O dia começou com a apresentação de dois reforços. Dois brasileiros, um vindo do outro lado do Atlântico, do Fluminense, outro de mais perto, do Boavista. Gilberto e Helton Leite, lateral direito e guarda-redes, falaram este sábado como reforços do Benfica pela primeira vez, depois de ambos assinarem contrato até 2025.

“É um sentimento de gratidão. Recebi muito carinho dos adeptos pelas redes sociais. Estou muito empolgado, ansioso para vestir esta camisola. Vou dar o meu máximo e quero fazer uma grande temporada. O Benfica é um gigante da Europa e do mundo. Estou muito feliz. Espero mostrar o meu valor dentro de campo. É um clube com muita história e tenho a certeza que este ano vai ser muito bom para nós. Quero fazer uma grande temporada, ficar marcado na história do clube e isso para mim é muito importante. Tenho muitos sonhos, sou um rapaz que gosta muito de trabalhar e desafiar-me sempre. Planeio também chegar à seleção do meu país e com certeza no Benfica tudo vai ser mais fácil porque é um clube muito grande”, disse Gilberto, que já passou pela Europa para representar Fiorentina, Hellas Verona e Latina, à BTV.

Gilberto, o lateral do Fluminense que começou a jogar na escola de Zico e passou pela Fiorentina, vai ser reforço do Benfica

Já Helton Leite, até aqui guarda-redes do Boavista que passou pelo Botafogo antes de lançar a carreira na Europa, recordou Jorge Simão, o primeiro treinador que o recebeu quando chegou aos axadrezados. “Ele deu uma folha a cada jogador, em que escrevemos os objetivos. Um dos objetivos que coloquei foi jogar num grande europeu. Esse sonho, anotação na folha, está a realizar-se, ao chegar não só ao maior clube de Portugal, como a um dos maiores da Europa, bicampeão europeu”, revelou o brasileiro. E ambos, logo à partida, mencionaram Jorge Jesus e a importância que a chegada do treinador português à Luz também teve nas respetivas contratações. Jesus que, por seu lado, também deu este sábado a primeira entrevista oficial como técnico encarnado.

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“Esta é uma casa onde estive durante seis anos e onde vou estar a partir de amanhã. É com grande prazer e satisfação, com um leque de jogadores que me satisfaz. Quando começo uma pré-época, gosto de tentar conhecer melhor os jogadores e ter ideias mais fixas. Uma coisa é conheceres o plantel de fora, outra é conheceres trabalhando com eles. Há jogadores que ainda não chegaram e também há jogadores que já cá estão e que não vão terminar. Não tenho receio de assumir quando tiver de falar com os jogadores quando tiver de lhes dizer que terão de procurar outro projeto, mas primeiro quero trabalhar com eles. É claro que já existem alguns nomes. Há um historial, relativo a alguns jogadores que são do Benfica, há alguns jogadores que temos de respeitar, mas temos de avaliar”, começou por dizer Jorge Jesus, sublinhando o trabalho que está a ser feito para montar o plantel da próxima época.

Jazz a tocar lá dentro, camisolas com o nome do treinador cá fora: Jesus foi apresentado e há muito tempo que Vieira não estava tão feliz

Colado à ideia de apostar pouco na formação, o treinador português reconheceu que as camadas jovens são “uma forma de criar ativos, no presente e no futuro”, mas ressalvou que não será isso a dar “sustento desportivo aos objetivos”. “Não existe nenhuma equipa do mundo que viva da sua formação. Vamos olhar para o Benfica. Da última equipa titular do Benfica, quantos jogam da formação? Um: Rúben Dias. Agora, o Benfica não deixa de ter miúdos com muito valor, temos de saber trabalhá-los e dar-lhes carinho, porque podem não ser a solução imediata mas são o futuro. Isso é que é preciso rentabilizar. O que os adeptos do Benfica querem é ganhar. Ganhar com meninos, com não meninos. Não interessa a cor deles, se é branco ou preto, o que importa é ter bons jogadores. E é isso que me atrai. A equipa de onde eu vim, no meu onze só jogava um estrangeiro. De resto eram todos brasileiros. Mas porque tinham qualidade (…) Essa ideia de formar jogadores para que os objetivos dos clubes sejam alcançados, neste caso os desportivos, nunca vai acontecer, porque os melhores são vendidos. Temos de ser coerentes, objetivos, e tentar ter sempre os melhores a jogar”, explicou Jorge Jesus, que garantiu que os jovens jogadores que quer acompanhar no Seixal já estão identificados e que vai contar com Diogo Gonçalves, que passou a última temporada ao serviço do Famalicão, na pré-época.

