Esta segunda e terça-feira as ruas de Espanha voltarão a ter mais 1,8 milhões de pessoas, depois de ter vencido o prazo da resolução de emergência que mantinha trabalhadores de setores como a indústria em casa.

Além da indústria de setores considerados não essenciais, volta também à atividade o setor da construção, os trabalhadores de portagens, os escritórios de advogados ou os sindicatos, entre outros. Juntam-se assim aos funcionários setores considerados essenciais, que nunca deixaram de trabalhar, onde além dos trabalhadores do sistema de saúde, já se contavam aqueles que trabalhem em supermercados, quiosques ou papelarias, tal como aqueles que operam bombas de gasolina ou na indústria do comércio online.

Apesar desta alteração, que cada município implementará segunda ou terça-feira, consoante o feriado da Páscoa, o Governo de Espanha negue que esta uma “segunda fase” ou num relaxamento das regras do estado de emergência naquele que é o país com maior número de mortes por Covid-19 em proporção da sua população.

Essa mesma garantia foi deixada pelo Presidente de Governo, Pedro Sánchez, este domingo. “Quero ser muito claro: não estamos a entrar sequer numa segunda fase. A desescalada começará, quando muito, a duas semanas e será progressiva e cautelosa. O confinamento geral continuará pelo menos nas duas próximas semanas”, disse Pedro Sánchez, referindo-se ao prazo limite de 26 de abril. Porém, no final da próxima semana, o Presidente de Governo já admitia a possibilidade de uma extensão do estado de emergência para lá dessa data.

Patrões e sindicatos queixam-se de que não há máscaras

Para garantir um regresso ao trabalho em segurança, o Governo de Espanha anunciou que entre segunda e terça-feira serão distribuídos 10 milhões de “máscaras higiénicas” (que não são nem como as cirúrgicas nem como as mais complexas, que têm um filtro) nos transportes públicos. Estas máscaras terão o propósito específico de garantir a segurança daqueles que se desloquem para o trabalho de transportes públicos, onde é mais difícil manter uma distância de segurança.

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Porém, quando chegam ao trabalho, a proteção de cada trabalhador estará a cargo das respetivas empresas. Ao El Mundo, tanto patrões como sindicatos apontaram dificuldades em conseguir cumprir essa regulação, numa altura em que o mercado das máscaras e de outros equipamentos de proteção individual tem muita procura e pouca oferta.

“As empresas estão desejosas de voltarem ao trabalho, mas há um défice brutal de equipamentos de proteção. Se nem os trabalhadores da saúde ou dos transportes os têm, como é que os outros setores vão tê-los?”, disse àquele jornal Íñigo Fernández de MEsa, vice-presidente da Confederação Espanhola de Organizações Empresariais. De acordo com este responsável, uma estimativa de 95% das empresas não tem equipamentos de proteção individual para dar aos seus funcionários.

“As máscaras estão esgotadas e não se encontra luvas em lado nenhum. Esta segunda-feira não vai haver equipamentos de proteção. Poderá haver uma empresa que tenha conseguido testes pelos seus próprios meios, mas não há uma estratégia coordenada a nível nacional”, disse. “Não sabemos de nenhum plano do Governo para fazer chegar material às empresas.”

Também o sindicalista Daniel Barragán, que é secretário sindical da Federação da Construção e Serviços, aponta para a inexistência desses materiais. “Não soubemos de qualquer distribuição de máscaras e não houve equipamentos de proteção individual sequer na semana passada, quando ainda não trabalhavam os serviços de primeira linha”, disse. Outro sindicalista, Pedro Hojas, da UGT, explica ainda que algumas empresas tinham máscaras e outros materiais que fora  “confiscadas pelo Governo para serem dadas prioritariamente a trabalhadores da saúde”.

Especialistas divergem na pertinência deste regresso

Perante este regresso à atividade daquilo que se estima serem 1,8 milhões de trabalhadores em toda a Espanha, os especialistas divergem quanto ao risco que pode ou não estar em causa.

“Ninguém sabe se prolongar estes cinco dias vai ter um enorme benefício ou se pesará mais o impacto económico. Nenhuma decisão pode ser fixa e radical”, disse, segundo o El País, Toni Grilla, um epidemiologista que faz parte do membro do comité científico que assessora o Governo.

De acordo com este especialista, o regresso ao trabalho dos setores da indústria ou da construção, entre outros, representará o regresso de 10% da mobilidade urbana total — e que o confinamento ditado para a generalidade da população continuará a suspender 70% da mobilidade pré-coronavírus. Como tal, rejeita que se passe “do branco para o preto” com a retoma da atividade para estes 1,8 milhões de pessoas.

Já María José Campillo, da Confederação Espanhola de Sindicatos Médicos, lamenta esta medida, que critica por ser precoce. “Continuamos às escuras. Vai ser feita uma desescalada do confinamento sem saber quantas pessoas estão afetadas nem quantos assintomáticos há”, disse ao El País. “Pode haver um foco a qualquer momento.”

Governos regionais chocam com Sánchez em reunião no domingo

Para aplicar o regresso ao trabalho de 1,8 milhões de trabalhadores, o Pedro Sánchez teve este domingo uma reunião por videoconferência com os presidentes das 17 comunidades autónomas espanholas. Nela, segundo o El País, ficou confirmado o descontentamento de dos líderes das comunidades autónomas dirigidas por partidos independentistas (a Catalunha e o País Basco) e também por aquelas que contam com governos regionais liderados pelo Partido Popular (PP).

A partir da Catalunha, o presidente do governo regional, Quim Torra, disse que esta medida era uma “imprudência enorme” e uma “irresponsabilidade”.

“Põe-se em causa a recuperação sanitária e, se não corrigirem a medida, o governo regional fará tudo o que estiver nas suas mãos para proteger os seus cidadãos”, disse Quim Torra. O líder independentista disse que a este regresso ao trabalho de 1,8 milhões de pessoas em todo o país não é acompanhado de “garantias, nem de autoproteção para as pessoas, nem medidas laborais claras”.

No País Basco, o lehendakari, Iñigo Urkullu, do Partido Nacionalista Basco, fez eco das recorrentes críticas da oposição (tanto à direita nacional como entre independentistas das mais diferentes orientações políticas) à falta de consulta do governo central aos governos regionais. “Este é o quinto domingo consecutivo em que são trazidas decisões consumadas. Peço uma reconsideração urgente sobre o método de trabalho, que não é admissível”, disse o presidente do governo regional do País Basco.

Também a presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular, atirou contra o Presidente de Governo naquela reunião à distância. A Comunidade de Madrid e o Governo de Espanha têm mantido uma relação tensa durante esta crise, com críticas de parte a parte a serem feitas. Na quinta-feira, em debate no Congresso dos Deputados, a porta-voz do PSOE, Adriana Lastra, acusou a presidente do governo regional de “má gestão”. Isabel Díaz Ayuso disse na reunião com os restantes presidentes autonómicos e com Pedro Sánchez que “esperava um pedido de desculpas”, acrescentando que “foi muito injusto criticar a Comunidade de Madrid em sede parlamentar”.

Na Galiza, o presidente da Xunta, Alberto Feijóo, do Partido Popular, apontou no mesmo sentido. “A desconfiança está a crescer”, disse. Sobre a chamada do Presidente de Governo, no debate de quinta-feira no Congresso dos Deputados, para uns novos Pactos da Moncloa, Alberto Feijóo disse: “Seria fantástico que pudesse haver acordos, mas para isso é preciso haver confiança e transparência”.

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