As autoridades de Wuhan, a cidade onde foi detetado o primeiro caso de infeção com SARS-CoV-2, esconderam do governo de Pequim, logo em janeiro, informação essencial sobre o verdadeiro perigo do novo coronavírus — e que poderia ter ajudado num combate mais célere do surto, noticia esta quarta-feira o The New York Times.

O jornal cita uma fonte conhecedora de um relatório dos serviços de informações norte-americanos (o New York Times não identifica quais são as agências), o qual concluiu que as autoridades da cidade de Wuhan tentaram esconder informação do governo central chinês, nomeadamente por terem receio de eventuais represálias. As conclusões não contradizem o que Donald Trump tem dito: que o “encobrimento” da China permitiu a propagação do surto.

Porém, ao contrário do que o presidente dos EUA tem defendido, o documento vem mostrar que afinal Xi Jinping, o presidente chinês, não estava, pelo menos ao início, a par de todos os desenvolvimentos sobre o vírus e do verdadeiro perigo que este poderia representar. E saber se a responsabilidade na propagação do surto foi de Wuhan ou de Pequim “faz uma grande diferença” e tem implicações políticas significativas, defende Michael Pillsbury, investigador do Hudson Institute, citado pelo jornal.

Ainda assim, o documento não desresponsabiliza totalmente Pequim e acusa o Partido Comunista chinês, liderado por Xi Jinping, de ter escondido informação relevante da Organização Mundial de Saúde. Aliás, numa investigação divulgada em junho, a Associated Press (AP) já tinha revelado que as autoridades chinesas atrasaram mais de uma semana a publicação do genoma do novo coronavírus, após vários laboratórios públicos o terem descodificado, privando, assim, a OMS de informação essencial.

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Na mesma investigação, a AP adiantava que, em meados de janeiro, as autoridades de Pequim começaram a aperceber-se das potenciais consequências causadas pelo surto de Wuhan. Só a 13 de janeiro, quando a Tailândia anunciou que descobriu o primeiro caso de infeção, é que as autoridades chinesas, alarmadas, começaram a disseminar avisos internos de que uma catástrofe estaria iminente. Um representante tailandês que visitou o hospital de Wuhan disse, citado pela AP, que ouviu um responsável de Pequim avisar sobre a possível transmissão inter-humana, mas o alerta foi desvalorizado pelas autoridades locais.

Apenas quando foi detetado um surto na cidade de Shenzhen e quando, a 19 de janeiro, vários especialistas foram enviados por Pequim a Wuhan — confirmando essa transmissão entre humanos — é que a atuação das autoridades mudou. Xi Jinping anunciou  que o surto devia “ser levado a sério” e a 23 de janeiro ordenou o confinamento de Wuhan.

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