Mais de 400 pessoas foram detidas na Universidade Politécnica de Hong Kong (PolyU) desde as 22h de domingo (hora local), noticiou o South China Morning Post. Na manhã desta segunda-feira, Ken Woo, vice-presidente da associação de estudantes, disse que ainda havia pelo menos 500 pessoas retidas no campus. Ted Hui, deputado do Partido Democrático, disse que seriam perto de mil. Impedidos de sair pela polícia, os manifestantes pediram ajuda à população, que acedeu e se encaminhou para o local a cantar: “Vão para a PolyU. Salvem os estudantes!”.

Os manifestantes têm tentado furar o cordão policial e sair do campus, mas são obrigados a voltar para trás porque a polícia lhes atira gás lacrimogéneo, noticiou o Hong Kong Free Press (HKFP). Ted Hui, deputado do Partido Democrata, que se encontra na universidade disse ao Expresso que a polícia os avisou que vai invadir o espaço. “A polícia acabou de avisar-nos que daqui a 10 minutos vai entrar na universidade e atacar-nos”, disse Ted Hui. “As pessoas estão assustadas, desesperadas. Não têm nenhuma saída. Estão só à espera de ser detidas. E não podem simplesmente sair, porque se o fizerem terão de entregar-se e ser detidas.”

Membros do conselho de direção da PolyU estão a preparar-se para entrar no campus, numa tentativa de convencer alguns dos estudantes a saírem. “Estamos a tentar ver se alguns estudantes desejam sair connosco para os acompanharmos à esquadra”, disse Rodney Chu Wai-chi ao South China Morning Post. De acordo com a mesma publicação, as forças policiais concordaram em não deter menores de idade, mas não afastam a possibilidade de tomar ações legais contra eles.

A polícia já tinha invadido a universidade, que foi tomada pelos manifestantes há uma semana, durante da madrugada em Hong Kong e tinha detido várias pessoas. Pelo menos 10 pessoas foram hospitalizadas. Os manifestantes lançaram bombas artesanais com combustível para se defenderem, a polícia respondeu com canhões de água — provocando situações de hipotermia em, pelo menos, 40 pessoas.

“A situação na Universidade Politécnica é muito crítica agora”, disse Owan Li, representante dos estudantes no conselho da Universidade Politécnica, na segunda-feira à tarde. “Muitas pessoas feridas dentro do campus não receberam cuidados e tratamento adequados.”

Durante o dia, a polícia exigiu que os manifestantes que se encontrassem dentro do campus largassem as armas e os objetos perigosos — incluindo bombas artesanais tipo napalm, arcos e flechas e tijolos —, que retirassem as máscaras de gás e que saíssem por uma das ruas, conforme publicado no Facebook.

“Se [os radicais da Universidade Politécnica] puderem largar suas armas, seguir as instruções da polícia e assumir sua responsabilidade legal, a polícia não usará a força”, disse o superintendente-chefe Kwok Ka-chuen, citado pelo South China Morning Post. O porta-voz da polícia acrescenta que a polícia quer uma solução pacífica para o impasse na universidade. Ainda assim, todos aqueles que se entregarem serão presos por terem provocado tumultos, disse o comandante regional de Kowloon West, Cheuk Hau-yip.

Mas a situação não parece ser segura. “A razão porque ainda estamos aqui dentro é porque a polícia não nos deixa sair”, disse um dos membros da associação Protect the Children. Mais de 40 voluntários, juntamente com dezenas de crianças sob sua proteção, continuam retidos na universidade. “Não há garantia de uma passagem segura.”

Fora da universidade, um grupo de manifestantes terá tentado cercar a polícia que bloqueia a universidade, mas foram recebidos com gás lacrimogéneo e balas de borracha. Nas ruas que rodeiam o estabelecimento de ensino, outros manifestantes têm tentado desviar a atenção da polícia para que se afastem da universidade. Mais uma vez, as forças de autoridade têm respondido com gás lacrimogéneo e os manifestantes com as bombas artesanais com combustível, enquanto gritam “Pessoas de Hong Kong, vinguem-se!”, noticiou a CNN. Os manifestantes também invadiram as linhas de caminho de ferro.

A CNN referiu também que as forças policiais foram vistas com o que parecia serem armas automáticas e estão prontos a usá-las em caso de necessidade — aparentemente nas ruas e não na universidade. A polícia já tinha ameaçado que usaria balas reais se os manifestantes continuassem a usar o mesmo tipo de armas de que se têm socorrido.

Por volta das 2h da manhã (hora local), o bispo auxiliar de Hong Kong, Joseph Ha, políticos pró-democracia e funcionários da universidade aproximaram-se da entrada da Universidade Politécnica e pediram para falar com o comandante da polícia para dizer que muitos dos jovens queriam sair e que queriam ajudá-los a fazê-lo, noticiou o HKFP. “Recuem. Isto é um aviso”, disse a polícia enquanto lhes apontava um holofote.

