A maior prova de que foi Michael Bloomberg, antigo mayor de Nova Iorque, o grande derrotado do debate democrata desta quarta-feira, em Las Vegas  e a três dias das eleições no Nevada, não serão as dezenas de notícias publicadas nos Estados Unidos a dar conta disso; nem o tweet de Donald Trump a declarar a prestação como “provavelmente a pior da história dos debates”; nem sequer a súplica por mais tempo de antena que, a dada altura, o próprio multimilionário soltou, na direção dos moderadores: “Mas eu sou o quê, fígado de galinha?!”.

A maior prova de que Michael Bloomberg foi o grande derrotado deste que foi o seu primeiro debate, na corrida à nomeação democrata para as eleições presidenciais de novembro, saiu nada menos do que do seu gabinete, uma hora após a contenda, e em forma de declaração oficial à imprensa assinada pelo seu diretor de campanha. “Ele hoje estava só a aquecer. Esperamos que o Mike continue a desenvolver o desempenho desta noite”, escreveu Kevin Sheekey, à laia de “para a próxima corre melhor”.

Durante duas horas, o multimilionário, que já gastou 339 dos seus próprios milhões para financiar a campanha, foi atacado em todas as frentes pelos cinco adversários presentes no debate — a senadora do Massachusetts Elizabeth Warren; Bernie Sanders, senador do Vermont; o ex-vice-presidente de Barack Obama, Joe Biden; o também ex-mayor (mas de South Bend, pequena cidade no Indiana) Pete Buttigieg, e Amy Klobuchar, senadora do Minnesota.

Acusado de tentar “comprar a festa”, de acumular uma riqueza maior do que a dos 120 milhões de americanos mais pobres, de ter abusado da “abominável” política que em Nova Iorque dá carta branca aos agentes da autoridade para deterem, interrogarem e revistarem civis sem causa provável (o “stop and frisk”), e de maltratar e assediar as mulheres que trabalham para si, Michael Bloomberg foi tentando defender-se, muitas vezes sob ruidosas vaias do público presente e de forma muito pouco consequente.

“Não vamos acabar com esses acordos porque foram feitos consensualmente”, foi como respondeu a Elizabeth Warren depois de ela o ter descrito como “um bilionário que chama às mulheres gajas gordas e lésbicas com cara de cavalo” e de o ter desafiado a desobrigar as mulheres que para ele trabalharam dos acordos de confidencialidade que assinaram no âmbito de processos de assédio. “Vejam uma coisa, eu vou apoiar quem quer que seja o candidato democrata. Mas têm de compreender: nós, Democratas, vamos correr um risco enorme se nos limitarmos a substituir um multimilionário arrogante por outro“, rematou a senadora, em estilo “finish him“.

Já Pete Buttigieg, vencedor inesperado das primárias democratas no Iowa, cavalgou a mesma onda e aproveitou para atacar também Bernie Sanders, neste momento a encabeçar as sondagens, pelo caminho: “Podemos acordar daqui a duas semanas e a escolha ser entre um socialista que pensa que o capitalismo é a raiz de todos os males e um multimilionário que acha que o dinheiro deve ser a raiz de todo o poder”.

Questionado sobre a sua saúde e eventual capacidade para liderar a Casa Branca, três meses depois da cirurgia cardíaca a que foi submetido, Sanders, que antes das eleições de novembro completará 79 anos, deu o dito por não dito e, ao contrário do que tinha prometido, disse que afinal não vai divulgar novos registos médicos.

A verdade é que, por ter sido uma noite péssima para o magnata, proprietário da gigante Bloomberg LP (que já garantiu que vai vender se for eleito presidente), não significa que tenha sido um passeio no parque para os outro cinco candidatos à nomeação democrata. A imprensa americana descreve, aliás,  o debate de Las Vegas como uma espécie de “salve-se quem puder” em que todos gritaram com todos, falaram para lá do estipulado pelo relógio e desobedeceram às regras dos moderadores. Joe Biden, salienta o Washington Post, foi apenas um dos que recorrentemente gritou “Deixe-me acabar!”.

Elizabeth Warren, que apesar de ir em terceiro na ainda longa corrida à nomeação tem caído nas sondagens, foi a mais combativa — ridicularizou o plano de saúde de Buttigieg, “Não é um plano, é um PowerPoint”; ainda mais o de Klobuchar, que reduziu à qualidade de “post-it”; e acusou a campanha de Sanders de “atacar toda a gente que faz uma pergunta ou tenta perceber os detalhes sobre como ele tenciona mesmo fazer as coisas”. Uma hora depois de o debate acabar, o seu gabinete fez saber que tinha valido a pena: nunca desde o início da campanha, a senadora do estado do Massachusetts tinha angariado tanto dinheiro.