A corrida à liderança no Futebol Clube do Porto já começou e das críticas já ouvidas à administração de Pinto da Costa fica uma certeza: as contas da SAD vão estar no centro do debate.

A partir do momento em que o Futebol Clube do Porto decidiu não vender jogadores no mercado de inverno, depois de ter falhado os milhões da Champions (50 milhões de euros no mínimo), tornou-se inevitável um saldo negativo no final do primeiro semestre. Só que a dimensão do buraco financeiro apresentado pela administração do FCP, de 52 milhões de euros, fez disparar os alarmes nos adeptos portistas, em vésperas de eleições para a liderança do clube.

Depois de 1988 e 1991, Martins Soares é novamente candidato à liderança do FC Porto contra Pinto da Costa

As semelhanças e as diferenças com o passado recente

A SAD do Futebol Clube do Porto acumulou nos dois exercícios anteriores um total de 19 milhões de euros de prejuízo (saldo negativo de 28,4 milhões, em 2017/18; e positivo de 9,5 milhões, em 2018/19). Esta época, teria, por isso de apresentar lucros de 19 milhões de euros para ter “break even” (saldo zero) no final de cada três anos, como exige a UEFA, ou 14 milhões (tendo em conta o desvio de 5 milhões de euros admitido pela autoridade do futebol europeu).

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10h. SAD do Futebol Clube do Porto com prejuízo de mais de 51 milhões no primeiro semestre da época 2019/2020

As regras do fair play financeiro — que obrigam os clubes a não gastarem mais do que as receitas que geram e a não terem pagamentos em atraso a trabalhadores e outros clubes — admitem, no entanto, um desvio adicional, que pode ir até aos 30 milhões de euros, se o clube ou algum outro acionista injetar essas verbas na SAD. É certo também que para atingir esses valores há algumas rubricas que não contam. A UEFA deixa de fora, nomeadamente, os ganhos e perdas com alguns ativos (que não jogadores).

Num passado recente, quando se aproximou do limite, a SAD portista acabou por não evitar a intervenção da UEFA. Em 2013/14, apresentou 40,7 milhões de euros em prejuízos, compensados em parte pelos lucros de 19,9 milhões de euros de 2014/15. O saldo acumulado das duas épocas foi, por isso, negativo em 20,7 milhões de euros.

Até aqui não há grandes diferenças na comparação com os números das duas últimas épocas. O que muda são os prejuízos seguintes. Ao contrário desta época — em que o FCP SAD apresentou 51,8 milhões de euros de prejuízo no primeiro semestre —, em 2015/2016, no mesmo período, o resultado negativo foi de menor dimensão, atingindo 17,6 milhões.

FC Porto e os prejuízos de 58,4 milhões: “A época não correu bem”

Nessa época, que coincide com o tri-campeonato do Benfica, o FCP acabaria com 58,4 milhões de prejuízo (e um total de 79 milhões no conjunto das três épocas), tornando inevitável a intervenção das autoridades do futebol europeu.

O caminho para evitar essa intervenção passará, como já se sabia, pela venda de jogadores. Quando, em outubro, apresentou o orçamento da SAD para esta época, a administração da SAD do FCP tinha previsto lucros marginais, de 150 mil euros, contando com a contribuição de 77,9 milhões de euros em mais-valias na transferência de jogadores. Resta saber agora quanto dinheiro mais será necessário, tendo em conta a dimensão dos prejuízos do primeiro semestre.

Entre compras e vendas, tem sido noticiada a necessidade de encaixar 100 milhões de euros, mas no relatório do primeiro semestre o FCP não adianta valores, embora volte a reconhecer o problema: “Apesar do resultado apresentado ao semestre não permitir a estimativa de fecho das contas anuais, devido à sazonalidade que se verifica no registo de diversos custos e proveitos, perspetiva-se a necessidade de efetuar um valor considerável de mais-valias de transferências para que a Sociedade consiga atingir um resultado positivo no final da época”.

O lateral brasileiro foi contratado aos turcos do Galatasaray em 2016 por 6,5 milhões de euros. É o jogador com a cotação em “alta” no FC Porto. Mas está em fim de contrato.

Alex Telles e Fábio Silva entre os ativos mais apetecíveis

Antes de atacar a atual época, o FCP precisou de colmatar uma série de saídas da época anterior, muitas delas a preço zero, em final de contrato: Brahimi e Herrera, os mais valiosos, mas também os dispensados Adrián Lopez, Fabiano, Hernâni e Maxi Pereira (no total estes jogadores tinham custado 39 milhões de euros ao FCP).

Pressionado pela necessidade de entrar na Liga dos Campeões, a administração do FCP deu a Sérgio Conceição vários jogadores experientes a valores que normalmente a SAD só pagaria por jogadores mais jovens (com mais margem para gerar mais-valias futuras).

Segundo o Transfermarkt, site especializado em transferências, das 25 compras mais caras de sempre no Porto, apenas quatro chegaram com mais de 25 anos — e três deles vieram este verão: Uribe (85% do passe) e Zé Luís, ambos com 28 anos e a valerem cerca de 9 milhões de euros; e Marchesin, com 31 anos, custou 7 milhões. O quarto jogador tinha sido Adrien Lopez, que chegou ao FCP com 26 anos, em 2014/15.

O japonês Nakajima foi um dos jogadores mais caros contratados esta época pelo FC Porto: metade do passe por 11 milhões de euros.

Juntaram-se ainda esta época o regressado Marcano (4 milhões de euros), que tinha saído a custo zero; Nakajima (apenas 50% do passe, por 11 milhões de euros) e o jovem Luís Díaz (80% do passe, por 8,9 milhões). No total, 52 milhões de euros, a que se juntam perto de 7 milhões dos habituais encargos com a aquisição de jogadores.

