“A cinco de novembro, logo depois do intervalo do jogo contra os Hawks, tive um ataque de pânico. Apareceu vindo do nada. Nunca tinha tido um antes. Nem sequer sabia se eram reais. Mas era real — tão real como uma mão partida ou um tornozelo torcido. Desde esse dia, mudou quase tudo na maneira como penso sobre a minha saúde mental”. Foi assim que, em março de 2018, Kevin Love, jogador dos Cleveland Cavaliers, abriu o coração e a mente ao mundo inteiro e admitiu, na primeira pessoa, que lutou com uma depressão, com distúrbios de ansiedade e com ataques de pânico. O testemunho de Kevin Love, dado na íntegra e sem reservas ao The Players’ Tribune, marcou um antes e um depois na forma como a NBA e o desporto norte-americano olham para a saúde mental dos atletas. A partir de Kevin Love, um jogador de basquetebol da melhor e maior liga do mundo deixou de ser um super-herói.

A temporada 2019/20 da NBA arrancou esta terça-feira, com os campeões Toronto Raptors a vencerem os New Orleans Pelicans, que estão desprovidos da primeira escolha do draft deste ano, Zion Williamson, que se lesionou nos últimos dias e só vai regressar em dezembro. Quer isto dizer que começou a defesa do título por parte dos Raptors, a tentativa de regresso à ribalta por parte dos Lakers de LeBron James e a possibilidade de surpresa do lado dos Clippers, que contam agora com o trio Paul George, Patrick Beverley e Kawhi Leonard. Mas a nova época de basquetebol nos Estados Unidos traz mais novidades do que rookies, trocas de jogadores e um burburinho (e muitos milhões perdidos) causado pela polémica entre a NBA e o Governo chinês. Este ano, a mudança é profunda e interna e tem como objetivo preparar, acautelar e cuidar dos próximos anos: não só da NBA como — e principalmente — dos próprios atletas.

DeMar DeRozan, dos Spurs, também falou abertamente sobre a depressão que sofreu

A meio de agosto, a organização da liga de basquetebol dos Estados Unidos anunciou novas regras e linhas de orientação para todas as equipas. De todas, destacava-se uma: um Programa de Saúde Mental e Bem-Estar para prevenir situações de risco. Este plano, tornado obrigatório, prevê a integração no staff de cada equipa de pelo menos “um profissional com experiência na avaliação e no tratamento de problemas clínicos de saúde mental”, a designação de um “psiquiatra licenciado” que esteja disponível para ajudar a gerir os casos que surjam e a formulação de um “plano de ação” para colocar em prática em “emergências” deste tipo. O programa, que também deverá ser aplicado no basquetebol universitário, que serve como alavanca para a subida dos jovens jogadores à NBA, tornou-se uma medida inédita tomada por uma das organizações desportivas mais poderosas do mundo e colocou os Estados Unidos — e todos os outros países — a falar sobre saúde mental. Um tema que, pelo menos até aqui, precisava de ser um tabu para poder sequer existir.

O primeiro psicólogo reconhecido e licenciado a trabalhar na NBA chamava-se Don Kalkstein. Foi contratado por Mark Cuban, dono dos Dallas Mavericks e empresário conhecido por ser um dos “tubarões” do programa “Shark Tank”, numa das primeiras decisões que tomou enquanto proprietário do clube, logo em 2000. Don Kalkstein precisou de tempo e de trabalho feito e demonstrado para superar as críticas internas e externas que diziam que a sua contratação e integração nos Mavericks não passava de desperdício de dinheiro: aplicou, com o passar das temporadas, o método MVP (meditação, visualização e positivismo) e tornou-se um autêntico guru em Dallas, a quem todos os jogadores recorriam e que ajudou a impulsionar o potencial de vários plantéis e grupos. “Antes dele, a piada recorrente na liga era que todas as equipas tinham um psicólogo, mas chamava-se treinador de lançamentos. Se um jogador tinha problemas para gerir o stress que o afetava a ele e ao seu jogo, aceitava facilmente a ajuda do treinador de lançamentos. Mas se lhe chamássemos psicólogo, a reação era imediata: ‘Não preciso de um médico!'”, explicou ao El Mundo Adam Silver, presidente da NBA desde 2014.

