Ainda mais afastados da família devido à pandemia, cerca de 250 idosos, de três das 24 freguesias lisboetas, estão a ser apoiados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que tem registado um aumento dos pedidos de alimentação.

“Temos muitas pessoas que se afastaram ainda mais dos seus familiares e a esses nós estamos a dar ainda mais suporte”, disse à Lusa Edna Vitorino, responsável pelo serviço de apoio ao domicílio da SCML no Centro São Boaventura, que se localiza na zona do Bairro Alto.

Distribuindo este apoio por aéreas geográficas, nas freguesias lisboetas da Misericórdia, Santo António e Estrela são “cerca de 250 utentes” a receber ajuda, desde a alimentação à higiene pessoal, contando com 61 auxiliares de geriatria.

“Temos mais pedidos ao nível de refeição refrigerada, as pessoas passaram a pedir alimentação e há pessoas que só passaram a pedir a alimentação, não têm apoios de higiene pessoal”, avançou a responsável da SCML, referindo que antes o pedido mais frequente era para cuidados de higiene pessoal.

No âmbito da pandemia da covid-19, os idosos fazem parte do grupo de risco, pelo que devem cumprir isolamento social. Há famílias que se afastaram, “filhos que não visitam, mas que entram em contacto telefonicamente”. Com menor dimensão, há também quem decidisse aproximar-se para cuidar dos seus.

“Tivemos também muitas pessoas, das que já acompanhávamos, que deixamos de dar apoio neste período, porque as famílias estão a assegurar esse apoio para evitar que as auxiliares de geriatria entrem nos domicílios. Como elas vão a diversos domicílios, as famílias ficaram um bocadinho receosas, quiseram proteger os seus idosos e levaram-nos para casa”, adiantou Edna Vitorino.

Ainda assim, regista-se “uma grande percentagem de pessoas que estão sozinhas, alguns até têm família, mas as famílias ou residem longe, trabalham, não as podem visitar com muita regularidade”, indicou a responsável da SCML.

Com enfoque no acompanhamento da população idosa, o projeto Radar, promovido pela SCML, com o apoio das Juntas de Freguesia, verificou que 24% da população em Lisboa tem 65 ou mais anos (cerca de 131 mil pessoas), 85 mil pessoas vivem sós ou acompanhadas por pessoas da mesma idade e 15% das habitações são ocupadas por idosos que vivem sós (cerca de 35 mil pessoas).

Sobre o impacto do projeto Radar nas três freguesias que acompanha, Edna Vitorino assegurou que a maioria dos idosos sinalizados já tinha apoio da SCML.

“Situações que não tivessem nenhum apoio, não tivemos muitas”, reforçou.

Neste momento, os cerca de 250 idosos apoiados têm um acompanhamento “muito diversificado, nem todos têm apoio todos os dias”, precisou a responsável da SCML, explicando que alguns têm visitas diárias, outros têm apoio pontual.

O serviço domiciliário pode incluir higiene pessoal, tratamento de roupa, entrega de refeições, acompanhamento a consultas e organização das caixas da medicação.

Para combater a solidão, além das visitas das auxiliares de geriatria, os utentes são contactos, todas as semanas, pelos coordenadores de apoio domiciliário.

“Todas as situações que são acompanhadas têm um contacto telefónico, uma vez ou três vezes ou quatro vezes por semana, dependendo do índice de vulnerabilidade”, revelou Edna Vitorino, acrescentando que há uma divisão entre pouco vulneráveis, muito vulneráveis e vulnerabilidade média.

“Se os coordenadores percebem que a pessoa está mais triste, está mais em baixo e precisa de algum conforto, possivelmente, nessa semana, o utente é contactado todos os dias”, apontou.

Entre os cerca de 250 utentes, são 51 os idosos que se encontram muito vulneráveis, com uma vulnerabilidade média são à volta de 50 e os outros são menos vulneráveis, segundo a responsável da SCML.

Em tempos de pandemia, a principal dificuldade é com os utentes menos vulneráveis, que apenas precisam de apoio pontual, porque insistem em sair de casa.

“As pessoas mais idosas querem continuar a fazer a vida normal, a irem à rua, a irem tomar o seu café e a não se protegerem tanto”, contou Edna Vitorino.

No apoio da SCML está ainda previsto o acompanhamento psicológico, bem como a serviço médico de psiquiatria.

“Temos algumas pessoas que estão mais depressivas, estão mais tristes, estão muito cansadas de estarem sozinhas fechadas, mas notamos mais nas pessoas que estavam habituadas a ter uma vida de autonomia, inclusive vir para o centro de dia, para essas pessoas está mais difícil manterem-se em casa e lidarem com a pandemia”, referiu a responsável da SCML.