sido apresentadas em tribunal, por consumidores que atribuem o facto de terem cancro à exposição ao produto — e ao amianto que, alegadamente, contém. A essas queixas juntam-se ainda outros processos judiciais relacionados com outros produtos, como dispositivos médicos ou fármacos específicos.

No ano passado, a Reuters revelou que a empresa sabia há mais de 40 anos da eventual presença de vestígios de amianto no pó de talco que comercializava. Em dezembro, uma reportagem do The New York Times tornava públicos documentos internos onde essa preocupação era clara — e que já em 1971 tinha sido sugerido que os controlos de qualidade fossem mais apertados por causa desse risco. Nos memorandos, era referido “um grave risco para a saúde”.

Esses documentos fazem agora parte dos milhares de processos — pelo menos 11 mil — que a justiça norte-americana está a avaliar. No ano passado, a J&J venceu várias queixas, mas está ainda a recorrer da condenação num caso que envolve 22 mulheres, que culpam a Johnson & Johnson por terem tido (ou terem ainda) cancro nos ovários, por causa da presença de amiante no pó de talco.

Nesse processo, a condenação foi pesada: a empresa foi condenada a pagar quase 5 mil milhões de dólares de indemnização pelos dados dados como provados.

Em julho deste ano, a Johnson & Johnson reafirmou que o seu pó de tal “não contem amianto nem causa cancro”, recorrendo aos “testes de segurança que são feitos há décadas”. Agora, repete essa certeza:

Milhares de testes ao longo dos últimos 40 anos confirmaram repetidamente que os nossos produtos de talco não contêm amianto. O nosso talco vem de fontes que cumprem, de forma confirmada, as nossas especificações apertadas que estão acima dos standards industriais.”

A notícia da retirada do lote de pó de talco para bebé teve um impacto imediato no valor da empresa. Na bolsa, as ações da Johnson & Johnson cairam mais de 4%.