Milão voltou a ser palco da maior feira de calçado do mundo. As portas da MICAM abriram-se este domingo, mas com a organização a admitir uma quebra estimada de 20% no número de visitantes por causa da ameaça de contágio por coronavírus. São 82 os expositores de marcas portuguesas (se contarmos com a Mipel e a Lineapelle, dois eventos a decorrer em simultâneo), todas elas em busca de uma oportunidade para seduzir compradores de todo o mundo. Portugal é a segunda maior delegação estrangeira do evento, apenas ultrapassada por Espanha. Num setor que já viu dias mais brilhantes, os desabafos dos industriais são contrabalançados com uma injeção de otimismo mais ou menos crónico administrada pelo próprio secretário de estado da Economia. João Neves percorreu o recinto e visitou os vários stands que assinalaram a presença portuguesa na feira.

Do colapso do pequeno comércio multimarca à dependência face à força industrial asiática, com destaque para a China, passando pelos constrangimentos alfandegários e pela simples moda do calçado desportivo, a visita expôs as fragilidades e os receios dos profissionais do setor.

“O que vejo são empresas muito resilientes. Sem negar as dificuldades no comércio deste tipo de produtos e as alterações do ponto de vista dos canais de distribuição e de retalho, as nossas empresas estão a encontrar as soluções para responderem a essas dificuldades”, disse João Neves, secretário de estado da Economia, durante o périplo pelos expositores de calçado nacional.

Da esquerda para a direita, Luís Onofre, Presidente da Confederação Europeia da Indústria de Calçado, João Neves, secretário de estado da Economia, e Amílcar Monteiro, um dos sócios da Fly London © Nuno Santiago

A par do investimento e das linhas de crédito para as empresas, João Neves reiterou o apoio do Governo ao setor. “Se tivermos de encontrar soluções criativas para responder aos desafios que o calçado e outras indústrias têm, cá estaremos para o fazer. Soluções que misturem instrumentos de crédito com reforço dos capitais próprios, instrumentos que permitam analisar as distorções ao comércio internacional e que encontrem mecanismos que permitam que as regras de comércio estejam assentes naqueles valores que consideramos muito importantes para o mundo de hoje: a sustentabilidade, o respeito pelos direitos humanos. É um percurso que temos de fazer em conjunto e sobre o qual o Governo vai dar o seu contributo, no contacto daquilo que são as discussões ao nível na União Europeia”, disse.

O decréscimo das exportações de calçado nos últimos dois anos fizeram com que o setor fechasse uma década dourada com um ligeiro amargo de boca. Falamos de uma quebra de 5,66% em 2019, um agravamento dos 3% registados no ano anterior, numa indústria que rende, anualmente, à volta de 1.900 milhões de euros em exportações. Por detrás dos números está uma queda no consumo, mas também uma transformação na distribuição e no retalho, marcada pelo encerramento de centenas de lojas multimarca na Europa.

“É muito preocupante e é o meu grande problema neste momento. O comércio online está a aumentar brutalmente, ao contrário das lojas físicas que estão a ter um desempenho menos positivo. Isso acaba por se traduzir numa tendência de lojas monomarca que implicam um investimento brutal para as empresas. É outro dos desafios grandes para as marcas portuguesas: saber onde vender e encontrar os canais de distribuição corretos”, refere Luís Onofre, no papel de presidente Confederação Europeia da Indústria de Calçado.

Entre as soluções à vista parece estar uma nova aposta na produção industrial dentro do continente europeu, mas também a alteração de barreiras alfandegárias. Em ambos os casos, o trabalho tem de ser feito a nível comunitário. “O debate sobre a transição energética e sobre a sustentabilidade também vai conduzir a alterações das regras de acesso ao mercado e de regras que valorizem o made in Europe. Aquilo que temos de fazer é encontrar os nossos aliados”, assinala o Secretário de Estado da Economia, fazendo referência à França e à Alemanha, mas também a Espanha e a Itália.

© Divulgação

“As alfândegas preocupam-me e como presidente da Confederação Europeia é algo que tenho em cima da mesa como prioritário. Na Europa, entram muitos produtos que se calhar não são taxados como deviam. Quando queremos mandar os nossos sapatos para a China ou para o Brasil, por exemplo, as taxas alfandegárias são brutais. Isso torna o comércio injusto”, assinala Luís Onofre, que também participa na MICAM enquanto designer.

No final da visita protocolar, ficou o otimismo e a esperança num futuro risonho para o calçado português, na forma de números e estratégias. Prestes a entrar em marcha está um Plano de Ação para a Sustentabilidade. Os cerca de 5% de queda nas exportações ficaram abaixo da quebra mundial no consumo, situada entre os 15% e os 20%. O último semestre

Coronavírus: o surto já infetou o calçado

Na última edição, em setembro de 2019, passaram por aqui cerca de 44.000 pessoas, 60% das quais estrangeiras. Com um fluxo de transeuntes dentro do recinto nitidamente menor do que em edições anteriores, o diretor da Assocalzaturifici, associação italiana encarregue da organização da MICAM, já confirmou que espera uma quebra de 20% no número de visitantes no total dos quatro dias do evento, que se estende até à próxima quarta-feira. A percentagem corresponde a quase menos 5.000 pessoas.

Do lado da indústria portuguesa, o alarme também já soou, sobretudo no que toca aos componentes importados da China para serem utilizados na produção de calçado em solo nacional — sobretudo aplicações e tecidos, que o velho continente quase deixou de produzir por questões de competitividade de preço. “É algo novo para nós e não sabemos muito bem como é que este problema se pode traduzir na nossa economia. Neste momento, a prevenção passa por tentarmos apostar em novos fornecedores europeus, que é a boa notícia. Podemos também ter clientes que estejam na China e que venham a Portugal e aí estaremos preparados para recebê-los”, refere Luís Onofre.

Estados Unidos e Japão: novos pés para os sapatos portugueses

O futuro da indústria portuguesa de calçado está a passar também pela expansão de horizontes. Nos Estados Unidos, a APICCAPS tem um trabalho já em curso e está, atualmente, a fazer ações de promoção com um ritmo mensal. A aproximação começou há três anos e, em 2019, o país representou 86 milhões de euros para a balança portuguesa, o que corresponde a um crescimento de 22%.

Imagem do expositor de Luís Onofre

Portugal nunca exportou tanto calçado para o mercado norte-americano e tudo leva a crer que ir além da Europa é o novo caminho para o sucesso. Nos últimos 10 anos, o setor duplicou as exportações para fora da União Europeia e o Japão é o mais recente alvo na mira da APICCAPS. É um mercado historicamente apetecível e que entra agora uma nova fase favorável ao consumo. A abordagem ao mercado nipónico já começou, com Tóquio como cidade prioritária, e o objetivo é duplicar o valor das exportações para esse país — 10 milhões de euros anuais atualmente — até ao final de 2022. Meio milhão é o investimento previsto para o Japão em 2020.

 O Observador viajou até Milão a convite da APICCAPS.

Artigo atualizado no dia 17 de fevereiro, às 23h20.