O técnico encarnado comentou ainda o episódio que está a dar muito que falar no Brasil, com Renato Gaúcho, treinador do Grémio, a alegar que Jorge Jesus telefonou diretamente a Everton Cebolinha — que também vai ser reforço do Benfica — para lhe pedir que não jogasse a final do Campeonato Gaúcho contra o Internacional de Porto Alegre. “É verdade que liguei para ele, pelo facto de ser um dos alvos que para mim é importante. É um jogador que, não só pela qualidade, é titular na seleção do Brasil. Sabia que o Everton tinha outra equipa alemã interessada. Procurei convencê-lo a vir para o Benfica, pelo clube que é e pelo projeto que tem. Para atacar a Champions e outras competições que estão no nosso calendário. Tentei movê-lo a vir trabalhar comigo. Nunca disse para ele não jogar. Ele quando chegar a Portugal pode dizer se o convenci a não jogar. A atitude dele no jogo ainda me deixou mais satisfeito. Foi falar com o treinador e disse que queria jogar a final (…) Aquilo que o Renato disse, pode ter sido levado em erro… O Renato não morre de amores por mim, jogou quatro jogos e perdeu três…”, sublinhou Jesus.

Um dia, Jesus não atendeu Vieira. Durante um ano, mal se falaram. Uma década depois, são amigos como sempre – e vão juntar-se na Luz

O treinador falou ainda sobre a possibilidade de Cavani, que vai sair do PSG, rumar à Luz e confirmou que Luís Filipe Vieira “está a fazer tudo para que isso aconteça”. “Sabemos todos que financeiramente não é fácil. Tem de haver uma engenharia financeira, onde o presidente é muito forte. Já estava a ser falado e conversado antes de eu chegar ao Benfica”, revelou Jorge Jesus, que garantiu ainda que não pediu “qualquer jogador do Flamengo” quando regressou a Portugal.

O treinador lembrou ainda que no Benfica “não chega ganhar”, é necessário “dar espetáculo”, e reconheceu que a equipa ainda não vai estar “a voar” na pré-eliminatória da Liga dos Campeões. “Num mês de trabalho não tens a equipa a voar. Agora isso não pode ser um tema de preocupação. Tens quatro ou cinco semanas para meteres a equipa a voar o máximo possível dentro destas quatro semanas, para poder enfrentar um primeiro jogo. Começamos na Champions, não há nenhum jogo do Campeonato. E aqui acho que poderia ter-se pensado na defesa do futebol português na calendarização. Não é só o Benfica, há outras equipas que vão jogar na Europa. Não pensaram nos interesses do futebol português, por causa da pandemia. Os jogadores já não iam ter quatro semanas de férias. Mas eles tiveram três meses sem treinar, precisam de férias para quê? Pelo menos havia de haver a primeira jornada antes dos jogos europeus”, defendeu Jorge Jesus, naquela que foi a primeira entrevista enquanto treinador encarnado.

O técnico disse ainda que “dificilmente” vai terminar a carreira no Benfica e voltou a sublinhar a ideia de que só Luís Filipe Vieira o poderia ter convencido a voltar a Portugal nesta altura. “Sempre tive uma aproximação muito grande com o presidente. Nunca houve um presidente que tivesse entrado na minha casa, só o presidente do Benfica o fez. Ele apenas esteve em defesa dos direitos do Benfica e eu os do Sporting. Não me arrependo de nada”, explicou, comentando também os desentendimentos entre os dois depois da saída do treinador para Alvalade, em 2015.