Larry Sanders deixou o basquetebol em 2015 depois de se automedicar durante várias temporadas

A escalada de consciencialização e noção da realidade de que todas equipas da NBA precisavam daquilo que os Dallas Mavericks tinham desde 2000 intensificou-se não só com o testemunho de Kevin Love como também com o de DeMar DeRozan. De forma quase simultânea, o então jogador dos Raptors que está atualmente nos Spurs também tornou pública a fase menos boa por que passou. “Não importa o quão indestrutíveis parecemos em campo, somos todos humanos ao final do dia”, atirou. As confissões de Love e DeRozan sacudiram a NBA e destruíram todos os tabus, colocando à vista de todos e lançando para o debate público o facto de a saúde mental no desporto — ou a escassez dela — ser um flagelo atual, importante e urgente. Os dois testemunhos abriram caminho ao primeiro projeto de saúde mental, organizado não só pela NBA como pela Associação de Jogadores, que está na génese daquilo que é agora o Programa de Saúde Mental e Bem-Estar. “Há que distinguir um psicólogo desportivo, que trabalha e melhora o rendimento do atleta, de um clínico, que trata os problemas psicopatológicos. O primeiro deve ser, acima de tudo, um especialista na prevenção e na deteção de problemas”, disse Jose Maria Buceta, antigo selecionador da equipa feminina espanhola de basquetebol e licenciado em psicologia, ao El Mundo.

A questão da prevenção, na verdade, é um dos tópicos mais importantes e prioritários na agenda da NBA. Além de tratar os distúrbios e problemas que já existem e já se manifestam, a ideia da liga norte-americana de basquetebol é impedir que estes episódios cheguem a acontecer. Até porque, e graças ao exemplo de jogadores como Larry Sanders, sabe qual pode ser o final de um atleta que não é apoiado nem integrado em qualquer sistema de acompanhamento. Em 2010, Sanders tinha 21 anos, 2,11 metros de altura, tinha sido a escolha número 15 do draft daquele ano e assinado um contrato milionário com os Milwaukee Bucks. Dois anos depois, após infringir a política anti-drogas da NBA em quatro ocasiões, foi despedido pela franquia. Em 2015, com 26 anos, abandonou o basquetebol profissional e ficou com o rótulo de jovem rebelde que não soube habituar-se ao dinheiro, à fama e às luzes da ribalta. Até que decidiu abrir o livro, também ao The Players’ Tribune. “Foi muito frustrante. Toda a gente falou na marijuana e não no problema real. Tive muitos castigos mas ninguém me ajudou a investigar a causa para encontrar soluções. Parte do problema é que não o podemos ver. Se temos uma entorse no tornozelo, vemos o pé inchado e negro. Isto não se vê”, escreveu o jogador, revelando que se automedicava com marijuana para aliviar a ansiedade e o isolamento que sentia, acabando por cair numa espiral depressiva.

Como sempre e como em quase tudo, a NBA toma a liderança na prevenção, no combate e no tratamento de questões de saúde mental. O programa que vai entrar em vigor na temporada que arranca esta terça-feira está a receber elogios e incentivos, com a WNBA — a liga feminina de basquetebol dos Estados Unidos — a começar a exigir que os clubes do estrato feminino tenham acesso às mesmas ferramentas. “A minha saúde mental influenciou negativamente a minha capacidade de fazer bem o meu trabalho. Continuava a jogar por causa do meu treinador, mas quando foi despedido perdi o meu apoio. A corrente arrastou-me para o oceano. De repente, não te consegues mexer nem respirar. Estás sozinha nas ondas e afogas-te. Todos deviam ter um profissional a quem recorrer. É literalmente um fisioterapeuta para o teu cérebro”, defendeu Elizabeth Cambage, considerada uma das melhores jogadoras de sempre da WNBA.

Na semana em que arranca a nova temporada da NBA — e em que Tobias Harris, dos Philadelphia 76ers, apontou a privação de sono como outro dos flagelos que afeta os jogadores –, o New York Times decidiu falar com Kevin Love, que mais de um ano depois de revelar o período mais negro da carreira e da vida pessoal está prestes a começar a 12.ª época consecutiva ao mais alto nível. Durante o verão, o jogador dos Cavaliers aproveitou para viajar, para conhecer novas realidades e para se afastar de tudo aquilo que é a rotina obrigatória durante grande parte do ano. Além disso, juntou-se a DeMar DeRozan e participou em várias conferências e conversas sobre saúde mental. “Tem ajudado muita gente mas também me tem ajudado a mim. Tem sido libertador. Faz-me sentir mais envolvido. Sinto-me mais confortável na minha própria pele. Não tenho de ser mais ninguém sem ser eu mesmo. Ao fazer isto, abri o baralho todo. A vida não foi feita para ser vivida a preto e branco. Foi feita para ser vivida com cores bonitas”, disse Kevin Love. E o objetivo é que todos os outros jogadores encontrem as cores bonitas de Kevin Love.