O presidente da associação de estudantes, Derek Liu, acusou a polícia de estar a usar da força e armas para impedir que os manifestantes, mas também o pessoal da universidade e profissionais de saúde, saiam do campus, noticiou o HKFP.

O desespero dos alunos retidos levou-os a pedir ajuda ao público para que os ajudem a vencer a barreira policial. Os pais têm acorrido ao local e há estradas a serem bloqueadas, para impedirem que mais polícias cheguem à universidade. Uma multidão caminhou pelas ruas, em direção à universidade, pedindo para se salvar os estudantes. A polícia avisou a população que não se deve dirigir para a universidade porque pode ser usada pelos manifestantes como escudo humano.

Entre a meia-noite e as 22h (hora local), 116 pessoas que ficaram feridas nos confrontos foram enviadas para o hospital, noticiou o South China Morning Post.

50 pessoas detidas perto da universidade

Perto da universidade, na zona do Museu da Ciência, foram detidas cerca de 50 pessoas por volta das 10h (2h em Lisboa), noticiou o HKFP. O grupo parecia ser de pessoas de meia idade e sem estarem vestidos de preto (como normalmente fazem os manifestantes). Foram detidos por, alegadamente, terem feito um ajuntamento ilegal.

O comandante regional de Kowloon West, Cheuk Hau-yip, disse, em conferência de imprensa que tinham sido detidas mais de 50 pessoas usando roupas que os identificavam como jornalistas ou socorristas, porque pelo menos 12 dos que diziam ser socorristas não tinham conhecimentos de primeiros socorros e alguns dos que diziam ser jornalistas não tinham cartão de imprensa. A polícia suspeita que sejam manifestantes disfarçados. As notícias disponíveis não permitem confirmar se se tratam de dois grupos de 50 pessoas ou apenas um.

Antes disso, Pierre Chan, o advogado que representa o setor médico, disse que os socorristas voluntários que deram ajuda aos manifestantes dentro da Universidade Politécnica tinham sido detidos.

Lo Kin-hei, conselheiro distrital e vice-presidente do Partido Democrático, também foi detido na manhã de segunda-feira, segundo o HKFP. O político estaria, alegadamente, a ajudar moradores numa área perto da universidade quando a polícia carregou sobre eles e deteve um grande grupo de pessoas.

Desde que as manifestações começaram em junho, já foram detidas 4.491 pessoas, entre os 11 e os 83 anos — 3.395 homens e 1.096 mulheres —, anunciou o porta-voz da polícia, Kwok Ka-chuen. Só no fim de semana foram detidas 154 pessoas.

As escolas continuam encerradas esta segunda-feira, em Hong Kong, mas o Departamento de Educação espera que, na quarta-feira, as escolas primárias, secundárias e algumas especiais possam voltar a abrir.

Governo da China não ficará parado se situação se descontrolar, alerta embaixador chinês em Londres

O embaixador chinês em Londres, Liu Xaoming, alertou esta segunda-feira, durante uma conferência de imprensa, que o Governo da China não ficará sem fazer nada se a situação em Hong Kong se descontrolar. “Penso que o Governo de Hong Kong está a fazer todos os esforços para manter a situação sob controlo, mas se a situação sair do controlo, o Governo central certamente não ficará sem fazer nada”, disse o diplomata, acrescentando que a China tem “determinação suficiente poder para pôr fim ao levante”. Os soldados “estão lá para mostrar a soberania chinesa e com objetivo de defesa”.

O Liu Xaoming alertou também contra qualquer “interferência” estrangeira, designadamente do Reino Unido, a antiga potência colonial, e dos Estados Unidos da América. “Gostaríamos de dizer a essas forças externas que o Governo chinês continua determinado (…) a opor-se a qualquer interferência externa nos assuntos de Hong Kong”, declarou. Para o embaixador chinês, os manifestantes pretendem desestabilizar para “tomar o poder”. Hong Kong está a “entrar num abismo”, disse o diplomata, acrescentando que se a violência continuar, “o futuro será terrível”.

Estas declarações foram feitas depois de o Reino Unido se ter mostrado “extremamente preocupado com a escalada da violência por parte dos manifestantes e das autoridades em redor do campus” da Universidade de Hong Kong, através de um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, “É vital que os feridos recebam o tratamento médico apropriado e que uma passagem segura seja posta em prática para aqueles que desejem deixar a área”, disse o porta-voz britânico num comunicado, apelando a que “a violência cesse e que as partes tenham um diálogo construtivo”.

Governo norte-americano preocupado com violência em Hong Kong

Os Estados Unidos da América estão preocupados com a situação política e violência crescente em Hong Kong. Durante uma conferência de imprensa esta segunda-feira, Mike Pompeo apelou ao governo da cidade para que tome medidas para resolver a situação.

“A agitação e violência não podem ser resolvidas apenas pelos esforços das autoridades. O governo deve tomar medidas para resolver” a situação, declaraou o secretário de Estado norte-americano. “O governo de Hong Kong é responsável por manter a calma”, citou a Reuters.

Artigo atualizado às 22h14 com as declarações de Mike Pompeo