A MICAM, também conhecida como a maior feira de calçado do mundo, arrancou este domingo em Milão. Com um número de visitantes que, duas vezes por ano, ascende aos 40.000 (na última edição, em setembro de 2019, o evento registou 44.076 pessoas, das quais 60% eram estrangeiras), a organização anunciou ao início da tarde uma quebra esperada de 20% neste número — ou seja, menos 8.800 pessoas do que na última edição. O motivo é a ameaça de contágio do coronavírus.

Mesmo que a Assocalzaturifici, a entidade organizadora, tenha optado por não cancelar o evento — tal como aconteceu com o Mobile World Congress, em Barcelona, há menos de uma semana — os efeitos do coronavírus foram evidentes logo no primeiro dia da histórica MICAM, este domingo. O fluxo de transeuntes dentro do recinto foi, desde o início do dia, nitidamente menor do que em edições anteriores.

As medidas de prevenção, contudo, estão longe de ser extraordinárias — medidores de temperatura corporal nos aeroportos, toalhitas desinfetantes distribuídas gratuitamente à entrada do complexo, nos arredores de Milão, e ainda dispensadores automáticos de gel ao pé das portas.

“Há muito medo no interior, mais do que em Milão, talvez por haver uma perceção menos real dos factos. Até que provem o contrário, houve dois casos de infeção num país de 56 milhões de habitantes”, afirmou Tommaso Cancellara, diretor-geral da Assocalzaturifici, associação encarregue da organização da feira, numa entrevista dada no início do mês. O responsável recusou alarmismos e reiterou a ideia de que a ameaça de contágio do coronavírus em solo europeu não compromete a realização da MICAM e de outras feiras.

Sendo a China um importante destino de exportação do calçado italiana, Cancellara desvalorizou a possível ausência dos compradores chineses nesta edição da feira e referiu ainda que a percentagem de asiáticos no número de visitantes global não vai além dos 7%. “Os principais compradores confirmaram. Receio que alguns compradores menores possam decidir não vir, mas estou confiante”, concluiu.

Do lado da indústria portuguesa, o alarme também já soou. Alguns fabricantes de calçado já começaram a recorrer a fornecedores europeus para se abastecerem de aplicações e tecidos, entre outros produtos, materiais que o velho continente quase deixou de produzir por questões de competitividade de preço. “É algo novo para nós e não sabemos muito bem como é que este problema se pode traduzir na nossa economia. Neste momento, a prevenção passa por tentarmos apostar em novos fornecedores europeus, que é a boa notícia”, referiu Luís Onofre, no papel de presidente da Confederação Europeia da Indústria de Calçado.

O Observador viajou até Milão a convite da APICCAPS.