A detenção de Ghislaine Maxwell por ligações a Jeffrey Epstein, na quinta-feira de manhã, veio aumentar a pressão para o lado da família real britânica. Na mesma conferência de imprensa onde ficou claro que Maxwell está agora acusada de seis crimes relacionados com tráfico sexual, os procuradores voltaram a pedir que o príncipe André colabore com as investigações.

“Gostaríamos de receber o príncipe André para que falasse connosco, gostaríamos de poder beneficiar do seu testemunho”, disse a procuradora do distrito Sul de Nova Iorque, Audrey Strauss. “Não temos mais comentários além do que eu já disse (…) as nossas portas permanecem abertas”, afirmou, citada pelo britânico The Guardian.

Príncipe André já se ofereceu três vezes para cooperar no caso Epstein, garantem advogados

Uma fonte próxima de André disse que só no último mês os advogados do filho de Isabel II tentaram entrar em contacto duas vezes com o Departamento de Justiça norte-americano. “A equipa do duque permanece confusa, uma vez que comunicámos duas vezes com o Departamento de Justiça no último mês e até ao momento não obtivemos resposta”, garantiu.

O príncipe André, oitavo na linha de sucessão ao trono britânico, ficou envolvido no caso depois de ter sido fotografado em 2010 à porta da mansão de Epstein. Mas foi a acusação de Virginia Roberts Giuffre — uma das alegadas vítimas de Epstein — que provocou ainda mais tensão. Giuffre diz ter tido relações sexuais com o príncipe pelo menos três vezes entre 2001 e 2002, quando na altura ainda seria menor. André tentou defender-se das alegações numa desastrosa entrevista à BBC em novembro do ano passado.

Príncipe André nega ter abusado de jovem de 17 anos. Nesse dia, tinha ido a uma pizzaria

A entrevista gerou uma reação de descrença por parte tanto do público como dos media, com críticos no Reino Unido e nos EUA a dizer que as justificações de André deixaram muito a desejar: negando qualquer envolvimento com Virginia a 10 de março de 2001, uma das três datas em que esta diz ter sido forçada pelo duque de Iorque a ter relações sexuais, o príncipe defendeu-se dizendo que, nesse dia, estava em casa com as filhas e que levou uma delas a um “Pizza Express em Woking”, algo “muito incomum” para ele .

Virginia Giuffre, na acusação que fez contra o príncipe, apresentou vários detalhes e disse lembrar-se na perfeição do que aconteceu antes deste a ter obrigado a ter relações sexuais com ele: jantaram e foram dançar para uma discoteca em Londres, a Tramps, onde o duque terá transpirado muito. Em resposta, Andrew afirmou que era impossível ter transpirado dessa maneira, uma vez que sofria de uma “condição médica” que o impedia de suar — problema que associou à participação na Guerra das Malvinas (conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido, entre 2 de abril e 14 de junho de 1982).

O certo é que no rescaldo da embaraçosa entrevista, André abandonou as funções públicas enquanto membro da família real britânica. 

Ghislaine Maxwell “montava a armadilha”

A acusação divulgada na quinta-feira refere que Maxwell “ajudou, facilitou e contribuiu para o abuso de raparigas menores por Jeffrey Epstein”. A socialite é acusada de estar envolvida num esquema com Epstein entre 1994 e 1997, de maneira a atrair raparigas menores para depois serem abusadas sexualmente. Entre as vítimas estão meninas que, à data dos eventos, tinham 14 anos.

Entretanto, Maxwell foi formalmente acusada de aliciar e conspirar para aliciar menores a viajar para participarem em atos sexuais ilegais, transportar e conspirar para transportar menores com intenção destes se envolverem em atividades sexuais criminosas e ainda de perjúrio.

Quem é Ghislaine Maxwell, a mulher acusada de ajudar Jeffrey Epstein?

Também na quinta-feira, os investigadores acusaram Maxwell de fugir e argumentaram que já antes ela tinha mentido sobre o seu envolvimento direto e indireto no abuso de raparigas menores de idade. “Maxwell desempenhou um papel crítico ao ajudar Epstein a identificar, travar amizade e recrutar vítimas menores para abusar delas”, disse ainda a procuradora Audrey Strauss. “Em alguns casos, Maxwell participou no abuso”.

“Ela montava a armadilha. Ela fingia ser uma mulher em que elas [as alegadas vítimas] podiam confiar”, continuou Strauss. Apesar de o nome da socialite já ter surgido em várias acusações de mulheres alegadamente recrutadas para a rede de tráfico sexual de Epstein, Maxwell sempre negou ter cometido alguma ilegalidade.

Charges Announced Against Epstein Confidante Ghislaine Maxwell By Acting NY Southern District US Audrey Strauss

Audrey Strauss na conferência de quinta-feira (Spencer Platt/Getty Images)

De acordo com a acusação, Maxwell ficava ainda amiga das alegadas vítimas, interessando-se sobre as suas vidas, estudos e até famílias. Tanto ela como Epstein tinham relações com as raparigas e levavam-nas ao shopping e até ao cinema. O recrutamento, de acordo com os documentos legais, aconteceram na mansão nova-iorquina de Epstein, mas também na propriedade deste em Palm Beach, Flórida, e ainda no rancho em Santa Fé, no Novo México.

Maxwell tentaria ainda “normalizar os abusos sexuais” de menores ao discutir assuntos sexuais e despir-se em frente das vítimas, estando até presente durante os atos sexuais que envolviam as menores e Epstein, ainda de acordo com a acusação.

A socialite inglesa estava desaparecida desde o verão passado, depois do aparente suicídio de Jeffrey Epstein, na prisão onde estava detido há mais de um mês. O milionário norte-americano era suspeito de controlar um esquema de tráfico sexual e aguardava julgamento por abuso e tráfico de menores.