O economista guineense Paulo Gomes defendeu, em entrevista à agência Lusa, que a pandemia de covid-19 mostrou em África um lado de oportunidade e um sentido de urgência em acelerar a industrialização do continente.

“É uma crise que permitiu também mostrar a parte da oportunidade. O desenvolvimento é também uma questão de mudança de mentalidade e não foi fácil, gradualmente, caminhar no sentido de os africanos perceberem que é possível e necessário criar cadeias de valor e começar a fabricar muitas coisas em África para criar empregos e capacidade industrial”, disse Paulo Gomes.

“Isso está a acontecer agora. Esta crise permitiu abrir os olhos a vários líderes e compreender o sentido da urgência”, acrescentou.

Para Paulo Gomes, antes da pandemia “havia uma compreensão” da necessidade de industrialização do continente, mas “não havia um sentido de urgência”.

“Neste momento, há uma mistura de mudança de mentalidade e de sentido de urgência que faz com que possa ser uma oportunidade para começar, de facto, a incrementar o novo paradigma de desenvolvimento industrial no continente”, reforçou.

Paulo Gomes é diretor-executivo da AfroChampions Iniciative e representa o setor privado no Fundo de Resposta à covid-19, lançado, em abril, em parceria com a União Africana.

A iniciativa visa mobilizar 150 milhões de dólares (cerca de 138 milhões de euros) para resposta às necessidades imediatas para prevenir a propagação da doença e até 400 milhões de dólares (cerca de 370 milhões de euros) para apoiar uma resposta médica sustentada a esta e a futuras pandemias.

Por agora, explicou Paulo Gomes, a mobilização de recursos ronda os 60 milhões de dólares (cerca de 53 milhões de euros) entre compromissos de doações assumidos pelos países-membros da União Africana, mas também de parceiros internacionais e do setor privado.

“Começámos uma campanha mundial de angariação de fundos e está a dar resultados”, disse, sublinhando que, além das contribuições esperadas dos países, decorre uma operação de “crowdfunding” em que qualquer contribuição, por simbólica que seja, conta.

África do Sul, República Democrática do Congo, Quénia, Mali, Senegal, Ruanda e Egito são países que já contribuíram para o fundo, em que por agora se faz notar a ausência de contribuição dos países africanos lusófonos.

“Tenho de fazer um ‘forcing’ para tentar também sensibilizar os países lusófonos, mas por enquanto não houve resposta”, disse, mostrando-se confiante que “a maior parte” destes países irá contribuir.

“Não há um nível mínimo, pode ser simbólico. Isto é África que se mobiliza estrategicamente não só para esta, mas para potenciais futuras pandemias e para reforçar o Centro de Prevenção e Controlo de Doenças do continente, o África CDC”, acrescentou.

Para Paulo Gomes, é importante que o África CDC se possa reforçar e posicionar como organismo de vigilância e na área da investigação e pesquisa de medicamentos e vacinas, sublinhando que esta agência da União Africana, criada em 2017, está a ter um grande reforço de médicos e epidemiologistas.

África continua a região menos afetada pela covid-19 e são várias as vozes que assinalam a resposta rápida e concertada do continente à pandemia, uma resposta para a qual, segundo Paulo Gomes, foi decisivo o papel do setor privado.

“Mobilizámos imediatamente o setor privado porque no passado o setor privado esteve [presente], mas de uma forma pouco organizada. Desta vez conseguimos mobilizar vários bancos comerciais africanos e várias empresas para um papel mais importante”, apontou.

Por outro lado, o economista sublinhou a importância de ter sido contrariada a reação inicial de muitas pessoas no sentido de que todos os equipamentos e materiais necessários deveriam ser importados, nomeadamente a China.

“Imediatamente começámos a insistir no facto de que esta crise devia também permitir ver aquilo que os africanos podem fazer em termos de fabrico dos materiais necessários para a luta contra a covid-19, nomeadamente máscaras e equipamentos de proteção para os profissionais de saúde”, adiantou.

Nesse sentido, foi possível reorientar e reajustar as estruturas industriais de muitas empresas para o fabrico destes equipamentos.

“Há muitas entidades que estão a fabricar máscaras e não precisamos de concentrar tudo nas importações da Ásia e da Europa”, disse.

Ainda assim, num contexto de corrida a equipamentos de combate à pandemia, Paulo Gomes admitiu dificuldades na obtenção de ventiladores para o continente.

A Afro Champions Iniciative é um projeto liderado pelo ex-Presidente sul-africano Thabo Mbeki e que visa mobilizar fundos de investimento para ajudar ao desenvolvimento económico de África.