São só três os pedidos que os médicos na linha da frente no combate à Covid-19, em Portugal, fazem neste momento: melhores orientações “superiores”, que permitam saber exatamente o que fazer em cada situação, reforço dos equipamentos de proteção e a colaboração de todos os portugueses. Uma receita que poderá evitar a sobrelotação de hospitais e um cenário semelhante ao vivido em Itália, que a Espanha começa também já a enfrentar.

Os primeiros dois casos positivos com Covid-19 foram confirmados em Portugal há 11 dias, desde então o número já ascendeu a 245, sendo que há doentes que já estão recuperados e tiveram alta hospitalar. Os relatos de falhas nas linha de SNS24 e de apoio ao médico são vários, mas nas unidades hospitalares também há falhas que já estão a causar desgaste nos profissionais de saúde.

O Observador recolheu vários relatos de médicos e enfermeiros que não cessam de alertar as pessoas para o que consideram “fundamental”: “Se não tiver que sair de casa, por favor não saia”. Consideram que é a única forma de conseguir responder aos casos positivos da doença. “Não temos capacidade para receber mil pessoas nos hospitais de um dia para o outro, é preciso adotar medidas preventivas”, diz ao Observador uma médica do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental.

1 “Melhores orientações superiores”

Um dos pneumologistas ouvidos pelo Observador explica que “faltam orientações superiores claras” e que há “médicos de Medicina Geral e Familiar na linha da frente que estão mais aflitos, com pouca ajuda e orientações”.

“O maior problema é haver ainda muito pouca organização, sobretudo no que diz respeito a orientações superiores. Todos os dias enfrentamos infeções muito piores que esta. A questão não é essa, é se o número de casos disparar — como vai acontecer —  como lidaremos e nos protegeremos a nós próprios”, diz o especialista ao Observador.

Tem que haver um investimento grande de quem manda e das autoridades, tem de se criar orientações muito claras para que saiba exatamente o que fazer em cada momento”, afirma.

O médico explica que é necessário que existam “protocolos claros sobre circuitos de suspeitos” porque atualmente “está tudo dependente da Linha de Apoio ao médico, que não atende”, e tem que se passar a uma fase de “acesso rápido e fácil a testes”.

“É preciso gastar dinheiro a testar. Foi parte do sucesso, por exemplo, na Coreia do Sul, que conseguiu estabilizar uma situação descontrolada. E na Alemanha também. A Coreia do Sul testou 210 mil pessoas”, nota o pneumologista do hospital Fernando Fonseca, em Lisboa.

O médico dá o exemplo do hospital onde trabalha, tornando claras as debilidades das orientações que chegam às várias unidades hospitalares. “O hospital antecipou-se e começou a tomar medidas, a definir o que vai acontecer quando tivermos imensos doentes. Já definimos, por exemplo, que toda a pneumologia vai ser zona de isolamento para doentes Covid”, explica, acrescentando que o hospital já está a fazer testes em laboratórios exteriores.

O laboratório do hospital contratou um laboratório exterior para agilizar os testes a doentes suspeitos de Covid-19. Foram testados três doentes, todos com resultado negativo. A contribuir para a decisão esteve também a dificuldade de comunicação com a Linha de Apoio ao Médico, que valida todos os testes para Covid-19 no país. “Eles nem atendem”, afirmou ao Observador o anestesiologista do mesmo hospital, acrescentando que os casos só são sujeitos a teste no laboratório externo depois de passarem por uma análise na comissão de infeção criada no hospital.

Os testes à Covid-19 começaram por ser feitos apenas no Instituto Ricardo Jorge, tendo sido depois alargados a outras unidades do SNS

O médico alerta ainda para a necessidade de se “autorizar que algumas consultas passem a ser telefónicas”, reduzindo todos os contactos de doentes não urgentes com as unidades de saúde.

É isso também que defende a médica do Centro Hospitalar Lisboa Ocidental que já viu as férias serem canceladas para que haja profissionais suficientes para responder às necessidades de quem recorre às unidades de saúde. Ao Observador diz que tem feito “todos os esforços” para reduzir o contacto com os doentes e respeitar as indicações de proteção para os profissionais de saúde, mas nota que há uma “barragem de informação”

“Há uma barragem de informação que não contribui para a tranquilidade [dos profissionais de saúde]” e reconhece também que há algumas informações a circular em grupos fechados que “prefere nem ver”, dado que se torna “impossível” acompanhar tudo e atestar a veracidade de toda a informação.

A mesma médica dá conta que lhe chegam informações de outras unidades hospitalares, mas que os profissionais de saúde muitas vezes não se identificam, o que dificulta a confirmação dos factos, e explica também que pode dar-se o caso de esses relatos contribuírem para o “alarme da população” com desinformação.

