Espanhóis residentes em Portugal confessaram à agência Lusa a sua preocupação com os resultados das eleições legislativas espanholas do próximo domingo, admitindo terem poucas expectativas num governo estável, sobretudo depois da crise da Catalunha.

Todos os cidadãos espanhóis com quem a Lusa falou garantiram estar muito envolvidos e interessados nas próximas eleições por considerarem que delas depende não só a estabilidade necessária para resolver problemas como os económicos, mas também o crescimento de políticas extremistas e até a possibilidade de um novo bloqueio criar uma crise institucional e deixar Madrid sem interlocutor em Bruxelas.

“Honestamente, duvido muito que os resultados facilitem uma coligação com capacidade de sustentar um governo estável. E digo coligação porque me parece impossível que exista um vencedor absoluto”, afirmou Javier Merayo, engenheiro industrial que vive em Portugal desde o ano 2000. Para este espanhol, as legislativas de 10 de novembro “têm um grande interesse”, por serem gerais e “independentemente da sua repetição em tão curto prazo”.

Também Guillermo de Llera, presidente da assembleia-geral da Casa de Espanha, defendeu que estas eleições devem ser seguidas com atenção por todos. “Entendo que qualquer cidadão deve se sentir implicado, as eleições são a chave da democracia”. No entanto, Guillermo de Llera também se sente “descrente” num resultado estável, embora acredite que “as ‘tendências’ relativamente às eleições de abril deverão marcar vencedores e perdedores, permitindo constituir Governo”.

A viver de forma permanente em Portugal desde 2017, Jaime-Axel Ruiz, jurista reformado e atualmente dedicado a um blogue de entretenimento, vai mais longe ao admitir que se sente preocupado com o risco de um novo bloqueio. “Outro bloqueio seria muito, muito grave porque pode derivar numa crise institucional do parlamento nacional, das instituições fundamentais, do Conselho do Poder Judiciário e da Comunidade Autónoma de Catalunha”, além de poder enfraquecer a posição da Espanha em Bruxelas, deixando Madrid “sem um interlocutor estável”.

A estabilidade de um Governo causa a Jaime-Axel Ruiz muitas dúvidas porque “o país está muito dividido e não há tradição de coabitação”, além de haver uma grande divisão entre “as esquerdas e as direitas”.

Há nos partidos como que uma falta de patriotismo elementar que faz com que ponham as suas políticas à frente dos interesses do país”, criticou.

“Já estamos há dois anos com orçamentos prorrogados e os indicadores referem que estamos às portas de uma desaceleração económica”, referiu ainda Miguel Seco, profissional do setor bancário e dirigente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola que vive em Portugal desde 1998, lembrando que “está em causa o futuro” da Espanha.

Para todos os que falaram com a Lusa, a crise na Catalunha influencia, e muito, a campanha e, consequentemente, os resultados das eleições. A crise na Catalunha “está a contaminar e condicionar a política espanhola, com um crescimento da antipatia aos catalães entre uma parte da povoação do resto de Espanha, que os vê como privilegiados e não solidários”, visão que está a ser “explorada pelo [partido de extrema-direita] Vox e também por outros partidos como o Ciudadanos e o PP”, considerou Jaime-Axel Ruiz.

Para este reformado espanhol, “o problema catalão não tem solução a curto ou médio prazo”, mas “está a impedir a tomada de decisões muito mais importantes e urgentes, como as relativas à depressão económica que aí vem, às mudanças climáticas, à escassez de água ou ao desemprego sobretudo dos jovens”.

Uma influência que Guillermo de Llera também considera “decisiva”, já que “põe sobre a mesa todos os fantasmas da política espanhola, dividida em duas desde os reis católicos”. Também Carmen Vieira, doméstica que vive em Portugal há quatro anos, considera que a questão catalã é “decisiva” nas eleições e para o futuro de Espanha. “A Catalunha foi uma questão decisiva”, disse, acrescentando que “não é por acaso que se torna sempre mais quente quando há eleições próximas”.

Para a bancária Rosário Rodriguez, residente em Portugal há menos de um ano, a situação em Espanha “é muito preocupante” e a crise da Catalunha ajuda a torná-la ainda mais difícil de resolver. “Preocupa-me a situação porque a Espanha está numa situação instável há tempo demais”, admitiu, adiantando que se não se conseguir formar um governo que leve o mandato até ao fim, o país pode “ter problemas mais sérios do que se pensa”.

Enquanto esperamos, os partidos mais radicais vão aumentando as pessoas que simpatizam com eles. A questão da Catalunha ainda ajuda mais estes partidos de extrema-direita”, defendeu.

Miguel Seco também vê o problema territorial como um fator “grave” e que “complica muito a formação de coligações”. “Ficou muito claro no único debate eleitoral realizado entre os líderes dos cinco grandes partidos nacionais com representação no parlamento espanhol” que este “é um problema que afeta todos os espanhóis, não só aos residentes na Catalunha. E a solução deverá envolver igualmente a todos”, considerou.

“Infelizmente [a Catalunha] é um tema que polariza uma parte importante dos votantes, sempre mais influenciados pelos temas mais polémicos do que pelos temas mais importantes: educação, saúde, redistribuição da riqueza”, lamentou Javier Merayo.

Para estes espanhóis, os resultados das eleições legislativas de Espanha não vão afetar a proximidade daquele país com Portugal, até porque as relações “são excelentes e “30% do comércio exterior de Portugal é realizado com Espanha”. No entanto, a falta de estabilidade em Espanha poderá afetar Portugal, reconheceu Guillermo de Llera, enquanto Jaime-Axel Ruiz considera que “seria bom ter um governo estável em Espanha que se inspirasse nas soluções de coligação ou colaboração em Portugal”.

Lamentando que “ninguém no Governo de Espanha veja o potencial de desenvolver uma parceria muito mais aprofundada entre os dois países e conformar uma estratégia ibérica em Europa e no mundo”, Javier Merayo admite que “Portugal continuará a ser apenas um país vizinho, mais pequeno, ótimo para passar umas férias”.

No ano passado residiam em Portugal cerca de 14 mil espanhóis, a maior parte dos quais vive na área metropolitana de Lisboa, segundo a base de estatísticas Pordata. De acordo com os dados, este número representa quase o dobro do que existia em 2008. Na área metropolitana de Lisboa, moravam, no ano passado, cerca de 7.000 espanhóis com autorização de residência, sendo que só na capital estavam 3.770 e em Cascais 1.072. O norte do país é a segunda região onde habitam mais espanhóis, somando quase 3.000, seguida da zona centro, onde habitam cerca de 1.600 cidadãos espanhóis, e do Algarve, onde residem 1.198.