Em janeiro, o FCP decidiu não vender nem estes nem outros jogadores para poder atacar o título — e os milhões da Champions que poderão daí advir —, mas agravou um problema que terá de ser resolvido até 30 de junho, sob pena de cair outra vez na teia da UEFA.

Entre as opções mais fortes para venda estão Alex Telles, que, segundo o Transfermarkt, é o jogador mais valioso do plantel (40 milhões de euros de avaliação e o mesmo valor em cláusula de rescisão), embora esteja a pouco mais de um ano do fim de contrato. O facto de ainda não ter renovado pressionará o FCP a vendê-lo na próxima janela de transferências (e potencialmente com desconto), caso não queira repetir as saídas em final de contrato dos anos anteriores. No caso de Alex Telles, há que referir ainda que o Galatasaray, a quem o FCP comprou o passe em 2016, tem direito a 10% do valor da próxima venda.

Danilo (30 milhões de euros, mas que esteve boa parte da época lesionado), Jesus Corona (25 milhões de euros, que foi adaptado com sucesso a lateral direito) e Marega (24 milhões) estão também entre os mais valiosos. Seguem-se Nakajima (20 milhões), Otávio (17 milhões), Luís Díaz (11 milhões), e Tiquinho Soares, Zé Luís e Uribe (todos a 10 milhões).

O médio português Danilo Pereira é um dos jogadores mais valiosos do plantel azul-e-branco. Valerá, segundo o TransferMarket, cerca de 30 milhões de euros.

Há ainda os jovens Fábio Silva (10 milhões de euros) e Romário Baró (9 milhões), cujo potencial de rentabilização será em princípio maior se forem transferidos em épocas seguintes.

Fábio Silva, por exemplo, tem apenas 753 minutos (e 3 golos) em todas as competições pela equipa principal. Para comparação — num jogador da mesma posição e do mesmo clube —, André Silva, quando saiu do Porto por 45 milhões de euros, em 2016/17, acumulava 4.200 minutos em época e meia, tendo marcado um total de 24 golos, incluindo 4 na Liga dos Campeões.

Tinha também, por outro lado, três anos mais do que os 18 anos que Fábio Silva fará na próxima janela de transferências — o que é relevante, tendo em conta que o mercado está cada vez mais “louco” por promessas sub-20.

Quanto dinheiro em mais-valias?

Na discussão sobre os valores das mais-valias de transferências é necessário sublinhar que não coincidem necessariamente com o preço a que os jogadores são vendidos. As mais-valias descontam não só percentagens do passe detidos por terceiros — como clubes ou os próprios jogadores (no caso de Oliver, por exemplo, o Porto não detinha 15% do passe) —, mas também, entre outros, o valor contabilístico do jogador aquando da venda.

No momento em que é adquirido, o passe de um jogador (ou melhor, a parte detida pela SAD) faz aumentar os ativos no exato valor de compra. Mas o valor contabilístico não se mantém intacto ao longo dos anos — como qualquer investimento, vai desvalorizando de forma proporcional enquanto durar o contrato. Por exemplo: o passe de um jogador que tenha custado 10 milhões de euros, num contrato assinado a 5 cinco anos, vai desvalorizando 2 milhões de euros por ano.

Há 15 anos que um defesa não marcava tantos golos no FC Porto: o nome dele é Telles, Alex Telles

Sendo mais concretos: se Alex Telles (de quem o FCP tem a totalidade do passe) for vendido no final desta época por 30 milhões de euros, as mais-valias descontam desde logo 1,3 milhões de euros que, por esta altura, valerá o passe do lateral esquerdo em termos contabilísticos — foi comprado a 6,5 milhões de euros, mas em junho terá uma desvalorização acumulada de 4 anos.

Diferente é a circunstância da generalidade dos jogadores da formação, em que, no momento da transferência, não há normalmente lugar a descontos do valor contabilístico. Simplesmente, porque não tendo um custo de compra associado, valem zero nas contas. Ruben Neves, Diogo Dalot, Rui Patrício ou João Félix tinham todos um valor nulo ou residual nas contas dos respetivos clubes.

É, aliás, um fator de subvalorização crescente dos ativos nos principais clubes portugueses, que, cada vez mais, contam com jogadores da “cantera” nas equipas principais. Fábio Silva, Romário Baró e Vítor Ferreira — como Ruben Dias, Ferro, Jota e Tomás Tavares no Benfica ou Jovane Cabral, Miguel Luís e Maximiano no Sporting — não acrescentam valor aos ativos das respetivas SAD.

As mais-valias descontam ainda prémios de desempenho que estejam por liquidar ao jogador, e outros fatores (como o efeito de atualização financeira das contas a receber a médio prazo) que, em conjunto, deixam os adeptos de futebol com a sensação de que o ganho pelas transferências não é tão elevado quanto se esperava — pelo menos, quando se anunciam as mais-valias geradas e não o valor da venda.

Ou seja, a não ser que estivesse preparado para vender apenas jogadores da formação do clube, quando o FCP avançou em novembro com a necessidade de 77 milhões de euros em mais-valias não se referia a 77 milhões de euros em vendas. O valor de vendas em perspetiva (não revelado pelo FCP) teria de ser maior.

Quanto? As contas do primeiro semestre deixam perceber que o cenário não é favorável, mas ainda será cedo para perceber qual será o resultado final desta época sem transferências. Por exemplo: quanto dinheiro terá o Porto de distribuir a jogadores em prémios de desempenho se for campeão nacional? A dimensão dos prejuízos esta época dependerá da resposta a esta e outras dúvidas. O que parece certo, no entanto, é que o plantel do FCP promete, mais uma vez, uma pequena revolução na próxima época.