Além das orientações mais claras da tutela, que os profissionais reclamam e a necessidade de melhorar a resposta de atendimento nas linhas de apoio, para o especialista em pneumologia do hospital Fernando Fonseca fica também claro que terá de existir uma maior “mobilização da sociedade civil e das grandes empresas”. A instalação de sistemas de videoconferência, por parte das operadoras, nos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) e hospitais, é um dos caminhos apontados pelo clínico como solução para reduzir a propagação do vírus.

“É preciso filantropia, a tecnologia pode resolver muita coisa”, sintetiza o pneumologista do hospital Fernando Fonseca, em Lisboa.

2 “Reforço dos meios de proteção”

Através do exemplo os médicos de Medicina Geral e Familiar, o pneumologista explica que se está a verificar que os profissionais “não têm condições para isolar doentes e eles próprios” e que “têm poucos materiais de proteção”.

Ao Observador chegaram relatos de falta de material em vários Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) e em hospitais, da zona norte a Évora. Há enfermeiros a lamentar a falta de máscaras, há relatos de hospitais onde algumas desaparecem — como o caso do hospital Santa Maria, em Lisboa, relatado por um dos médicos ouvidos que não quis ser identificado — e o número de equipamentos de proteção individual disponível bastante inferior ao necessário.

Há uma carência grande de material de proteção. As máscaras estão fechadas e são racionadas, há apenas uma máscara por profissional, por dia. No caso de doentes que estão isolados temos que mudar de máscara, claro”, disse ao Observador o pneumologista do hospital Fernando Fonseca que ainda não tem qualquer doente com Covid-19 na unidade e já vive com algumas medidas restritivas relativamente ao material de proteção.

Do outro lado, o pneumologista frisa “a troca de informações científicas clínicas de orientações que tem chegado a Portugal através dos médicos em Itália”.

“Há hospitais em rotura em Itália, estamos a aprender muito. É impressionante a troca de informação e o que já se aprendeu. A Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos, por exemplo, emitiu uma recomendação que ensina como se deve tratar os doentes mais graves”, exemplifica o médico que trabalha no hospital Fernando Fonseca, em Lisboa.

Uma das médicas ouvidas, de um ACES da grande Lisboa, destacou a “velocidade de propagação” do vírus: “Passa-se de secundário a primário num dia, ou menos”, afirmou ao Observador depois de ter sido colocada também ela em isolamento profilático por ter tido contacto com uma pessoa que mais tarde se revelaria positiva para a Covid-19.

O contacto com a Linha de Apoio ao Médico (LAM) tem sido também uma das barreiras que os médicos enfrentam. “Tem demorado algum tempo, mas com persistência conseguimos”, dizem alguns dos profissionais do Santa Maria ouvidos, mas nem todas as unidades têm o mesmo relato de sucesso no contacto com a LAM, como o hospital Fernando Fonseca que já avançou com testes em laboratórios exteriores.

Equipamentos de proteção individual para profissionais que contactam com doentes Covid-19 têm como objetivo impedir o contágio

3 “Colaboração de todos”

Os médicos são unânimes ao afirmar que grande parte da solução para a propagação da Covid-19 em Portugal, seguindo os exemplos de sucesso noutros países, é diminuir o mais possível as interações sociais e apelar a que as pessoas possam permanecer em casa o máximo tempo possível.

Recordam os exemplos de sucesso de Macau, da Coreia do Sul e até da Alemanha e os já muitos estudos realizados que apontam no sentido de controlo do crescimento do número de casos através do isolamento social.

Também no que diz respeito ao recurso a cuidados de saúde, os portugueses devem usar a ponderação. Se se trata de consultas e exames de rotina “desmarquem”, pede o pneumologista: “Um apelo muito importante a que as pessoas não vão aos serviços de saúde, desmarquem tudo o que não é urgente”.

Um dos médicos ouvidos, que também não quis ser identificado, e que trabalha num ACES da grande Lisboa explicou ao Observador que algumas as visitas aos domicílios já tinham sido suspensas porque são visitas a doentes mais frágeis que em condições naturais “já não conseguem deslocar-se às unidades de saúde”. A suspensão desses “domicílios” é uma forma de tentar impedir o contágio a esses doentes mais fragilizados, que integram os grupos de risco identificados.

Mas, segundo o mesmo médico, é importante também que os portugueses possam “diminuir a utilização de transportes públicos”, onde facilmente se dá o contágio devido à proximidade das pessoas e às várias superfícies que podem estar contaminadas.

O governo já declarou o estado de alerta até dia 9 de abril e, numa conferência de imprensa no final do Conselho de Ministros, foram anunciadas medidas para garantir a prontidão no SNS, o apoio às famílias e empresas e a reorganização dos serviços, que só serão eficazes caso os portugueses cumpram e se mantenham efetivamente o maior tempo possível dentro de casa.

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O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita explicou em conferência de imprensa que será “crime de desobediência, com medida sancionatória agravada a violação de orientações, de ordens dadas pelas forças de segurança no âmbito do cumprimento das medidas da situação de alerta quer dos diplomas que foram aprovados no conselho de ministros”.