Costuma-se dizer que a necessidade aguça o engenho e um ótimo exemplo disso chega-nos de Itália, um dos países mais afetados pelo impacto do novo coronavírus que, para retomar alguma normalidade no que a comer e beber diz respeito, decidiu ressuscitar uma técnica dos tempos da peste negra, os buchette del vino , também conhecidos apenas como “janelas do vinho”.  

Na zona da Toscana, proprietários de restaurantes e bares inspiram-se numa peculiaridade arquitetónica medieval para manter os seus negócios e o espírito da cidade vivos. Segundo a Wine Window Association de Florença, um grande número destas portinholas foram reabertas pela primeira vez em centenas de anos. Estas pequenas escotilhas originalmente eram usadas para vender vinho excedente diretamente à classe trabalhadora de Florença. Os cidadãos precisavam apenas de bater nas pequenas portas de madeira e enchiam as suas garrafas de vinho, fenómeno exclusivo à zona da Toscana, principalmente à cidade florentina.

Historiados da Wine Window Association dizem que já os tempos da peste negra se defendia a importância do distanciamento. D.R.

Matteo Faglia, o presidente da Wine Window Association, explica à Insider que “as janelas de vinho foram-se extinguido gradualmente” com as mudanças de legislação em relação à venda de álcool ao longo dos tempos e muitas delas, as de madeira, “perderam-se  para sempre nas cheias de 1966”. Por muito que a venda de vinho tenha sido o seu propósito inicial, agora servem um pouco de tudo, de gelados a cafés e comida, tudo com o devido distanciamento social.

Esta não é, porém, a primeira vez que estas janelas são usadas para impedir a propagação de doenças em Florença. Quando em 1630 a peste negra assolou o país, no geral, e a capital artística e cultural do Renascimento, em particular, os vendedores de vinho– rezam os historiadores — já entendiam a importância do auto-isolamento e usavam as suas escotilhas exatamente por esse motivo: Em vez de receber o pagamento em mão passavam uma palete de metal pela janela e depois desinfetavam-na com vinagre. Tudo isso foi documentado pela Wine Window Association, criada em 2016 para ajudar a sensibilizar os turistas e locais para este fenómeno tão particular.

Francesco Rondinelli, o académico florentino que assina a obra “Relazione del Contagio Stato em Firenze l’anno 1630 e 1633”, obra que analisa a realidade desta cidade italiana durante os anos complicados da epidemia de peste negra, relata que os produtores de vinho que vendiam através destas pequenas janelas também procuraram evitar tocar nos frascos de vinho que lhes eram trazidos pelo cliente, faziam-no de duas maneiras: Ou o cliente comprava o vinho que já estava engarrafado ou podia encher o seu frasco diretamente, usando um tubo de metal que passava pela portinhola e era ligado ao garrafão no interior do palácio, que estava sempre numa posição ligeiramente elevada para que o vinho pudesse fluir facilmente. As referências a estas janelas que aparecem na mesma publicação não as chamava de “buchette” ou “finestrini” mas usava um termo genérico, “sportello”, que significa abertura ou abertura.